Árbitro da final de 2018 abre o jogo: ‘Interferência externa é teoria da conspiração’

Marcelo Aparecido de Souza foi o juiz da polêmica decisão do Paulistão de dois anos atrás, que acirrou ainda mais os ânimos entre Palmeiras e Corinthians

  • Por Jovem Pan
  • 07/08/2020 14h51 - Atualizado em 07/08/2020 14h56
FELIPE RAU/ESTADÃO CONTEÚDOMarcelo Aparecido conversou com o quarto árbitro e mudou de decisão após marcar pênalti de Ralf em Dudu na final entre Palmeiras e Corinthians

Aos 47 anos e viajando pelo interior da Paraíba, o árbitro e empresário Marcelo Aparecido de Souza verá a final do Campeonato Paulista entre Palmeiras e Corinthians, no estádio Allianz Parque, apenas pela televisão, ao contrário da experiência intensa que viveu há dois anos, no último encontro entre os rivais em uma decisão de Estadual. Em 8 de abril de 2018, o Corinthians venceu o Palmeiras por 1 a 0 no tempo normal e confirmou a taça nos pênaltis depois de uma partida tumultuada. No início do segundo tempo, Ralf e Dudu disputaram lance na área e o árbitro marcou pênalti. Logo depois, foram sete minutos de paralisação, reclamação e tumulto até a decisão ser revista e a falta ser cancelada.

Na ocasião, o árbitro afirmou que mudou de decisão porque foi avisado por um auxiliar. Já o Palmeiras alegou que houve interferência externa porque um dirigente da Federação Paulista de Futebol (FPF) foi ao campo avisar que a marcação estava incorreta. Não época, ainda não existia o recurso do árbitro de vídeo (VAR). Em 2019, o árbitro fez 46 anos e excedeu o limite de idade para compor o quadro da FPF. Desde então, atua pela Federação Paraibana, tanto por competições estaduais como no próprio Brasileirão, cujo limite é de 50 anos. Apesar da grande polêmica sobre aquela final, Souza se diz tranquilo e afirma que o único erro cometido naquela tarde foi demorar em cancelar o pênalti.

Confira, abaixo, a entrevista com Marcelo Aparecido de Souza:

Dois anos depois, qual a sua leitura sobre o jogo?

“É uma coisa da humanidade, de querer transferir a culpa do que aconteceu para os outros. É sempre de outra pessoa. Eu errei no procedimento. Houve uma demora? Com certeza. Mas o importante é que a decisão foi acertada. Eu estava naquele momento cometendo um equívoco que poderia mudar a história do campeonato com um erro de arbitragem. Mas meu colega, que era o quarto árbitro, estava em uma posição privilegiada lateralmente e conseguiu ver que havia um toque na bola e ele conseguiu fazer com que eu corrigisse minha decisão. Já tinha acontecido isso muito na minha carreira, de estar como quarto árbitro e salvar a arbitragem. A partir do momento que o árbitro marcou, não tem como ele voltar atrás, a não ser que alguém da equipe dele fale que foi um equívoco.”

Houve interferência externa?

“O que me deixa tranquilo é que tivemos a decisão acertada. Agora eu não posso mudar a cabeça dos torcedores. Eles criaram uma teoria de conspiração de que houve uma interferência externa. Eles compraram essa ideia e vão levar isso para sempre. Não importa para eles se eu estava certo ou errado. Falar que houve interferência externa não passa de teoria da conspiração. Não teve interferência. O que houve foi um procedimento equivocado. A forma como foi feita, que durou sete minutos, isso estava errado. Não soubemos conduzir da maneira correta. Poderia ter sido mais rápido? Poderia. Mas com o estádio lotado, a gente não conseguia se ouvir. Dentro do estádio o barulho era ensurdecedor.”

Por que a paralisação demorou tanto?

