Economia brasileira cai em 3 meses mais do que o acumulado em todas as outras recessões

Estudo da FGV aponta que o PIB em 2020 será o menor em 120 anos; além da queda vertiginosa de 9,7% em abril, maio e junho, foi a primeira vez que país entrou em crise sem ter se recuperado da recessão anterior

  • Por Gabriel Bosa
  • 05/09/2020 20h30 - Atualizado em 05/09/2020 20h30
Porto de Santos - DivulgaçãoRecessão causa pela Covid-19 impactou o país enquanto economia ainda se recuperava da crise de 2016

Sob efeito da paralisação das atividades econômicas por conta do novo coronavírus, o tombo de 9,7% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no segundo trimestre de 2020 é maior do que o acumulado em todas as recessões econômicas da história do país, indica levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Além da queda vertiginosa, esta foi a primeira vez que o país entrou em crise sem ter se recuperado da recessão anterior, o que dificulta ainda mais o processo de retomada. Com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a entidade estima retração de 5,4% na economia em 2020, a maior em 120 anos. A queda das atividades econômicas pelo segundo período consecutivo — no primeiro trimestre, o PIB encolheu 2,5% — coloca o Brasil oficialmente em recessão técnica.

O último período de crise econômica brasileira durou do 2º trimestre de 2014 ao 4º trimestre de 2016. Ao longo desses 11 trimestres, ou 33 meses, o PIB apresentou perda acumulada de 8,1%, enquanto em apenas três meses deste ano, a economia retraiu 9,7%. Na soma do primeiro semestre de 2020, a queda é de 11,9%, também a pior já registrada para o período na história do país. A paralisação do setor de serviços por causa das medidas de isolamento social foi o principal agravante para a depressão econômica. O segmento é responsável por 63% do PIB e 68% dos empregos no país. “Cada recessão tem a sua característica, e a queda do serviço é a principal desta. Mesmo em um cenário onde o rendimento agregado das famílias é maior por causa dos programas sociais do governo, elas ficaram impossibilitadas de consumir serviços, como transporte, alimentação fora de casa, hospedagem e cinemas, por causa do isolamento social”, afirma Luana Miranda, pesquisadora do Ibre/FVG.

A crise gerada pelo novo coronavírus é a primeira registrada em um momento que o país ainda não havia se recuperado da crise anterior. Antes da pandemia, a FGV estimava que o país cresceria 2,2% neste ano. Apesar de ser o dobro do 1,1% de alta registrado em 2019, o número evidencia a lentidão para a retomada da economia após a crise encerrada em 2016. “O Brasil já estava em um cenário de crescimento fraco. Desde 2017, a recuperação estava bastante lenta. De fato, o novo coronavírus foi o grande responsável pela crise atual, mas na ausência dele, também não havia uma expectativa de crescimento muito grande para esse ano”, diz a pesquisadora.

Analistas preveem que os dados do terceiro trimestre mostrarão a recuperação da economia, pautada principalmente pela flexibilização das restrições de circulação, distribuição do auxílio emergencial e prorrogação do programa para manutenção dos empregos. Porém, a alta não deve ser sustentável, e o cenário deve voltar a piorar quando o governo retirar esses estímulos. A alta prevista para o número de desempregados em 2021 pode ser um dos reflexos desse quadro. Dados do IBGE afirmam que, atualmente, 12,9 milhões de brasileiros estão sem emprego, mas o índice pode ser ainda maior, já que uma parcela da população não está buscando ocupação por estar recebendo auxílio do governo ou por receio de se expôr ao novo coronavírus.

A falta de recursos do governo para religar a economia é outro entrave. Nesta sexta-feira, 4, o governo federal divulgou o gasto de R$ 584,3 bilhões em ações de combate à pandemia. Ao contrário de outros períodos de recuperação, quando o poder público investia capital para estimular a atividade econômica, a tendência para os próximos meses é a redução de investimentos estatais. Segundo a pesquisadora, o Ministério da Economia e o Banco Central buscam estimular as atividades de outras formas, como a redução da taxa de juros para 2%, a mais baixa da história. “Há uma pressão fiscal que impede a ajuda do governo. A participação de investimentos públicos deve ser mais restrita, o que dificulta a volta mais rápida da economia”, afirma Luana.