Creche do interior de São Paulo é denunciada por dopar crianças

Exames detectaram clonazepam – que tem, entre os nomes comerciais, o Rivotril – no sangue e na urina de uma das crianças; outras oito apresentaram quadro clínico semelhante

  • Por Jovem Pan
  • 23/05/2019 14h08 - Atualizado em 23/05/2019 14h25
"Foi um pesadelo. Meu filho ficava com a boca torta, olhar longe, vomitava muito e até desmaiava", disse uma das mães

Nove mães que tiveram seus filhos matriculados no Centro Municipal de Educação Infantil (Cemei) Valter Peresi, em Votuporanga, no interior de São Paulo, suspeitam que eles foram dopados. As crianças apresentaram os mesmos sintomas durante meses.

Uma das mães, a educadora infantil Keli Antoniolo, de 35 anos, disse que o filho foi matriculado na creche com seis meses de idade. Menos de um mês depois, foi entregue desacordado nos braços do pai. “Dos 6 aos 11 meses, foi um pesadelo. Meu filho passava mal. Ele ficava com a boca torta, olhar longe, vomitava muito e até desmaiava. Fazia exames e não dava nada”, contou.

O episódio mais grave ocorreu em 5 de outubro de 2018. O filho de Keli chegou bem ao Cemei, mas, no meio da tarde, as educadoras perceberam que o corpo da criança estava mole. Depois, o bebê vomitou e ficou desacordado. Com dificuldade em descobrir qual era a doença, os médicos diagnosticaram virose. Depois de três dias, teve alta e retornou para a escola.

Em 18 de outubro, apresentou os mesmos sintomas. “Desconfiei que estavam dopando meu filho”, diz Keli. Ela fez boletim de ocorrência. O resultado saiu seis meses depois, detectando o medicamento Clonazepam no sangue e na urina da criança.

A prefeitura de Votuporanga abriu sindicância no dia 3 de maio deste ano para apurar o caso e reforçou que os educadores são orientados a dar às crianças só remédios enviados pelos pais, com receita médica.

“Meu bebê estava sendo dopado na creche. Meu sentimento é de revolta e de angústia. De impotência, por não descobrir antes”, disse a mãe. Em 22 de outubro, ela conseguiu transferir o filho para outra escola.

Além da Keli, oito mães suspeitam que seus filhos tenham sido dopados no Cemei. Todos, que agora já estão matriculados em outras creches, apresentaram os mesmos sintomas. Não fizeram exame toxicológico, mas têm prontuário médico com quadro clínico semelhante.

O advogado de Keli, Hery Kattwinkel, disse que outras mães o procuraram. “Após a divulgação do laudo do filho da Keli, outras mães me procuraram. Esses relatos existem desde 2017. A Secretaria da Educação deveria ter comunicado às autoridades competentes imediatamente.”

O filho da funcionária pública Fernanda Oliveira, de 33 anos, passou mal no Cemei em 2017, quando tinha seis meses de idade. “Fazia 15 dias que estava indo ao berçário. Eu o peguei desacordado. Disseram que chorou muito e dormiu. Aí ficou dois dias na UTI. Fizeram ressonância e exames, mas não detectaram nada”, lembrou Fernanda.

A criança foi mais um dia à creche e voltou a apresentar os sintomas. Depois disso, Fernanda optou por pagar uma babá para cuidar do filho. “Podiam ter matado meu filho.”

Sindicância

Em nota, a prefeitura de Votuporanga informa que abriu sindicância investigatória. Segundo a portaria no Diário Oficial do Município, a apuração é necessária por causa da “gravidade das denúncias”. A comissão do município vai acompanhar também o inquérito policial. No fim de 2018, segundo a prefeitura, a secretaria relatou o caso à procuradoria do município após ser procurada pelos pais da criança.

Riscos

De acordo com a pediatra Maria Cecília Hyppolito, o medicamento Clonazepam – que tem entre os nomes comerciais o Rivotril – só pode ser utilizado com prescrição médica azul, em casos de alterações neurológicas e síndrome do pânico, por exemplo.

Segundo o neurologista Alexandre Meluzzi, a droga tem efeito hipnótico e apaga a memória. “Hoje é usada em pacientes com ansiedade e em casos de síndrome de West, crianças que têm um quadro de epilepsia muito grave. O medicamento tem ações sedativas, anticonvulsivantes e tranquilizantes. Dar esse medicamento sem prescrição médica é crime”, enfatiza.

Para as crianças em que há suspeita do uso do remédio, acrescenta, é necessária a avaliação de um especialista.

*Com informações do Estadão Conteúdo