O que é lockdown, quarentena e pandemia? Veja o que as pessoas mais buscaram em 2020 na internet

Entre os termos mais pesquisados no Google neste ano, estão assuntos relacionados à Covid-19, economia, política e feminismo

  • Por Carolina Fortes
  • 25/12/2020 10h00
Ettore Chiereguine/Estadão ConteúdoRuas de São Paulo vazias durante a pandemia da Covid-19

Desde o dia 26 de fevereiro de 2020, quando foi confirmado o primeiro caso da Covid-19 no Brasil, a pandemia mudou a rotina de pessoas, empresas, governos e cidades inteiras. Avenidas e praias normalmente lotadas ficaram vazias, máscaras se tornaram acessório essencial e o abraço e o contato humano foram substituídos por ligações virtuais e reuniões online. Nesse cenário, e frente a mudanças quase que diárias, muitas dúvidas começaram a surgir na população, a maioria relacionadas à Covid-19 e medidas de enfrentamento à pandemia no país. Questões relacionadas à política, economia e feminismo também foram buscadas pelos brasileiros neste efervescente 2020. Neste mês de dezembro, o Google divulgou o que esteve em alta neste ano no Brasil. Confira as perguntas mais procuradas.

O que é lockdown?

Lockdown é o termo em inglês para bloqueio total e uma versão mais rigorosa do isolamento social. É uma imposição do Estado para impedir a propagação do coronavírus em determinadas regiões. Consiste em restringir a circulação da população em lugares públicos, permitindo apenas, e de forma limitada, para questões essenciais, como ir à farmácias, supermercados ou hospitais. O descumprimento dessa regra pode acarretar em multas e toque de recolher, dependendo das determinações do governo. A China foi o primeiro país a adotar esse tipo de medida. A cidade de Wuhan, onde foi registrado o primeiro caso de coronavírus no mundo, manteve o bloqueio total por 76 dias. Automóveis eram proibidos de circular, o transporte público foi suspenso, assim como viagens de avião ou de trens. Além disso, escolas foram fechadas, eventos públicos cancelados e os moradores só podiam sair de casa para comprar alimentos ou remédios.

Países europeus como a Espanha, Itália, Alemanha e França também decretaram lockdowns no momento mais crítico da pandemia  — e voltaram a fazer isso no final do ano, devido à segunda onda da Covid-19. Na Espanha, por exemplo, quem circulasse nas ruas sem necessidade comprovada teria que pagar 600 euros. Já na Itália, onde o bloqueio durou dois meses, as pessoas só podiam sair às ruas para ir ao trabalho, fazer compras, passear com o cachorro e praticar esportes, desde que individualmente. Isso deveria ser comprovado em uma declaração. Escolas e comércios também permaneceram fechados durante este período. No dia 13 de dezembro, a Alemanha anunciou um retorno ao lockdown após registrar um número recorde diário de mortes pelo coronavírus. O comércio não essencial ficará fechado e as aulas presenciais não serão mais obrigatórias. No Brasil, o primeiro estado a declarar o lockdown foi o Maranhão, em 30 de abril. A circulação de veículos particulares foi permitida apenas para serviços essenciais, e a entrada e saída de veículos da ilha foi proibida durante dez dias. Pará, Amapá e cidades dos estados do Amazonas, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte também decretaram lockdowns. Porém, alguns especialistas alegam que, no Brasil, houve somente imposição de medidas de isolamento social, já que o lockdown consiste em leis mais restritivas. No estado de São Paulo, por exemplo, líder em número de casos e mortes pela doença, o governador João Doria (PSDB) ameaçou várias vezes declarar um lockdown caso as taxas de isolamento social continuassem baixas. No entanto, isso nunca foi feito. São Paulo está, até hoje, em uma quarentena prolongada.

O que é quarentena?

