“Havia três microfones; o árbitro errou, mas eu consegui controlar os demônios que têm dentro de mim.’ Frase de Abel Ferreira no jogo seguinte àquele em que chutou o microfone no gramado.
Uma forma de dizer duas coisas ao mesmo tempo: eu sou assim — e hoje eu me segurei, apesar dos três micros à frente. Há reconhecimento do instinto. Não há compromisso de parar de ser o técnico que chuta equipamento quando explode.
Pelo chute no Palmeiras e Cerro, multa de 10 mil dólares mais o aparelho quebrado. Por outro chute, dois jogos no Brasil — com efeito suspensivo em seguida. Punição que dói pouco no bolso e quase nada no banco.
Competitividade explica o estresse. Não autoriza o chute.
‘Tenho demônios’ descreve um temperamento. Não descreve um direito. Todo mundo tem impulso. A diferença é o que a pessoa faz com ele. Admitir o temperamento só teria valor se viesse com um ‘errei e não vou repetir’. Sem isso, demônio vira álibi.
Abel, como todo mundo que chegou longe, precisa de alguém ao lado que queira que ele continue grande — e não que ele tenha sempre razão.
Alguém que não faça coro. Alguém autorizado a dizer não sem parecer adversário.
Um conselheiro leal para combater demônios que, de quando em quando, atacam o microfone mais próximo.
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David de Tarso
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