Os exageros de Jesus: do ‘tu, finish’ ao ‘nem o Pelé’
Caso Jorge Jesus/ Cristiano Ronaldo
Não é de hoje que Jorge Jesus insiste em reforçar a imagem de que tem poder total, doa a quem doer. Foi o método de sempre, aplicado ao interlocutor errado, no momento errado.
Jesus construiu boa parte da imagem pública em cima da ideia de comando absoluto. O vestiário é dele, a decisão é dele, e quem discordar — jogador, dirigente ou presidente — fica de fora.
Isso aparece há anos nas coletivas: a frase curta, o “eu decido”, a recusa em negociar status em público. No Benfica, no Flamengo, na Arábia e agora na seleção, o registro é o mesmo. Autoridade dita em voz alta, muitas vezes diante das câmeras, mesmo quando o assunto podia ficar no gabinete.O “tu, finish” disparado para Neymar é desse álbum. Não foi uma conversa reservada sobre o ciclo.
Foi uma sentença pública, curta, feita para ser ouvida: o treinador informando o craque, e o mundo, de que a decisão já estava tomada.
Funciona com elencos que aceitam o método e com torcedores que gostam de pulso firme. Gera atrito sempre que o outro lado também tem ego, nome e megafone próprio.
Com Ronaldo, o padrão bateu de frente com o momento. Jesus não inventou um estilo novo para a seleção; aplicou o de sempre a um capitão que, na reta final de uma carreira enorme, lê qualquer frase pública como um veredito sobre o lugar dele.
“Nem Ronaldo, nem Pelé, nem um presidente” é a versão nacional de um discurso que ele já fez com outros craques — Neymar incluído — e com outros presidentes.
A diferença é o tamanho do interlocutor e o fato de o país inteiro estar ouvindo.
Havia margem para decidir sem transformar a decisão num espetáculo.
Poupar um atacante de 41 anos em jogos seguidos é gestão. Admitir que o mandou aquecer cedo demais é honestidade. Dizer, no dia seguinte, que ninguém muda as ideias dele — nem o maior ídolo do futebol português — já é outra coisa.
É a necessidade de informar o mundo de que o comando é intocável, mesmo quando o custo é uma ruptura evitável.O problema ainda pode ser superado.
A Federação tenta a reunião, Jesus se diz disponível, Ronaldo não fechou a porta de vez. Mas a cicatriz fica.
O encerramento de Cristiano na seleção podia ter sido sob o comando de Jorge Jesus, sem trauma: minutos dosados, papel claro, saída anunciada por ele, quando entendesse que o ciclo tinha acabado.
Pelo visto, o treinador não deu importância a isso. Preferiu a frase que marca território à despedida limpa de quem vestiu a camisa por 23 anos. Com um elenco comum, essa frase passa. Com Ronaldo, no fim da caminhada, virou crise.
Até a próxima.