A palavra quarentena significa um período de observação ao qual uma ou mais pessoas são submetidas para saber se estão realmente doentes e, assim, evitar a contaminação de outros. No entanto, no Brasil, as medidas de restrição devido à Covid-19 começaram a ser chamadas popularmente de quarentena. É praticamente uma versão menos restrita do lockdown, em que medidas como o fechamento do comércio e das escolas são adotadas para reduzir a circulação de pessoas em áreas públicas (ruas, praças, parques) e privadas (shoppings, supermercados e restaurantes). Também inclui a orientação de ficar a mais de dois metros uns dos outros, por exemplo. A maioria dos municípios brasileiros adotou a quarentena como forma de diminuir os casos e mortes pela Covid-19. Em São Paulo, a medida foi imposta em 24 de março e está em vigor até hoje, apesar de ter sido flexibilizada com o tempo. No início, os comércios e estabelecimentos não considerados essenciais fecharam em todos os municípios, porém, as pessoas ainda eram liberadas de circular pela cidade, sem multas ou toque de recolher. Atualmente, a maioria das cidades, incluindo a capital, estão na Fase Amarela do Plano São Paulo  — ou seja, os bares e restaurantes podem funcionar, porém com horário reduzido. Todos os outros estados brasileiros e o Distrito Federal também anunciaram medidas de isolamento social durante a pandemia, como a suspensão das aulas presenciais, de eventos que promovessem aglomerações e fechamento de parques. A maioria delas foi relaxada, com a volta do funcionamento de comércios, bares e restaurantes.

O Ministério da Educação estendeu até 31 de dezembro de 2021 a permissão para atividades remotas no ensino básico e superior em todo o país. Além disso, seguem proibidos em praticamente todas as regiões do país eventos com grande público, como as tradicionais festas de Réveillon. Em abril, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiram por unanimidade, que os governadores e prefeitos teriam autonomia para determinar medidas restritivas durante a pandemia de coronavírus. O julgamento foi feito com base em uma ação impetrada pelo PDT, que questionava trechos da Medida Provisória 926, a qual definia que o governo federal poderia decidir quais seriam as atividades consideradas essenciais e que, portanto, não poderiam ser suspensas. A medida desagradou o presidente Jair Bolsonaro, contrário às medidas de isolamento social desde o início da pandemia. Bolsonaro defende o isolamento vertical, limitado ao grupo de risco, idosos e pessoas com doenças pré-existentes.

O que é pandemia?

No dia 11 de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou pandemia para o novo coronavírus. O termo significa a disseminação mundial de uma nova doença, e é utilizado quando uma epidemia – grande surto que afeta uma região – se espalha por diferentes continentes, com transmissão sustentada de pessoa para pessoa. Até o dia 16 de dezembro, 188 dos 193 territórios do mundo haviam sido afetados pela Covid-19. A OMS não considera a gravidade da doença como um determinante para a definição de pandemia, mas, sim, a disseminação geográfica rápida que o vírus apresenta. Ainda segundo a organização, uma pandemia de gripe ocorre quando um novo vírus emerge e se espalha pelo mundo, e a maioria das pessoas não tem imunidade. A última vez que a organização havia declarado uma pandemia tinha sido em 2009, para o H1N1. Estima-se que a gripe suína tenha infectado cerca de 1 bilhão de pessoas e matado milhares no primeiro ano de detecção. Porém, a pandemia de quase uma década atrás não colocou cidades ou nações inteiras em quarentena. Em alguns países, viajantes passaram por triagens, casos suspeitos foram isolados e aulas chegaram a ser suspensas, mas a disseminação do vírus não chegou a praticamente paralisar algumas das maiores economias do mundo como vem sendo observado com a Covid-19. Uma das principais explicações é que o Sars-Cov-2 é duas vezes mais transmissível do que o H1N1, além da letalidade ser maior. Há cem anos, o mundo enfrentou uma outra pandemia, a de gripe espanhola. Estima-se que entre 50 e 100 milhões de pessoas tenham morrido entre 1918 e 1920.

O que é cadastro único?

O Cadastro Único é um instrumento do governo brasileiro de coleta de dados e informações que objetiva identificar todas as famílias de baixa renda existentes no país para fins de inclusão em programas de assistência social e redistribuição de renda. Provavelmente, o termo está entre os mais procurados devido ao auxílio emergencial, benefício concedido pelo governo federal aos trabalhadores informais, microempreendedores individuais (MEI), autônomos e desempregados, com o objetivo de fornecer proteção emergencial no período de enfrentamento à crise causada pela pandemia da Covid-19.

As pessoas que estavam inscritas no Cadastro Único e atendiam aos requisitos receberam automaticamente o benefício. Já as que não estavam e não recebiam o Bolsa Família precisaram se inscrever por meio de um aplicativo lançado pela Caixa Econômica Federal, o Caixa Tem. Instituído em abril, o auxílio emergencial começou com parcelas de R$ 600 ou R$ 1.200 (no caso das mães chefes de família) por mês a cada beneficiário. Inicialmente projetado para durar três meses, o auxílio foi estendido para o total de cinco parcelas, depois mais quatro, no valor de R$ 300. Os programas socioassistenciais tiveram papel importante para evitar que uma parcela significativa de brasileiros figurasse em um ambiente crítico neste ano de 2020. Hoje, a estimativa é de que 2,1% da população esteja em uma situação de extrema pobreza. Com base em números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), um estudo da Secretaria de Avaliação e Gestão da Informação do Ministério da Cidadania indicou que, se não houvesse os programas, este índice teria saltado para 12,4%.

