Executivos trocam posse por acesso e impulsionam mercado de aviação compartilhada no Brasil
O conceito de propriedade perdeu espaço para o acesso em diversos setores da economia. Depois de transformar hospedagem, mobilidade urbana e entretenimento, a lógica do compartilhamento começa a ganhar força também em um dos mercados mais exclusivos do país: a aviação executiva.
Na avaliação de Rogério Andrade, CEO da Avantto, o movimento acompanha uma mudança importante no comportamento do consumidor de alta renda, que passou a priorizar conveniência, produtividade e experiências em vez da simples posse de bens de luxo.
“Hoje, o cliente quer mais controle sobre a agenda, mais tempo e mais eficiência. O luxo deixou de ser ostentação. O patrimônio mais valioso passou a ser o tempo”, afirma.
Fundada em 2011, a companhia brasileira opera um modelo de compartilhamento de aeronaves que permite ao cliente adquirir apenas uma fração do ativo. Segundo a empresa, o investimento pode cair de 100% do valor de uma aeronave para até 5% no caso de helicópteros e 16% no caso de aviões.
A proposta, no entanto, vai além da redução de custos. O executivo afirma que o principal produto da empresa não é a aeronave em si, mas a capacidade de devolver horas produtivas ao cliente.
“A gente vende disponibilidade, conveniência e ganho de tempo. O cliente não quer administrar piloto, manutenção, hangar, seguro ou operação. Ele quer ligar, pedir o voo e seguir a agenda”, explica.
A mudança de mentalidade também ajudou a acelerar a aceitação do compartilhamento entre empresários e famílias de alta renda. Segundo Andrade, no início da operação, o principal desafio era convencer clientes com patrimônio elevado de que não era necessário possuir integralmente uma aeronave.
“Antes predominava uma visão patrimonialista. Hoje, a geração que chega ao consumo desse mercado valoriza muito mais experiências e eficiência”, diz.
O avanço da chamada economia compartilhada ajudou a reduzir a resistência do público. Plataformas como aplicativos de mobilidade e hospedagem contribuíram para naturalizar o conceito de acesso sob demanda também em segmentos considerados ultra premium.
Atualmente, a Avantto soma cerca de 220 cotistas ativos, que representam mais de 500 usuários dentro da operação da empresa.
Embora o setor ainda carregue uma forte associação com status, Andrade afirma que o comportamento do cliente mudou significativamente nos últimos anos. Segundo ele, a aviação executiva passou a ser vista cada vez mais como ferramenta estratégica de produtividade.
“O status hoje está muito mais em conseguir cumprir uma agenda com eficiência do que em simplesmente possuir um helicóptero ou um avião”, afirma.
A avaliação ganha força em um cenário em que empresários enfrentam perda de tempo com conexões, deslocamentos terrestres e baixa capilaridade da aviação comercial brasileira. De acordo com o executivo, o país possui aproximadamente 5 mil aeródromos, mas apenas cerca de 100 destinos são atendidos pela aviação comercial regular.
“O Brasil tem dimensão continental e uma malha aérea extremamente concentrada. Quem precisa se deslocar para regiões produtivas fora dos grandes centros perde muitas horas em logística”, diz.
Esse cenário explica parte da estratégia de expansão da empresa para o Centro-Oeste e regiões ligadas ao agronegócio. Depois de consolidar a operação entre São Paulo e Rio de Janeiro, a Avantto abriu uma base em Goiânia e mira cidades como Cuiabá, Sorriso, Sinop, Lucas do Rio Verde, Rondonópolis e polos do Matopiba.
Segundo Andrade, a expansão acompanha o crescimento econômico acelerado dessas regiões e a dificuldade logística enfrentada por empresários do agro.
“São cidades muito fortes economicamente, mas ainda com grande limitação de deslocamento. Existe uma demanda clara por mobilidade mais eficiente”, afirma.
Outro movimento estratégico da companhia envolve a construção de hangares próprios. A ideia é controlar toda a experiência do cliente, desde o embarque até a operação técnica das aeronaves.
“A gente percebeu que ter essa mudança melhora a eficiência operacional, aumenta a disponibilidade da frota e também permite entregar uma experiência mais alinhada ao padrão da marca”, diz.
No mercado de alto padrão, personalização também se tornou parte central da experiência. A empresa afirma mapear hábitos e preferências dos clientes para customizar detalhes do voo, incluindo alimentação, itens de cabine, leitura e ambientação.
A operação da companhia conta atualmente com quase 200 colaboradores, sendo aproximadamente metade formada por pilotos.
Em paralelo, a empresa também investe fortemente em segurança operacional. A Avantto possui certificação IS-BAO Stage 2, considerada uma das mais relevantes da aviação executiva mundial, e se prepara para buscar o estágio 3 da certificação internacional.
Segundo Andrade, o setor exige uma cultura de segurança permanente e integrada em todas as áreas da companhia.
“Um incidente aéreo nunca acontece por um fator isolado. Segurança é cultura, treinamento e disciplina operacional”, afirma.
Em ritmo de expansão, a empresa afirma ter registrado crescimento médio de 30% ao ano desde o período pós-pandemia e projeta manter a mesma velocidade nos próximos anos.