Irã diz que acordo de cessar-fogo com os EUA ‘nunca esteve tão próximo’
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou, nesta sexta-feira (12), que um acordo entre seu país e os Estados Unidos para colocar fim à guerra no Oriente Médio “nunca esteve tão próximo”. A declaração reforça as crescentes expectativas de que os dois lados estejam à beira de um entendimento definitivo, apesar das persistentes tensões e pontos de atrito na região.
Em publicação na rede social X, Araghchi referiu-se ao acordo como o “Memorando de Entendimento de Islamabad”, fazendo alusão à capital do Paquistão que sediou rodadas de negociações entre Teerã e Washington.
“O Memorando de Entendimento de Islamabad nunca esteve tão próximo. Enquanto aguardamos sua finalização, a mídia deve se abster de especular sobre seu conteúdo”, escreveu o chanceler.
Araghchi prometeu transparência sobre o processo, garantindo que “todos os detalhes serão compartilhados com o público oportunamente”, em concordância com o que chamou de “abordagem responsável” do governo iraniano.
Guerra de narrativas
A publicação de Abbas Araghchi vem após uma guerra de narrativas que provocou um aumento na tensão entre Irã e Estados Unidos. A agência de notícias iraniana Mehr chegou a publicar um rascunho de 14 pontos do acordo de cessar-fogo entre os países. Entre as exigências iranianas estariam a manutenção do controle sobre o Estreito de Ormuz, o direito de enriquecer urânio e a liberação imediata de US$ 24 bilhões em fundos congelados no exterior.
Entretanto, a reação de Washington foi imediata. Na rede social Truth Social, o presidente dos EUA, Donald Trump, chamou os vazamentos de “mentirosos” e afirmou que eles não guardam relação com o que foi acordado por escrito. “Essas são pessoas sem honra. É impossível negociar de boa fé com elas”, disse o norte-americano, exigindo que Teerã “caia em si rapidamente”.
Um alto funcionário americano, em entrevista à AFP, apresentou uma versão diferente do texto, resumida em cinco pontos fundamentais:
- Desmantelamento e remoção de todo o material nuclear iraniano;
- Fim do programa nuclear;
- Liberação de fundos condicionada ao cumprimento integral dos termos;
- Reabertura total do Estreito de Ormuz;
- Fim do financiamento de grupos terroristas pelo Irã;
Falsos acordos de Trump
Trump, que segundo contagem da CNN já anunciou um acordo iminente 39 vezes, busca uma saída para um conflito impopular que se arrasta desde os ataques de 28 de fevereiro. Na quinta-feira (11), o cenário oscilou drasticamente: o presidente dos EUA chegou a prometer um ataque de “grande força” contra o Irã naquela mesma noite, para logo em seguida cancelar os bombardeios planejados ao “tomar nota” do progresso nas negociações.
Apesar da trégua em vigor desde 8 de abril, os bombardeios foram retomados no último domingo (7) com ataques de mísseis iranianos contra Israel, em retaliação às hostilidades israelenses em Beirute.
O conflito já deixou milhares de mortos, devastou economias e mantém o mercado de petróleo em alerta — embora o barril tenha caído para menos de US$ 90 nesta sexta-feira diante do otimismo cauteloso dos investidores.
Questão nuclear ainda é impasse
Outro ponto crítico é a questão nuclear e o papel de Israel. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, reforçou, nesta sexta-feira, sua concordância com Trump de que o Irã jamais deve obter armas atômicas, algo que Teerã nega buscar. Enquanto o Irã deseja manter o enriquecimento de urânio e estocar o material em seu território, os EUA exigem a renúncia completa.
A situação no Líbano também divide os negociadores. O Irã defende a “cessação imediata das hostilidades em todas as frentes”, tratando a guerra no Líbano e o conflito direto com os EUA como inseparáveis. Já Washington prefere tratar as frentes de forma isolada. O Líbano, arrastado para o conflito pelo Hezbollah em março, já contabiliza mais de 3.700 mortos devido às operações israelenses que visam “eliminar” o movimento xiita.
Enquanto a diplomacia tenta costurar o memorando em Islamabad, o ceticismo impera entre a população. Em Teerã, o sentimento é de dúvida. “Não sei bem o que pensar”, disse uma moradora de 29 anos à AFP. “O objetivo desta guerra era que os Estados Unidos desmantelassem o sistema, e isso não aconteceu. Então, qual é o sentido de um acordo?”
A expectativa agora se volta para o fim de semana, quando Trump sugeriu que um “acordo muito bom” poderia finalmente ser assinado, pondo fim a uma das crises mais graves da história recente do Oriente Médio.