Pessimismo com economia e desemprego mudarão hábitos dos brasileiros

Pesquisa da CNI mostra que 6 em cada 10 pessoas afirmam que recuperação econômica levará, no mínimo, um ano; mais de 60% dizem que vão frequentar menos restaurantes e shoppings após o isolamento

  • Por Gabriel Bosa
  • 16/07/2020 00h30
Arquivo/Agência BrasilA pandemia fez com que 71% das pessoas reduzissem os gastos e 36% afirmaram que a medida será permanente

O pessimismo com o ritmo da retomada econômica e o medo de perder o emprego mudarão os hábitos de consumo do brasileiro no pós-pandemia do coronavírus, aponta pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Apesar da flexibilização das medidas de isolamento social e da retomada parcial das atividades econômicas, 6 em cada 10 brasileiros (58%) afirmam que a recuperação da economia levará, no mínimo, um ano. Entre os mais pessimistas, estão 39% que disseram que o ritmo pré-crise só voltará a partir do segundo semestre de 2022, ou seja mais de dois anos. Para 67% dos entrevistados, a economia brasileira não começou a se recuperar ainda, enquanto apenas 31% afirmaram que a retomada já começou.

A natureza da crise, que tem origem sanitária, e não econômica, faz com que o sentimento de insegurança seja mais latente na população. “São muitas incertezas e a doença exige a manutenção das medidas de distanciamento em diversos aspectos, e isso faz com que os efeitos da crise perdurem por mais tempo”, explica Marcelo Azevedo, gerente de análise econômica da CNI. A pandemia fez com que 71% das pessoas reduzissem os gastos, e 36% afirmaram que a medida será permanente. Apesar de 29% terem dito que perderam parte ou totalmente da renda na pandemia, o receio de não ter dinheiro no futuro é o principal fator desta redução de consumo, justificado por 41% do total. A medida também tem relação com o risco de perder o emprego: 45% dos brasileiros temem passar por isso por causa da crise. O levantamento foi realizado pelo Instituto FSB, por telefone, com 2.009 pessoas, entre os dias 10 e 13 deste mês, em todos os estados do país.

Além disso, 47% afirmaram que reduziram a compra de até cinco produtos durante a pandemia. Levando em consideração 11 bens de consumo, que vão desde eletrodomésticos até serviços de streaming e remédios, os sapatos foram os que tiveram o maior recuo, com queda de 38% no consumo, seguido de roupas, com 37%. Em terceiro lugar ficaram cosméticos e bebidas alcoólicas, ambos com redução de 31%. Por outro lado, na ponta dos produtos que o brasileiro pretende aumentar no pós-pandemia aparecem roupas, com 21%, produtos de higiene e de limpeza, ambos com 19%, e calçados, com 17%. Para Azevedo, a presença de itens de vestuário na lista evidencia uma demanda reprimida durante o isolamento social. “São setores que foram impactados pela crise, e a perspectiva do aumento mostra a importância das medidas de crédito do governo para a sobrevivência das empresas quando o ritmo cai. Vai chegar lá na frente, e essa demanda vai voltar”, afirma.

Novos hábitos

A pandemia também terá forte impacto nos hábitos dos brasileiros. Quase 7 em 10 brasileiros, ou 67% do total, afirmaram que frequentarão menos ou muito menos bares e restaurantes no fim do isolamento social. Na sequência estão os shoppings, com 64%, e o comércio de rua, com 63%. A pesquisa de julho também mostrou que 67% dos entrevistados está saindo de casa apenas para coisas essenciais – fatia maior do que os 58% no levantamento de maio. Já 35% dos entrevistados estão trabalhando fora, contra 28% da pesquisa anterior.

A pesquisa de julho também apontou que 84% da população considera grave ou muito grave a situação da Covid-19 no Brasil. O índice estava em 80% no levantamento de maio. Apesar de todos os impactos na economia e o receio quanto ao futuro, os dados mostram que 84% dos brasileiros seguem favoráveis ao isolamento social. Já a recente retomada do comércio de rua dividiu os entrevistados: 49% aprovam e 47% são contra. Os teatros e cinemas têm a maior rejeição de retomada de atividade, com 86% acreditando que eles não deveriam ser reabertos, seguida pelas acadêmicas (73%) e escolas e universidades (72%).