Empresas aceleram negócios autônomos e começam a reduzir a dependência de mão de obra
Menos funcionários. Mais tecnologia. Operações mais simples. Empresas brasileiras começam a acelerar modelos de negócios autônomos em busca de escala, redução de custos e menos dependência de mão de obra. O movimento já aparece em lavanderias, mercados inteligentes, academias, lojas automatizadas, condomínios e serviços para pets.
Para Leonardo Castelo, fundador da 300 Franchising, a mudança é consequência direta de um problema antigo do varejo: a dificuldade de operar negócios com muitas pessoas. “O maior desafio dos negócios hoje é gente. Liderar pessoas ficou muito mais complexo”, afirma.
Segundo o empresário, a pandemia acelerou um comportamento que já vinha crescendo em mercados asiáticos, especialmente na China, onde operações automatizadas e lojas sem caixa já fazem parte da rotina de consumo. Agora, o modelo começa a ganhar velocidade no Brasil.
“Negócios com muita gente são muito difíceis de escalar. Quanto maior a operação, maior o desafio de gestão”, diz Castelo.
Na prática, empresas passaram a buscar operações mais enxutas, com menos etapas e maior autonomia para o consumidor. Em um cenário de pressão por eficiência, dificuldade de contratação e clientes cada vez mais impacientes, simplificar processos virou vantagem mais que competitiva.
O avanço das lavanderias autônomas é um dos exemplos mais claros dessa transformação. Há poucos anos, ainda existia resistência à ideia de que o brasileiro utilizaria esse tipo de serviço sem atendimento presencial. Hoje, o modelo já se consolidou em diferentes cidades e abriu espaço para novos formatos.
Mercados autônomos, lojas sem caixa, máquinas de conveniência e sistemas de autoatendimento começam a disputar espaço em um consumidor que quer resolver tudo com rapidez. “O cliente quer autonomia. Quer controlar a própria experiência”, afirma Castelo.
Para ele, a automação reduz problemas comuns do varejo tradicional, como demora no atendimento, falhas operacionais e dificuldade de padronização.
“Muitos atendimentos ainda geram atrito. O cliente espera, recebe pedido errado, enfrenta demora ou pressão de venda. No modelo autônomo, ele controla praticamente toda a experiência”, diz.
Castelo cita exemplos vistos em viagens à Ásia. Em algumas lojas, o consumidor simplesmente pega os produtos e sai. O pagamento é feito automaticamente, sem caixa e sem interação humana.
Em Singapura, ele viu cafeterias utilizando robôs para recolher bandejas e copos, reduzindo etapas operacionais dentro da loja. A inteligência artificial também entrou nessa transformação.
Na própria 300 Franchising, parte do primeiro contato com potenciais franqueados já é feita por IA. A ferramenta responde dúvidas, qualifica interessados e mantém atendimento ativo fora do horário comercial.
“Há dois anos eu não acreditava que uma pessoa conversaria com uma IA para comprar uma franquia. Hoje isso já acontece”, afirma.
O movimento também chega aos condomínios residenciais. Mercados internos, academias, lavanderias e serviços automatizados começam a pesar na decisão de compra ou locação de imóveis. “Hoje as pessoas escolhem onde morar pelos serviços que o condomínio oferece”, diz.
Na avaliação do empresário, conveniência virou diferencial competitivo também para o mercado imobiliário. Condomínios que oferecem serviços autônomos e soluções integradas passaram a agregar valor para moradores e investidores.
A tendência ainda abre espaço para novos formatos de franquias, como operações autônomas para banho de pets e serviços de lavação automotiva por autoatendimento, modelo já popular nos Estados Unidos e que começa a chegar ao Brasil.
Apesar do avanço, Castelo acredita que a principal barreira ainda é cultural. “O brasileiro precisa se adaptar a novos formatos e ganhar confiança nesse modelo”, afirma.
Ele compara a mudança ao que aconteceu com aplicativos como Uber e iFood, que enfrentaram resistência no início e depois se tornaram parte da rotina do consumidor.
Para o empresário, o mesmo deve acontecer com negócios autônomos em diferentes segmentos. “Quem não olhar para tecnologia, automação e inteligência artificial vai perder competitividade. Essa mudança já começou”, afirma.
Na prática, os negócios autônomos deixam de ser apenas uma tendência e passam a redesenhar modelos de operação no varejo e no franchising. E a pergunta para muitas empresas começa a mudar.
Não é mais se a operação pode ser automatizada. É quanto tempo o mercado ainda vai aceitar processos cheios de atrito.