Apesar de euforia global por posse de Biden, cenário interno derruba Ibovespa

Investidores estão apreensivos com entraves para importação de insumos para produção de vacinas e começam a precificar impacto do atraso na recuperação da economia em 2021

  • Por Jovem Pan
  • 20/01/2021 18h53
PixabayClima otimista nas Bolsas internacionais não foi o suficiente para impulsionar os negócios no Brasil

A euforia global com a posse de Joe Biden como o 46º presidente dos Estados Unidos não foi o suficiente para impulsionar os negócios na Bolsa de Valores brasileira nesta quarta-feira, 20. O clima otimista foi ofuscado pelos percalços para a importação de insumos usados na produção de vacinas contra a Covid-19 em território nacional, e os investidores já começam a precificar impacto do atraso na recuperação da economia em 2021. Apesar do bom humor externo, o Ibovespa, principal índice da B3, fechou abaixo dos 120 mil pontos pela primeira vez desde 6 de janeiro. O pregão encerrou com queda de 0,82%, aos 119.646 pontos. O câmbio tomou outra direção e embarcou na onda global levada pela expectativa dos pacotes de estímulos econômicos anunciados pelo democrata e pela mudança da política externa da principal potência mundial. No cenário interno, investidores aguardam pela decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a taxa de juros da economia brasileira, que será divulgada às 18h30. Todas as apostas estão na manutenção da Selic em 2% ao ano, o nível mais baixo da história, apesar da disparada da inflação para 4,52% em 2020. A moeda norte-americana encerrou o dia com queda de 0,63%, a R$ 5,311. A divisa alcançou a máxima de R$ 5,356, enquanto a mínima não passou de R$ 5,283. Na véspera, o dólar fechou com avanço de 0,77%, cotado a R$ 5,345.

Os investidores repercutem de forma positiva a chegada de Joe Biden e Kamala Harris à Casa Branca. A nova gestão já adiantou nesta semana o projeto para liberar US$ 1,9 trilhão para estimular a retomada da economia após o choque da Covid-19. A expectativa é que os dólares cheguem aos mercados internacionais, forçando a divisa norte-americana para baixo. A mudança da política externa da maior potência do globo também é motivo para otimismo. Após uma gestão pautada no “America first” do agora ex-presidente Donald Trump, Biden prometeu reintegrar os EUA nas mesas de debate mundial. O primeiro sinal dessa mudança foi a volta dos Estados Unidos à OMC e ao Acordo de Paris. O novo presidente também adiantou que reverterá a saída do país da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em seu primeiro discurso como novo mandatário dos EUA, Biden ressaltou a importância da união para combater a pandemia do novo coronavírus e superar a polaridade política, além do extremismo, da violência e da ascensão da supremacia branca.

Na pauta interna, investidores aguardam pelo fim do último dia de reunião do Copom e o anúncio da Selic, às 18h30. A expectativa unânime do mercado é que o colegiado do Banco Central mantenha a taxa básica de juros da economia brasileira a 2% ao ano, o menor nível da história, mas que retire a política de foward guidance — a estratégia de não subir os juros —, sinalizando a alta do índice nas próximas reuniões. O Copom se reúne a cada 45 dias, e o próximo encontro está marcado para 16 e 17 de março. Economistas e entidades ouvidas pelo BC projetam a Selic a 3,25% ao ano ao fim de 2020, segundo Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira, 18. O mercado também acompanha com apreensão a série de entraves que podem dificultar a campanha de imunização contra a Covid-19 no país. Para continuar a vacinação, o Brasil depende do envio de insumos para a produção dos imunizantes, que serão fabricados nacionalmente pelo Instituto Butantan, em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, e pela Fiocruz, em conjunto com a Universidade de Oxford e a AstraZeneca. Os laboratórios temem que haja a imposição de obstáculos na importação, já que os produtos estão na China, país que protagonizou indisposições diplomáticas com o presidente Jair Bolsonaro. Ao menos 16 estados assinaram um ofício nesta quarta pedindo que Bolsonaro que adote “diálogo diplomático” com Índia e China visando “assegurar a continuidade do processo de imunização no país”. O Brasil dispõe apenas de 6 milhões de doses da CoronaVac – a imunização foi iniciada no domingo, 17, no estado de São Paulo, pouco depois de a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizar o uso emergencial das duas vacinas.