O que é coronavírus?

O Sars-Cov-2 é novo, mas não é o primeiro tipo de coronavírus da história. Pelo menos seis são conhecidos. Os últimos, mais semelhantes ao atual, foram o SARS (Severe Acute Respiratory Syndrome) e o MERS (Middle East Respiratory Syndrome). O primeiro surgiu na China, em 2002, e se disseminou rapidamente para mais de doze países na América do Norte, América do Sul, Europa e Ásia, infectando mais de 8.000 pessoas e causando cerca de 800 mortes antes de a epidemia global ser controlada, em 2003. Desde 2004, nenhum caso de SARS é relatado mundialmente. Já o MERS foi primeiramente identificado no Oriente Médio e posteriormente em outros países da Europa e África. Todos os casos relatados fora da Península Arábica tinham histórico de viagem ou contato recente com viajantes procedentes de países do Oriente Médio – Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes e Jordânia. Os sintomas do coronavírus são parecidos com os de uma gripe comum: coriza, dores no corpo, tosse, dor de garganta e febre. Nos casos graves, pode haver infecção das vias respiratórias, pneumonia e falta de ar. Esse quadro é mais comum em pessoas com doenças cardiopulmonares, sistema imunológico comprometido ou em idosos.

A pandemia causada pelo Sars-Cov-2 foi, com certeza, muito mais difícil de ser controlada do que as epidemias dos outros tipos de coronavírus. A doença foi identificada pela primeira vez em Wuhan, na província de Hubei, na China, em 1º de dezembro de 2019, mas o primeiro caso foi reportado em 31 de dezembro do mesmo ano. A maioria dos países segue com medidas de distanciamento social, mesmo no décimo mês de pandemia. Alguns, principalmente os europeus, sofrem com uma segunda onda em meio a um aumento expressivo de infecções e óbitos. A vacinação contra a Covid-19 já começou em países como Rússia, Estados Unidos, Canadá e Reino Unido. No Brasil, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, anunciou que a campanha deverá ser iniciada em fevereiro de 2021.

O que é fascismo?

Cientistas políticos e historiadores afirmam que o fascismo é uma forma radical da expressão do espectro político da direita conservadora. O regime de Benito Mussolini na Itália, entre 1925 e 1943, é seu maior expoente no mundo. No entanto, nem toda política praticada pela direita conservadora é extremista como o fascismo, e é importante apontar que há regimes com tendências fascistas também na esquerda, como a ditadura de Joseph Stalin, na União Soviética, entre 1927 e 1953. Enquanto movimento político e social, o fascismo possui características, como nacionalismo, retórica populista que explora assuntos como a corrupção endêmica, crise na economia ou “declínio dos valores tradicionais e morais”. Outras particularidades são a implantação de um sistema unipartidário ou monopartidário (ou seja, ditatorial); culto ao chefe/líder; desprezo pelos valores liberais e coletivistas; vitimização de determinados grupos da sociedade (como foi feito com judeus e homossexuais no regime de Adolf Hitler); exaltação dos valores tradicionais; e mobilização das massas.

No Brasil, setores da esquerda e da direita imputam uns aos outros a alcunha de fascista. Os oposicionistas de Jair Bolsonaro veem no presidente, um nacionalista e simpático à ditadura militar, traços incontestáveis de fascismo. “Bolsonaro é um despreparado, sem conhecimento histórico. É um fascista que está articulando uma milícia”, acusou Ciro Gomes. Alguns movimentos autodeclarados antifascistas se manifestaram contra o presidente nas principais cidades do Brasil neste ano — em São Paulo, torcidas organizadas entraram em confronto com a Polícia Militar. O termo também ficou em evidência no início do ano, quando o secretário nacional da Cultura, Roberto Alvim, fez um discurso no qual usou frases semelhantes às usadas por Joseph Goebbels em um famoso discurso do ministro da Propaganda de Adolf Hitler. Posteriormente, ele foi exonerado. O filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), foi criticado ao declarar que uma das respostas do governo para uma possível “radicalização” da esquerda poderia ser “via um novo AI-5” — instrumento de supressão de direitos utilizado durante a ditadura. Por outro lado, direitistas acusam os próprios antifas de serem fascistas devido à violência com que protestam. O Supremo Tribunal Federal também é constantemente atacado por aliados de Bolsonaro que acreditam que a Corte restringe liberdades individuais.

