Afastado, Muricy diz que Seleção “jogou dois anos fora” e defende escolha de Tite

  • Por Estadão Conteúdo
  • 19/06/2016 11h44
Técnico do São Paulo

Após deixar o Flamengo, há quase um mês, com problemas de saúde, Muricy Ramalho planeja retornar ao futebol longe da beira dos gramados, apenas como coordenador. Mesmo assim, ainda busca consenso na família, que prefere não vê-lo nos campos de futebol Na última quarta-feira, recebeu o jornal O Estado de S. Paulo em sua casa de agasalho e boné, trajes típicos da maioria dos treinadores, e manteve o habitual tom crítico, principalmente ao falar sobre o momento do futebol brasileiro.

O ex-comandante do Flamengo deu entrevista exclusiva na semana da saída do técnico Dunga e da chegada de Tite à Seleção Brasileira. A mudança, para Muricy, atestou o quanto a CBF perdeu tempo desde a Copa de 2014. “Nós jogamos fora dois anos. Depois da Copa do Mundo, tinha que parar o futebol brasileiro, colocar um técnico interino e vários segmentos do futebol se reunirem para sair com um projeto”, afirmou.

Aos 60 anos, Muricy está há 40 no futebol e há mais de 20 como técnico. O último trabalho acabou repentinamente para que pudesse cuidar da saúde. As crises de arritmia assustaram. Futebol, agora, só pela televisão. A volta à ativa será só no ano que vem. A rotina em 2016 será de exercícios físicos, exames médicos e fins de semana no sítio em Ibiúna para relaxar.

O estresse inerente ao futebol o faz planejar o possível retorno longe da beira do campo. “Seria coordenador técnico, alguém que fizesse a ligação da diretoria com o treinador. Essa função ainda tem espaço no Brasil”, explicou. Para Muricy, o cargo que pensa em assumir é uma função incipiente no País e, por isso, ajuda a explicar a crise atual no futebol.

Ele só vai precisar conversar com a mulher e os filhos antes de voltar a atuar. Todos temem que o estresse da profissão o atrapalhe novamente e preferem que Muricy descanse após ter interrompido os dois últimos trabalhos como treinador (o primeiro no São Paulo, em 2015) para cuidar da saúde. “Eles não querem que eu volte mais”, contou. 

Muricy repensou sobre os apelos familiares ao relembrar de Telê Santana, tutor do seu início na carreira de técnico. Telê apenas parou de trabalhar aos 65 anos, quando sofreu uma isquemia cerebral. “Não quero ficar como ele. Vi que tudo o que aconteceu com ele foi por causa do futebol. O esporte é bom, mas é uma escravidão. Você não tem vida pessoal. O futebol te consome”, disse. “O Telê morava no CT. Não tinha vida. Ficou doente por isso, tenho certeza”, comentou.

Por se considerar intenso, Muricy pensa em atuar em uma função menos exigente. Ele garante que não vai ceder a possíveis ofertas nem mesmo a convites para virar comentarista. 

Somente uma das tentações de pertencer ao ambiente do futebol é capaz de fazê-lo ceder. “Tenho saudade principalmente de jogar. Mas o corpo não responde, aí me machuco. Coisas de velho. Até sou convidado para jogar, mas prefiro ficar só no churrasco”, admitiu.

Em entrevista exclusiva ao jornal O Estado de S. Paulo, Muricy afirmou que a CBF fez a melhor escolha possível para o novo técnico da Seleção brasileira. Tite ganhou apoio do ex-técnico do Flamengo por ser, segundo ele, o melhor da treinador da atualidade. Confira:

Ainda pensa em ser técnico?

O mais provável é não voltar a ser treinador. Como estava me dando arritmia com muita frequência, então não acredito que possa voltar a trabalhar no nível de exigência que eu gosto. Meu pai morreu disso, de enfarte, e minha mãe, de derrame. Tenho que me cuidar.

E em que função pensa em voltar a trabalhar no futebol?

Como coordenador técnico, mas com autonomia. Seria alguém que fizesse a ligação da diretoria com o treinador. Ele escolheria o técnico junto com a diretoria. No Brasil se contrata um treinador e às vezes ele não tem a ver com o que o clube pensa, contratam porque estava disponível. Essa função de coordenador ainda tem espaço no Brasil. Às vezes coloca uma pessoa por ser amigo do presidente. Nossa gestão é ainda muito amadora, feito com jeito de torcedor. Aqui escolhem na base da simpatia.

Gostou da escolha pelo Tite?

Quando acabou a Copa, antes de o Dunga ser o técnico, eu dizia que era a vez do Tite. Para treinar a Seleção tem que ser o melhor, assim como na época em que fui convidado (2010) eu era o melhor. Não aceitei porque não concordava com algumas coisas. O Tite continua merecendo. Uma coisa que deveriam fazer lá atrás está acontecendo agora. O Tite se preparou, sabe que não será como em um clube, de ter o dia a dia. 

A safra atual do Brasil é boa?

Não é possível que esses que estão no Chelsea, Atlético de Madri ou na Itália não sejam bons jogadores. Claro que não é uma geração de craques. Só temos um craque, o Neymar. Sem Neymar, o time vai precisar resolver. Temos uma grande dificuldade atual no que sempre tivemos de melhor, atacantes. Os nossos números, se formos analisar, finalizamos muito pouco. Não temos número 9 mais. Tivemos que levar o Ricardo Oliveira, que tem mais de 30 anos.

Mas o que houve para o Brasil não revelar mais atacantes?

Fiquei 13 dias no Barcelona e só no oitavo dia fui perguntar quem era o preparador físico. Não tinha visto nenhum trabalho antes. Era só bola, o tempo todo. Esses dias fui ver um treinamento de sub-11 e vi um moleque fazendo trabalho físico. Isso não existe. Eu já trabalhei com essa categoria, tem que trabalhar só com bola, para fazer eles se divertirem. 

O que o Brasil evoluiu depois da Copa de 2014?

Nada. Jogamos fora dois anos. Não se conversa, não se fala no futebol brasileiro. Não aconteceu nada. Falta muito debate para melhorar. Na hora que um time jogar mal e ganhar, não tem mais que valorizar.