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Patrícia Costa

Quem fica quando o progresso chega?

Trabalho social em Jericoacoara e Preá revela um dos pontos cegos do “S” no ESG: o desenvolvimento só é sustentável quando a comunidade participa do futuro que está sendo construído.

Patricia Costa

Quem fica quando o progresso chega?
Quem fica quando o progresso chega? Divulgação

Em Jericoacoara e no Preá, o vento sempre esteve lá. O que mudou foi o valor que o mundo passou a dar a ele.
O vento virou esporte, destino turístico, ocupação hoteleira e valorização imobiliária. Trouxe empregos, renda e investimentos. Mas também acelerou uma transformação que nenhuma planilha consegue explicar por inteiro.

O que acontece com uma comunidade quando o lugar em que ela vive passa a valer mais para quem chega do que para quem sempre esteve ali?

O Parque Nacional de Jericoacoara recebeu cerca de 1,3 milhão de visitantes em 2025. No Preá, o avanço do turismo e do mercado imobiliário alterou a paisagem, o preço da terra e a relação dos moradores com o próprio território.

Um estudo publicado em 2025, baseado na escuta de 488 pessoas, identificou aumento dos conflitos fundiários, deslocamento de famílias tradicionais e empregos muitas vezes sazonais e de baixa remuneração. Ao mesmo tempo, a maioria dos entrevistados reconheceu os benefícios econômicos do turismo.

Essa contradição importa.

O desafio do ESG não está em impedir que o capital chegue. Está em evitar que ele cresça destruindo os elementos humanos, culturais e naturais que tornaram aquele território valioso.

Foi pensando nisso que compreendi melhor o trabalho de Morgana Masetti.

Psicóloga, doutora e cofundadora dos Doutores da Alegria, Morgana dedicou boa parte da vida a estudar a qualidade dos encontros dentro dos hospitais. Seu trabalho ajudou a lembrar à medicina que, antes do diagnóstico, existe uma pessoa.

Agora, à frente do Instituto S.E.R., ela leva esse mesmo princípio para outro território.

Antes do destino turístico, existe uma comunidade.

Quando Morgana fala sobre o Instituto, seus olhos brilham. Mesmo com uma trajetória consolidada na humanização da saúde, ela quer avançar. Não para abandonar o que construiu, mas para ampliar o alcance do cuidado.

A Academia dos Ventos ensina kitesurf aos jovens do Preá e abre possibilidades para que se tornem atletas ou instrutores. O principal atrativo econômico da região também pode se transformar em conhecimento, renda e futuro para quem nasceu ali.

O apoio à Orquestra AME oferece formação musical a crianças e adolescentes. Exposições, rodas de conversa e registros audiovisuais preservam a memória dos moradores. O trabalho com artesãs fortalece saberes que correm o risco de desaparecer justamente quando a região se torna mais conhecida.

Essas iniciativas parecem diferentes. Mas respondem ao mesmo problema: quem ocupará o centro dessa nova economia?
O impacto social não está somente em atender pessoas. Está em mudar o lugar que elas ocupam. De mão de obra para profissionais qualificados. De personagens de uma paisagem para autores de sua própria história. De beneficiários para participantes das decisões sobre o território.

A Agenda 2030 da ONU estabelece que o turismo sustentável deve criar empregos e promover a cultura e os produtos locais. Mas o “S” do ESG exige uma reflexão ainda mais profunda.

Quem concentra o valor gerado pelo desenvolvimento? Quem suporta seus custos? Quem consegue permanecer?

Essa discussão ultrapassa Jeri e Preá. Ela aparece em regiões transformadas pela mineração, pelo agronegócio, pela energia renovável, por grandes obras de infraestrutura e pelo próprio turismo.

O capital costuma chegar antes da governança. Conta empregos criados, mas raramente registra as partidas. Mede a valorização da terra, mas não calcula a perda de pertencimento. Celebra o crescimento do destino, enquanto a população local corre o risco de virar figurante.

Morgana já havia construído autoridade e legado. Seu impacto está também na decisão de não transformar esse legado em ponto de chegada.

Ela usa conhecimento, influência e experiência para abrir caminhos para outras pessoas. Não precisa ocupar o centro.

Trabalha para que mais gente possa chegar até ele.

Talvez essa seja uma das formas mais profundas de liderança social.

Durante anos, Morgana ajudou a mostrar que um paciente não pode ser reduzido à doença. Agora, seu trabalho nos lembra que uma comunidade não pode ser reduzida à força de trabalho de um destino turístico.

Antes do diagnóstico, existe uma pessoa.

Antes do empreendimento, existe um território vivo.

Antes do ativo, existe uma história.

Um desenvolvimento que precisa apagar essa história para prosperar pode até gerar lucro. Mas ainda não aprendeu o significado de sustentabilidade.

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