Outro episódio marcante foi o dossiê antifascista criado pelo governo federal em agosto deste ano. O documento, produzido após o assassinato de George Floyd e os sucessivos protestos nos Estados Unidos, compilava informações de 579 servidores federais e estaduais identificados como “antifascistas”. O STF determinou a suspensão do documento. O deputado estadual paulista Douglas Garcia (PTB), que divulgou o dossiê, foi condenado a pagar R$ 10 mil de indenização por danos morais para duas pessoas.

O que é Pix?

O PIX é um novo sistema de pagamentos e transferências lançado pelo Banco Central, que entrou em operação no dia 16 de novembro. Com a ferramenta, é possível realizar transações financeiras em até dez segundos, 24 horas por dia, sete dias por semana e sem cobrança de tarifa. A expectativa é que o novo modelo deva acelerar e baratear as transações no país, já que os valores sairão diretamente da conta do pagador para a do credor, sem passar por intermediários. É gratuito para pessoas físicas e de baixo custo para as empresas. Para aderir ao sistema, basta ter conta corrente ou poupança e cadastrar a chave PIX, que é a identificação da conta do usuário. O cliente pode escolher entre o CPF ou CNPJ; e-mail; número do celular ou uma chave aleatória. O procedimento é simples e pode ser feito pelo aplicativo do banco no celular ou na própria agência. Segundo o Banco Central, o Pix conta com sistemas de segurança para que o cliente usufrua da ferramenta com tranquilidade. No dia 16 de dezembro, o Banco Central e o Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviço Móvel Celular e Pessoal (SindiTelebrasil) anunciaram que vão assinar um acordo para que o pagamento de faturas de celular e a recarga de serviços pré-pagos móveis e fixos possa ser feita com o Pix.

O que é sororidade?

Desde que Manu Gavassi falou no Big Brother Brasil 2020 que votaria em Felipe Prior por sororidade, as buscas pelo termo dispararam no Google. Na ocasião, ele questionou: “O quê? O que é isso?”, ao que Manu respondeu, de forma ácida, que o brother poderia aprender quando saísse da casa. A edição deste ano do reality show foi marcada por diversas discussões, principalmente sobre feminismo e racismo. Tudo começou quando um grupo de mulheres participantes confrontou os homens que planejavam, mesmo tendo namoradas, seduzir as mulheres comprometidas da casa com o intuito de queimá-las com o público de fora. O episódio acabou unindo a maioria das sisters. Mas, afinal, o que é sororidade? O termo significa uma versão feminina da palavra fraternidade. No geral, a palavra indica uma união entre as mulheres e vai contra a ideia de que existe uma rivalidade feminina intrínseca, o que é disseminado pela mídia e pelos próprios homens. O termo é muito usado no feminismo para definir a importância de as mulheres estarem juntas na luta contra discriminações e a favor da igualdade de gênero.

Relembre o momento:

O que é Conar?

Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) é uma organização da sociedade civil fundada em São Paulo, em 1950, por diversas associações de comunicação. O órgão visa evitar a veiculação de anúncios e campanhas de conteúdo enganoso, ofensivo, abusivo ou que desrespeitam, entre outros, a leal concorrência entre anunciantes. A entidade não tem “poder de polícia” (não pode mandar prender, não multa, não solicita devolução do dinheiro ao consumidor ou ordena troca de mercadorias). O foco é a ética na publicidade. O Conar ganhou notoriedade em 2020 após abrir uma representação ética contra o cantor Gusttavo Lima pelo consumo de bebidas alcoólicas nas lives que ele fez durante a quarentena. Segundo o conselho, o cantor violou as recomendações do Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária para a publicidade de bebidas alcoólicas. Nas lives, ele fez propaganda para a Ambev. “Acho que uma live engessada e politicamente correta não tem graça. O bom são as brincadeiras, levar alegria alto astral para as pessoas que estão agoniadas nesse momento. Não farei live para ser censurado”, desabafou o sertanejo. “Juntos, ajudamos muitas pessoas. Foram toneladas de alimentos e arrecadações… Fizemos nosso papel”, finalizou.