“Imagina 22 atletas te pressionando e mais o banco de reservas. Você não ouvia o seu colega de trabalho. E muitas vezes o colega nem conseguia chegar até mim porque tinha muita gente. Uma equipe queria que ele me passasse a informação e a outra, não. Estava se tratando de uma decisão que poderia mudar o campeonato Se a gente quisesse fazer algo de errado, hoje tem relógio que te mostra no visor as mensagens que você recebe no celular. Na época, um dos nossos assistentes utilizava desse relógio. Se tivesse alguma teoria da conspiração, não precisava esperar alguém olhar o lance. Era só olhar o relógio e ver se estava ou não impedido ou se teve falta. Isso não vem ao caso, mas criaram uma teoria da conspiração enquanto nós queríamos encontrar a solução na hora.”

Já existia muita pressão sobre a arbitragem antes do jogo?

“Já vinha de um histórico recente de Palmeiras e Corinthians com problemas na arbitragem. Teve um jogador que foi expulso de forma equivocada em 2017 (Gabriel, do Corinthians). Teve um outro problema de um colega que não percebeu um lance de falta e só depois que a bola saiu ele voltou para expulsar o goleiro Jailson. No jogo anterior à final teve expulsão de jogadores que brigaram em campo (Felipe Melo e Clayson). Até aquele momento da partida, eu tinha total controle. Inclusive, eu era o melhor árbitro do campeonato. Um lance mudou tudo. Como você vai controlar 22 jogadores e mais o banco de reservas sendo que é o último jogo do campeonato e com um histórico recente de conflito?.”

Chegou a ter medo depois de alguma agressão ou ameaça?

“Hoje em um mundo que vivemos, de muito ódio, e com a internet dando voz a muitos imbecis, ainda assim eu não tive medo. Em todo o mundo eu sabia que tinha feito a coisa certa. Eu ficaria muito triste, chateado e com medo se eu tivesse tomado uma decisão errada, mantido o meu erro e comprometido todo o trabalho. Eu fiquei chateado por um dia por tudo o que aconteceu, por tudo o que criaram de teoria de conspiração. Nós passamos por acareação, por uma série de coisas. Isso me deixava indignado. Eu tinha 20 anos de arbitragem, com uma passagem limpa. Estavam colocando em dúvida a minha integridade. Eu tinha um bom relacionamento com o Palmeiras, tanto é que tinha feito a semifinal daquele campeonato, contra o Santos. Sempre fui aceito por vários clubes, sem reservas.”

Apesar do episódio ser marcante, parece que você trata com bastante naturalidade…

“Eu não tenho como mudar isso. Também não tenho como mudar o pensamento dos torcedores. Por mais que a gente mostre, prove e eles verem que seria injusto ganhar dessa forma, o torcedor não quer saber. Ele quer ganhar, não importa se a equipe dele não teve competência. A culpa é do árbitro. O Palmeiras tomou gol com um minuto, tiveram mais 90 minutos e mais os acréscimos para poder empatar, não conseguiram e tiveram a chance de ganhar nos pênaltis. Mesmo se eu tivesse marcado o pênalti, não era seguro que teria o gol. Tanto é que na decisão por pênaltis, o mesmo batedor (Dudu) errou. Só que na cabeça do torcedor, ele quer se apegar a alguma coisa porque não admite a derrota. Essa é realidade. Isso não tenho como mudar.”

Não te incomoda ter ficado marcado por esse episódio?

“Eu prefiro ver sempre o copo meio cheio. Se não tivesse acontecido tudo isso, ninguém se lembraria mais de mim depois de 20 anos na arbitragem. Tanto é que você me ligou para essa entrevista. Se tivesse acontecido tudo dentro da normalidade, sem erros de procedimento, todo mundo se esqueceria desse jogo e do árbitro. Eu ficaria chateado se meu quarto árbitro viesse me avisar, eu mantivesse a minha posição e por causa de um pênalti, a equipe seria campeã. Eu ficaria com o pensamento de que tive a chance de corrigir e não tive a humildade de reconhecer que estava errado. Eu poderia ter mudado a história de um campeonato por um erro meu. O pessoal prefere transferir a culpa. Isso é do ser humano. Se alguém não é feliz, a culpa é do outro.”

*Com informações do Estadão Conteúdo