Setembro é decisivo, mas empresas ainda não sabem como a reforma tributária vai afetar seus negócios
A reforma tributária deixou de ser uma discussão sobre o futuro. Em 2026, as companhias brasileiras começaram a conviver com o novo sistema de tributação do consumo e muitas chegaram a essa etapa sem conseguir responder a uma pergunta básica: quanto a mudança vai afetar o próprio negócio?
Este é o ano-teste da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), com alíquotas de 0,9% e 0,1%, respectivamente. A transição será gradual até 2033, quando o novo modelo estará integralmente em vigor.
Para Davi Damazio, Diretor Geral da Revizia, plataforma de inteligência fiscal e tributária, o grau de preparação do mercado ainda está distante do necessário, não pela falta de esforço das empresas, mas pelo volume e pela complexidade das variáveis que a reforma exige avaliar. Segundo ele, muitas empresas, sobretudo fora do grupo das maiores corporações, que já se estruturaram com mais antecedência, ainda não estão preparadas para o novo cenário.
Segundo Damazio, as maiores corporações saíram na frente. Fora desse grupo, porém, ainda há muita dúvida sobre as novas regras e, principalmente, sobre o efeito que terão em preços, fornecedores, custos e rentabilidade.
É uma discussão que já ultrapassou os limites do departamento fiscal. Um produto lucrativo hoje poderá ter outra margem, um fornecedor competitivo pode deixar de ser a melhor escolha, preços terão de ser recalculados. Dependendo da operação, até a relação com determinados clientes poderá ser revista.
O motivo é técnico e, ao mesmo tempo, prático: CBS e IBS funcionam pelo sistema de crédito não cumulativo, o que muda a régua de comparação entre fornecedores. Um preço mais alto com mais crédito embutido pode custar, na ponta, o mesmo que um preço mais baixo com pouco ou nenhum crédito. Quem decide comprar apenas pelo valor de tabela, sem recalcular o efeito do crédito, corre o risco de trocar um fornecedor competitivo por outro que parece mais barato e não é.
“Se a empresa continuar fazendo mais do mesmo, vendendo os mesmos produtos e serviços pelos mesmos preços, comprando dos mesmos fornecedores e mantendo os mesmos custos, inevitavelmente poderá ter um impacto muito forte na última linha”, diz.
Essa complexidade vem elevando o status da área tributária dentro das empresas. Durante anos, o departamento esteve mais concentrado no cumprimento de obrigações e na solução de problemas tributários, com pouca participação nas decisões estratégicas do negócio.
“A área fiscal nunca foi uma área muito estratégica. Sempre foi vista muito mais como uma área operacional e reativa”, afirma Damazio.
Isso começa a mudar. Informações antes restritas aos profissionais de impostos passaram a interessar diretamente a CEOs, CFOs e conselhos de administração, já que no novo modelo tributário decisões antes vistas como técnicas passam a repercutir diretamente no resultado financeiro e na competitividade das empresas.
O novo cenário também favorece as tax techs, negócios que usam tecnologia para organizar e interpretar informações tributárias. Identificar erros e conferir obrigações continua importante, mas as companhias agora precisam antecipar cenários. É nesse cenário que a inteligência artificial ganha protagonismo.
A Revizia atua nesse mercado. Fundada há 10 anos, começou a comercializar sua plataforma em 2022. A ferramenta nasceu para apoiar trabalhos de consultoria tributária e hoje cruza dados fiscais, contábeis e financeiros.
Entre os recursos estão mais de 140 malhas fiscais automatizadas e um simulador da reforma tributária, que permite projetar os efeitos das novas regras a partir dos dados de cada operação. É possível, por exemplo, estimar o que acontecerá com o resultado caso sejam mantidos produtos, preços, fornecedores e custos atuais durante a transição. A plataforma também reúne recursos voltados à conformidade fiscal, à prevenção de riscos tributários e à identificação de oportunidades de recuperação de créditos.
A inteligência artificial acrescentou outra camada a esse processo. Apesar do alto grau de digitalização da administração tributária brasileira, ainda há grandes companhias que dependem de processos manuais e planilhas para organizar informações.
“Por incrível que pareça, é o que mais funciona ainda em muitas empresas grandes”, conta Damazio sobre o uso do Excel.
A IA começa a encurtar esse trabalho. Quando um diretor precisa de números para uma reunião de conselho, é comum diferentes áreas buscarem informações em sistemas distintos antes de consolidá-las. Com os dados integrados, parte desse processo pode ser feita em minutos.
Agentes de inteligência artificial já conseguem cruzar informações fiscais, financeiras e contábeis e produzir análises para a alta gestão. A tecnologia começa a ser testada também em tarefas mais complexas.
Uma das aplicações em desenvolvimento pela Revizia pretende apoiar processos de diligência em fusões e aquisições, com análise de riscos fiscais e outros dados das companhias envolvidas. São trabalhos que tradicionalmente mobilizam equipes especializadas durante longos períodos.
Isso não significa, na visão de Damazio, que os especialistas tributários perderão espaço. Ele prevê estruturas mais enxutas, mas profissionais qualificados ganhando importância à medida que o trabalho operacional é automatizado.
“Os melhores profissionais tributários tendem a ser cada vez mais valorizados e melhor remunerados”, afirma.
A reforma promete um sistema mais simples no longo prazo. Até lá, haverá uma transição que exigirá adaptação de sistemas, processos e decisões enquanto diferentes etapas do novo modelo entram em vigor. E as consequências não ficarão restritas à área fiscal.
Hoje, a pergunta já não é apenas se os sistemas estão preparados para CBS e IBS. É se quem comanda o negócio sabe o que acontecerá com suas margens quando o novo modelo estiver plenamente funcionando.
Para quem ainda não fez essa conta, 2033 pode parecer distante. Para as decisões que precisam ser tomadas agora, não é.
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