Não é sobre economia, é sobre geopolítica
Todos sabíamos que o novo mandato de Donald Trump seria marcado por momentos de pane global. O magnata norte-americano prometeu muita coisa durante a campanha de 2024, e de fato, tem buscado cumprir a maior parte de suas promessas mais robustas, ainda no primeiro semestre de seu novo governo. Se no campo militar, a paz no Oriente Médio foi desfeita e no Leste europeu está longe de ser assinada, no campo econômico, Trump sabe que pode ter impactos muito mais rápidos para movimentar a opinião pública interna e externamente. A política de tarifas exageradas, a busca eterna por uma balança comercial favorável e uma conduta protecionista, se enquadram muito bem ao perfil das superpotências mercantilistas do século XVIII, e representam grande contradição ao liberalismo criado e pregado por economistas americanos ao longo dos últimos 200 anos.
Economicamente, o “dia da libertação” proposto por Trump é considerado um erro crasso pelos economistas mais respeitados do mundo. A publicação britânica, The Economist, chamou o dia seguinte ao tarifaço de “dia da ruína”, afirmando que o presidente “cometeu o erro econômico mais profundo, prejudicial e desnecessário da era moderna”.
As bolsas de valores de todo o mundo acordaram de maneira preocupante, com quedas sendo registradas em quase todas as principais bolsas continentais, incluindo a NASDAQ que amargou mais de 5% de queda. A maior empresa do mundo, a norte-americana Apple, perdeu 9% no valor de seus papéis, uma perda estimada acima dos 250 bilhões de dólares (mais de 1,3 trilhão de reais). Muitos analistas afirmam que dada a forte dependência das cadeias de produção em um mundo globalizado, os consumidores norte-americanos também sentirão um pesado impacto nos preços dos mais diversos produtos e serviços em breve.
As reações foram diversas dependendo da linha ideológica. Chefes de governo e de estado mais próximos dos republicanos defendem negociações bilaterais e a possibilidade de descontos após futuros acordos, por isso, dizem que vão atuar com cautela. Lideranças mais à esquerda dizem que a reciprocidade deve ser adotada e alguns até cogitam recorrer a instituições internacionais, como a OMC. O dia seguinte sempre é muito doloroso após anúncios de tal natureza, mas as tendências observadas nos dão sinais de que talvez o objetivo de Washington DC seja outro.
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Apesar do antiliberalismo evidente, Donald Trump, sabe muito bem que sua posição extremamente privilegiada como maior economia global, e que possui em seu território 8 das 10 maiores empresas do mundo, pode causar enormes transformações nas relações entre os países em um período muito curto. Segundo o presidente, o maior objetivo é reindustrializar os Estados Unidos, trazendo de volta ao solo americano, empresas e fábricas que se instalaram, sobretudo na Ásia, nos últimos 30 anos.
Para Trump tal manobra garantiria não apenas milhares de empregos e estabilidade econômica, mas também maior segurança nacional. A premissa do republicano não está equivocada ao concluirmos que a classe média urbana e industrial das grandes e médias cidades dos Estados Unidos, foi a que mais perdeu com o processo de globalização. O problema é o tempo. Os economistas e o próprio presidente, sabem que um processo de reindustrialização demorará muitos anos, e terá, muito provavelmente, um gosto amargo no curto prazo, já que seria marcado por alta inflação e aumento do custo de vida.
Donald Trump é um homem inteligente, um exímio negociador, um empresário bem-sucedido. Este currículo nos faz questionar o porquê de tomar uma decisão tão radical e ao mesmo tempo atrasada para a economia de seu país. A resposta para essa complexa questão não será facilmente encontrada, mas terá relação muito maior com a geopolítica à economia.
Os Estados Unidos reinaram absolutos nos últimos 70 anos economicamente. Mesmo com a Guerra Fria, a corrida armamentista e espacial, nunca a hegemonia econômica dos Estados Unidos, esteve em risco desde 1945. Atualmente o cenário mudou. A indomável China galopa há anos de maneira consistente, apresentando índices econômicos sólidos, ampliando seus mercados e até mesmo confrontando os norte-americanos em setores pontuais, como o de carros elétricos e nos telefones celulares.
A alternativa encontrada por Trump para manter a hegemonia norte-americana não parte do princípio de aumentar as riquezas dos próprios americanos diretamente, mas em buscar economicamente frear o dragão chinês. As tarifas altas sobre os produtos chineses representarão a perda de um recorte importante do mercado consumidor norte-americano, desacelerando a economia chinesa e impactando suas principais empresas.
A aposta do presidente é fazer seu adversário diminuir a velocidade de seu crescimento, e com isso, postergar a ultrapassagem, já irreversível, que os chineses farão. Basta saber se em essa adversidade programada por Donald Trump, os chineses encontrarão lástimas ou oportunidades de também consolidar alternativas para ampliar seus mercados e acordos. Enquanto cálculos são feitos na América do Norte e na Ásia, a primeira peça do tabuleiro de xadrez econômico foi movida por Trump, agora o mundo espera a jogada de Xi Jinping.
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