Banco Central congela Selic a 2% em meio à escalada da inflação

Após nove cortes, Copom mantém juros pela segunda reunião seguida; inflação oficial do país chegou a 3% nos últimos 12 meses encerrados em setembro, pressionada principalmente pelos preços dos alimentos

  • Por Gabriel Bosa
  • 28/10/2020 18h12 - Atualizado em 29/10/2020 09h01
Bruno Rocha/Foto Arena/Estadão Conteúdo A redução ao nível mais baixo da história foi anunciado em agosto e mantida na última reunião do colegiado, em setembro

Comitê de Política Monetária do Banco Central, o Copom, manteve, nesta quarta-feira, 28, a taxa básica de juros da economia brasileira, a Selicem 2% ao ano, o segundo congelamento consecutivo após nove cortes seguidos iniciados em julho de 2019, quando a Selic estava em 6,5% ao ano. A redução ao nível mais baixo da história foi anunciado em agosto e mantida na última reunião do colegiado, em setembro. O Copom se reúne a cada 45 dias, e a última reunião deste ano está agendada para os dias 8 e 9 de dezembro. A decisão do Banco Central está de acordo com o esperado pelo mercado diante dos sinais emitidos pela autoridade monetária em manter os juros baixos, apesar do avanço do IPCA, o índice oficial da inflação brasileira, pressionado principalmente pelo encarecimento dos alimentos. “Não há nenhum indicador que recomende a alteração do nível. Ocorreram pressões importantes na inflação nas últimas semanas, mas que foram relacionadas ao choque de oferta, carência de determinados produtos e aumento de consumo. São efeitos temporários e não vejo expectativa que se torne um problema permanente”, afirmou José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV/Ibre e ex-diretor de Dívida Pública e Mercado Aberto do Banco Central.

Em nota, os economistas do Copom não fecharam a porta para novos cortes, mas sinalizaram que, caso ocorram, serão pequenos. “O Copom entende que a conjuntura econômica continua a prescrever estímulo monetário extraordinariamente elevado, mas reconhece que, devido a questões prudenciais e de estabilidade financeira, o espaço remanescente para utilização da política monetária, se houver, deve ser pequeno”. Em outro trecho, os técnicos da autoridade monetária afirmam que a inflação não apresenta sinais de desestabilização. “O Copom avalia que essas condições seguem satisfeitas: as expectativas de inflação, assim como as projeções de inflação de seu cenário básico, encontram-se significativamente abaixo da meta de inflação para o horizonte relevante de política monetária; o regime fiscal não foi alterado; e as expectativas de inflação de longo prazo permanecem ancoradas”. O Copom ainda destacou a necessidade de manutenção da agenda de reformas do Ministério da Economia para manter a Selic em patamar reduzido. “[…] questionamentos sobre a continuidade das reformas e alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas podem elevar a taxa de juros estrutural da economia”.

A Selic é a principal ferramento do BC para manter a inflação sob controle. Para este ano, a meta da autoridade monetária é que a variação de preços fique em 4%, com margem para flutuar no intervalo entre 2,5% e 5,5%. O IBGE divulgou na semana passada que o IPCA-15, considerado a prévia da inflação, foi de 0,94% em outubro, a maior alta para o mês desde 1995, e acumulou avanço de 3,52% nos últimos 12 meses. Em setembro, o IPCA acumulava 3,14 % nos últimos 12 meses. Já outro indicador de inflação, o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), calculado pela FGV, que considera na sua composição o impacto da alta nos preços no atacado – e não somente os preços ao consumidor, como o IPCA – somou alta de 17,94% nos últimos 12 meses encerrados em setembro. Apesar de apontar a alta do IPCA como algo localizado, o ex-gestor do BC afirma que a crescente inspira atenção. “Toda autoridade monetária tem que estar atenta e não desprezar os sinais. O Banco Central está consciente, e é preciso acompanhar, já que muitas vezes a expectativa da inflação muda de forma repentina.”

Para o próximo ano, a meta do Banco Central para a inflação é de 3,75%. Segundo analistas, o cenário desafiador para a economia em 2021, criado pelo aumento do desemprego e pela retomada gradual de setores fundamentais, manterá a inflação pressionada para baixo. Para Betina Roxo, estrategista-chefe da Rico Investimentos, o movimento de alta de Selic não será feito no curto prazo. “Esperamos que a Selic volte a subir em meados de 2021, fechando em 3%, seguindo retomada da inflação, mas ainda abaixo da meta de 3,75%.” A mesma opinião é compartilhada por Roberto Indech, estrategista-chefe da Clear Corretora, que destaca a necessidade de o Banco Central levar em consideração o ajuste fiscal para a manutenção da taxa básica de juros em 2%. “A questão fiscal, que não deve sair do radar, vai também tocar na questão das pressões inflacionárias de curto prazo que temos visto nas últimas semanas. Não só em relação aos alimentos, mas também a outros insumos e matérias-primas e como isso pode ditar o ritmo das próximas decisões.”

O que é Copom

Comitê de Política Monetária (Copom) é um órgão constituído em 1996 no âmbito do Banco Central do Brasil com as finalidades de estabelecer as diretrizes da política monetária e definir a taxa básica de juros da economia brasileira. Tem, ainda, a competência específica de regular a liquidez da economia, por meio dos instrumentos de política monetária. O Copom se reúne a cada 45 dias. No primeiro dia do encontro, são feitas apresentações técnicas sobre a evolução e as perspectivas das economias brasileira e mundial e o comportamento do mercado financeiro. No segundo dia, os membros do colegiado, formado pela diretoria do BC, analisam as possibilidades e definem a Selic.

O que é Selic

Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira. Os juros são usados pelo Banco Central como uma ferramenta para tentar controlar a inflação, pois a alta ou a queda dos juros influencia o consumo das famílias e a tomada de crédito no país. De modo geral, quando a inflação está alta, o BC sobe os juros para reduzir o consumo e forçar os preços a cair. Quando a inflação está baixa, o BC derruba os juros para estimular o consumo. A Selic tem influência em todas as taxas de juros do país, como a dos empréstimos, financiamentos e das aplicações financeiras. Quando o BC altera a meta da Selic para baixo, a rentabilidade dos títulos atrelados a ela cai e, com isso, o custo dos bancos também diminui. Assim, uma redução da Selic, por exemplo, deve fazer com que os juros cobrados pelas instituições financeiras em empréstimos também caiam. O contrário ocorre quando a Selic sobe: o custo dos bancos aumenta e eles passam a cobrar mais pelos empréstimos.