Inflação perde fôlego e vai a 0,25% em janeiro, o menor valor desde agosto

Queda na tarifa de energia elétrica freou avanço do IPCA ante alta de 1,35% em dezembro; índice acumula crescimento de 4,56% nos últimos 12 meses, acima do centro da meta

  • Por Jovem Pan
  • 09/02/2021 09h19 - Atualizado em 09/02/2021 14h34
Licia Rubinstein/Agência IBGE NotíciasAumento da energia foi o principal impacto do IPCA em maio

Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) perdeu fôlego neste início do ano e fechou janeiro com alta de 0,25%, ante avanço de 1,35% em dezembro de 2020, segundo números divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira, 9. O indicador oficial da inflação brasileira acumula alta de 4,56% nos últimos 12 meses, acima do centro da meta de 3,75% — com margem para variar entre 2,25% e 5,25%. Este é o menor valor para o IPCA desde agosto de 2020 e quebra a sequência de quatro meses de alta escalonada. Os alimentos continuam como principal fator de pressão inflacionária, apesar de alta menos intensa do que a registrada nos meses anteriores. Além disso, a mudança de bandeira nas contas de energia elétrica e as quedas nos preços de passagens aéreas ajudaram a segurar a inflação em janeiro. O IPCA-15, considerado a prévia da inflação, avançou 0,78% no mês passado, após registar alta de 1,06% em dezembro de 2020. Já o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), considerado a inflação dos mais pobres, teve alta de 0,27% em janeiro, abaixo dos 1,46% registrados no mês anterior. Em 12 meses, o índice acumula alta de 5,53%.

Principal vilão da inflação em 2020, o segmento de alimentos e bebidas continua liderando a alta do IPCA no início deste ano. Em janeiro, a variação chegou a 1,06%, ante avanço de 2,12% no mês anterior. A alta do grupo foi puxada pelo crescimento de 17,58% da cebola e 4,89% do tomate. Por outro lado, frutas aumentaram 2,67% e as carnes registraram crescimento negativo de 0,08%. Segundo o IBGE, o recuo da inflação em janeiro na comparação com o mês anterior é resultado do impacto das tarifas de energia elétrica. “Houve uma queda de 5,60% no item energia elétrica, que foi, individualmente, o maior impacto negativo no índice do mês (-0,26 p.p.) Após a vigência da bandeira tarifária vermelha patamar 2 em dezembro, passou a vigorar em janeiro a bandeira amarela”, explica o gerente da pesquisa, Pedro Kislanov. O custo dos transportes (0,41%), grupo com o segundo maior peso no IPCA, também desacelerou frente ao mês anterior (1,36%), principalmente devido à queda no preço das passagens aéreas (-19,93%), cujos preços haviam subido 28,05% em dezembro. No entanto, os combustíveis (2,13%) apresentaram variação superior à do mês passado (1,56%), com destaque para a gasolina (2,17%) e o óleo diesel (2,60%).

Apesar dos dados do IBGE apresentarem a quebra da sequência de alta vista entre setembro e dezembro de 2020, o acumulado de 4,56% em 12 meses, a manutenção do câmbio elevado e a volta do auxílio emergencial geram incertezas sobre o futuro da curva inflacionária. Para Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest, mesmo que o benefício seja menor do que visto no ano passado, a injeção de R$ 200 para 30 milhões de brasileiros por três meses deve renovar a pressão no IPCA neste ano. “A composição anual está muito alta, e, olhando para frente, temos fatores de pressão. Deve ter a continuidade do auxílio emergencial, que pode fomentar o consumo e pressionar os preços. O câmbio também continua em um patamar bastante alto, o que também afeta os preços”, afirma.

A inflação fechou 2020 com alta de 4,52%, pressionada principalmente pelo encarecimento dos alimentos diante da disparada do dólar e do aumento das demandas doméstica e internacional. Foi o maior valor para o IPCA desde 2016, quando o índice encerrou com alta de 6,29%. Em 2019, a variação de preços foi de 4,31%. O índice ficou acima da meta de 4% perseguida pelo Banco Central — com margem para variar entre 2,5% e 5,5%. Para 2021, o Conselho Monetário Nacional (CMN) definiu o centro da inflação em 3,75%, com limites de 2,25% e 5,25%. O índice veio acima do esperado pelo mercado. Economistas e entidades consultados pelo BC estimavam que o IPCA encerrasse 2020 com alta de 4,37%, segundo o último Boletim Focus divulgado em 2020. Para este ano, os agentes econômicos estimam que a inflação cresça 3,6%. Esta foi a quinta revisão para cima seguida. Há uma semana, a expectativa era alta de 3,53%, enquanto há um mês, a previsão chegava a 3,34%.

O mercado manteve a expectativa para a Selic, o principal instrumento do Banco Central para controlar a inflação, em 3,5% ao ano. O valor é o mesmo da semana passada e acima dos 3,25% registrados há um mês. O Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic a 2% ao ano na primeira reunião de 2021, decisão já esperada pelo mercado financeiro. A novidade foi a retirada do foward guidance, como foi classificada a política de não aumentar juros. Em nota, os técnicos do BC afirmaram que as condições para a manutenção da Selic rebaixada já foram cumpridas. O recado, porém, enfatizou que a derrubada da medida não significa o aumento automático da Selic nos próximos encontros. A próxima reunião do Copom será entre os dias 16 e 17 de março.