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Reinaldo Polito

Roberta Luchsinger falou, falou, falou e quase não disse nada

A expectativa mínima era a de que arranhasse a campanha de Lula

Reinaldo Polito

Roberta Luchsinger
Roberta Luchsinger Reprodução/YouTube CNN Brasil

O mundo político brasileiro esperava uma bomba neste sábado, 17. A CNN Brasil anunciava uma entrevista com Roberta Luchsinger, no CNN Prime Time, às 20h, conduzida por Débora Bergamasco e Iuri Pitta. Às vésperas das eleições, a conversa poderia ser devastadora para Lula, que não anda lá muito bem das pernas nas pesquisas.

Se ela revelaria algum segredo palaciano ou confirmaria alguma fofoca dos corredores da política, não importava muito. Como andava sumida do noticiário, só aparecer na televisão em horário nobre já seria um acontecimento. A expectativa mínima era a de que arranhasse a campanha de Lula.

Entre ratos e pulgas

Para os aliados de Flávio Bolsonaro, a entrevista foi um tsunami capaz de balançar as estruturas do governo, e a oposição imagina ter agora um poderoso arsenal nesta reta final. Para os aliados de Lula, foi um traque inofensivo. Os mais entusiasmados disseram que a montanha pariu um rato.

Os mais cautelosos ficaram com uma pulga atrás da orelha, já que essa não era hora de reacender esse tipo de assunto.

Dependendo do viés de quem analisa, duas deduções podem ser feitas: ela passou muita informação que poderia complicar o presidente e seu filho, Lulinha, ou só acusou com suposições e palavras vazias. Vale a pena espremer a entrevista para ver o que sobra.

“Acho” não é certeza

Os lulistas têm razão em um ponto. Quem colocar a lupa nas linhas e entrelinhas da entrevista vai constatar que Luchsinger estava mais disposta a defender a própria imagem e fazer críticas generalizadas do que apresentar provas comprometedoras. Quase todas as suas respostas foram precedidas de “acho” e “é possível”. Mesmo quando usava um “com certeza”, vinha antes um “acho que”, o que esvaziava a afirmação.

Indagada se Lula sabia do que ocorria, respondeu com suposições. Com fala quase indignada, afirmou que, se um presidente diz não saber o que acontece na antessala, ou é mentiroso ou é senil. É uma acusação com força para enfraquecer a reputação do chefe do Executivo. Mas, prensada a frase, o que sobra como fato concreto? Nada. Trata-se de uma opinião, que jamais poderia ser considerada prova de que Lula sabia.

Não ouviu a conversa

Ao relatar o encontro do dono da construtora ECB, do grupo português Mota-Engil, com Lulinha em sua casa, deu a entender que a conversa não era republicana, por ter sido a portas fechadas. Os entrevistadores insistiram para que dissesse se ouvira algo. Confessou que não, pois estavam em outro ambiente.

Sua dedução é que, se fosse um simples contato social, ficariam de porta aberta para tomar um drinque. Afirmou ainda que Lulinha ajudou a empresa a firmar contratos com o governo federal, mas não apresentou nenhum documento. Serve à oposição para jogar lenha na fogueira, mas não como prova.

Defesa própria

Luchsinger passou boa parte do tempo falando de si mesma: de como sempre trabalhou de forma correta, de como sua vida nunca mudou e de como a reputação prejudicada lhe custou clientes e contratos, com possíveis consequências para suas filhas.

Acusou Lulinha de tê-la deixado sozinha e disse que, por nunca ter saído em sua defesa, o considera cúmplice do pai. Ela, ao contrário, garantiu nunca abandonar os amigos, e citou como exemplo a ajuda que ofereceu ao ex-chefe de gabinete de Lula, o Marcola, mesmo depois de exonerado. Por mais traíra que Lulinha possa ter sido, nada disso tem peso de acusação.

Encontros com ministros

A informação mais concreta para a oposição foi o nome de dois ministros que se encontraram com Lulinha. Disse que foram inúmeros, mas só revelou esses dois. Isso contraria Lula, que afirmou que o filho jamais se sentou com um ministro. Ainda assim, um ministro pode se encontrar com o filho de um presidente. O mesmo vale para os ministros que, segundo ela, pediam ajuda para conseguir agenda com Lula. Pedir um encontro não é crime, e ela própria negou ter recebido contrapartida.

Quem esperava que a entrevista derrubasse a candidatura de Lula deve estar frustrado. O presidente tem problemas maiores. Está atrás em quase todas as pesquisas, seus pacotes de bondade, nos quais gastou bilhões, não estão surtindo efeito, e a eleição está aí. A amiga de seu filho fica bem atrás na fila de suas preocupações.

A bala de prata parece estar nos dois debates: o da Band, hoje à noite, e o da Globo, na sexta, 23. O desempenho de Lula em confrontos desse tipo, porém, não tem sido muito bom. Apesar de principiante, Flávio demonstrou segurança, equilíbrio e desenvoltura na sabatina desta sexta, 16, na Globo, com Renata Lo Prete. Saberemos logo o resultado. Siga pelo Instagram: @polito

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