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Patrícia Costa

Primeira licença do Ibama para eólica offshore esbarra em jabutis

Em meio à autorização histórica, Congresso derruba vetos e reintroduz dispositivos que distorcem o marco legal da energia limpa e aumentam a conta de luz

Patricia Costa

Energia eólica offshore, em alto mar, tem maior potencial de produção por não haver barreiras para os ventos
Energia eólica offshore, em alto mar, tem maior potencial de produção por não haver barreiras para os ventos Banco de imagens/Pexels

O Brasil acaba de dar um passo histórico na transição energética. Pela primeira vez, o Ibama concedeu uma licença prévia para um projeto de geração eólica offshore — energia gerada a partir do vento no mar. O documento reconhece a viabilidade ambiental do projeto-piloto do Instituto Senai de Inovação, que será instalado no litoral do Rio Grande do Norte. Com potência de 24,5 MW, o empreendimento não tem fins comerciais imediatos. Ele servirá como plataforma de testes para tecnologias nacionais voltadas à geração em alto-mar, envolvendo pesquisa, inovação e qualificação de mão de obra. A energia gerada abastecerá operações locais no Porto-Ilha de Areia Branca. Mas enquanto o país avança do ponto de vista técnico e ambiental, o cenário político aponta na direção oposta. O Congresso Nacional derrubou oito vetos presidenciais e reintroduziu dispositivos — os chamados “jabutis” — que ameaçam a integridade do novo marco legal. Esses trechos obrigam a contratação de fontes de energia como pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), térmicas a gás, usinas a carvão, hidrogênio de etanol e eólicas em regiões sem necessidade comprovada. Todos esses itens haviam sido vetados pelo presidente Lula por recomendação técnica da Aneel, Ministério de Minas e Energia e Fazenda. A estimativa da equipe econômica é que os jabutis podem gerar um impacto de até R$ 545 bilhões até 2050, elevando as tarifas de energia em para consumidores de todo o país. Além disso, entidades como o Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema) alertam para um aumento potencial de 25% nas emissões de gases de efeito estufa, caso as térmicas sejam efetivamente contratadas.

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Na prática, o país inaugura um marco regulatório importante para consolidar sua posição em energias limpas, mas ao mesmo tempo fragiliza a própria base dessa transição ao misturar interesses regionais, subsídios distorcidos e decisões sem respaldo técnico. A licença do Ibama é uma conquista — e também um alerta. O Brasil tem tudo para ser protagonista em inovação energética. Mas esse protagonismo exige coerência: regras estáveis, base técnica e decisões alinhadas ao compromisso climático. A energia do futuro não pode ser capturada pelas distorções do passado.

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