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Brasil

Enel contesta Aneel e defende manutenção de contrato em São Paulo

Distribuidora afirma que cumpriu metas de qualidade e que recomendação de cancelamento ignora avanços reais no serviço prestado

Nicolas Robert

Vista da subestação da Enel no bairro do Anhembi, na zona norte da cidade de São Paulo
Reguladora Aneel intima Enel por apagão e pode cassar concessão da empresa em São Paulo BRUNO ESCOLASTICO/E.FOTOGRAFIA/ESTADÃO CONTEÚDO

A Enel São Paulo enviou um documento à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para contestar a recomendação de caducidade – quebra do contrato – de seu contrato de concessão. No documento, a empresa defende que cumpriu todas as metas de melhoria estabelecidas e argumenta que a proposta de punição máxima é injusta, baseada em dados distorcidos e em mudanças de regras feitas durante o processo.

De acordo com a Enel, a concessionária de energia apresentou uma evolução na qualidade do serviço nos últimos anos. Entre os principais dados destacados estão:

  • Redução de 86% nas interrupções de energia com duração superior a 24 horas;
  • Queda de 47% no tempo médio de atendimento a emergências;
  • Cumprimento total das contratações de eletricistas e ampliação das equipes de campo.

A empresa aponta que o desempenho atual da distribuidora em São Paulo já é superior à média nacional em diversos indicadores de qualidade.

Tempestade de dezembro de 2025

Um dos pontos da defesa é a análise do evento climático ocorrido em 10 de dezembro do ano passado. A Enel argumenta que foi um fenômeno atípico e de gravidade “ímpar”, com ventos de até 98 km/h que duraram mais de 12 horas consecutivas.

Mesmo diante desse cenário, a distribuidora afirma ter mobilizado um recorde de equipes, conseguindo religar a luz de mais de 3,3 milhões de clientes em apenas 24 horas. Para a empresa, a fiscalização ignorou que este evento foi muito mais severo do que os registrados em anos anteriores.

A Enel também aponta que a fiscalização da Aneel utilizou dados errados ao comparar o desempenho de São Paulo com o da COPEL, no Paraná. Segundo os documentos, se os dados forem corrigidos conforme as regras do setor, o desempenho da Enel foi superior: a empresa em São Paulo levou cerca de 89 horas para normalizar o serviço, enquanto a outra distribuidora levou mais de 200 horas em um evento similar.

Críticas de Nunes

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), disse no último dia 25 que a decisão da Justiça Federal sobre o processo administrativo da Aneel contra a Enel “restabelece o interesse público”. A juíza Pollyana Kelly Maciel Medeiros Martis Alves havia revogado, horas antes, uma decisão provisória que paralisava a análise do caso na reguladora e rejeitou o pedido principal da concessionária.

“Fica o exemplo de que não aceitaremos serviços ruins para a população”, disse Nunes.

O processo judicial foi iniciado pela própria Enel, que tentava barrar a investigação da Aneel. A empresa alegava que a agência reguladora havia desrespeitado seu direito de defesa, pois o diretor-geral teria votado pela caducidade – quebra do contrato – antes do fim do prazo para a entrega da defesa da companhia. A concessionária também reclamou da inclusão das falhas no fornecimento de energia durante um “evento climático extremo de dezembro de 2025”, afirmando que seria uma inclusão indevida no processo.

Ao analisar o caso, a juíza concluiu que o trâmite na Aneel ocorreu sem qualquer irregularidade. Ela explicou que a agência atua de forma colegiada e que o voto isolado do diretor-geral representou apenas uma “convicção individual” em uma etapa de debates, e não uma decisão final e definitiva capaz de prejudicar a empresa naquele momento.

“Os fundamentos que a sustentavam não se confirmam à luz das informações prestadas pela autoridade coatora. O processo administrativo tramitou regularmente, com contraditório pleno e instrução inconclusa à data da impetração por razões inerentes ao regular funcionamento do colegiado — não por supressão de garantias”, afirma o documento.

A magistrada também negou a ideia de que a Enel foi impedida de se defender. Segundo o documento, a concessionária participou ativamente do processo. A empresa entregou seus documentos dentro do prazo – até o dia 26 de fevereiro -, recebeu novas oportunidades para se manifestar sobre relatórios técnicos posteriores e realizou diversas reuniões com as equipes da agência.

“A ENEL SP participou ativamente do processo, apresentou manifestações, pareceres jurídicos e documentos técnicos, e teve acesso pleno às notas técnicas produzidas”, disse a juíza na decisão.

Por meio de nota, a Enel disse “respeitar o Poder Judiciário”, mas que “não concorda com as premissas e conteúdo da decisão”. A concessionária também acrescentou que “seguirá trabalhando” em “todas as instâncias”.