Por que a eleição na Alemanha demora tanto? Veja o que falta para definir o substituto de Angela Merkel

Com vantagem nas urnas, candidato da centro-esquerda Olaf Scholz deve tomar cadeira da atual chanceler, mas tem longo caminho de negociações pela frente

  • Por Lorena Barros
  • 02/10/2021 08h00
REUTERS/Axel Schmidt/06.06.2018Olaf Scholz ganhou o maior número de votos nas urnas e é favorito para substituir Angela Merkel

Parte da população alemã foi às urnas votar nas eleições federais do país no último domingo, 26. Uma semana depois, não há qualquer definição sobre qual será a formação do governo que vai comandar a quarta maior potência mundial pelos próximos quatro anos. Ao contrário do Brasil, onde o mandatário escolhido toma posse no dia 1º de janeiro, no país europeu não existe uma data para a oficialização de um novo comandante. Isso ocorre porque a escolha de um candidato para o cargo de chanceler só é formalizada quando o partido dele tem mais de 50% de apoio no Bundestag, o Parlamento alemão, que em 2021 passou de 598 para 735 representantes. Se nenhum partido ganhar mais da metade dos votos da população, ele precisará fazer coalizões para conseguir a maioria dos assentos na Casa (pelo menos 368) e, assim, ser oficializado. Neste ano, o candidato Olaf Scholz, vice-chanceler do governo de Angela Merkel e representante do Partido Social-Democrata (SPD, na sigla em alemão), legenda de centro-esquerda, foi o mais votado. Parabenizado por alguns ex-líderes mundiais e pela atual chanceler, o líder do SPD enfrentará uma caminhada de negociações para se concretizar como o novo nome a representar o país.

O partido de Scholz teve 25,7% dos votos, ganhando 206 assentos no Bundestag; o segundo mais votado, CSU-CDU (soma dos partidos União Democrata-Cristã com a União Social-Cristã, de Angela Merkel) ficou com 24,1% dos votos e 196 assentos. O candidato dos conservadores é Armin Laschet. Em terceiro lugar, ganhando notoriedade em relação ao ano anterior, ficou o Partido Verde, com 14,8% e 118 assentos, seguido pelo Partido Democrata Liberal, com 11,5% dos votos e 92 assentos, pela legenda de extrema direita Alternativa para a Alemanha, com 10,3% e 83 assentos, e pela opção de extrema esquerda, chamada A Esquerda, que conquistou 4,9% dos votos e deverá conquistar 39 cadeiras na casa. “No passado, o governo foi formado pela coalizão dos democratas-cristãos com os sociais-democratas, tanto que o atual vice-chanceler da Alemanha é do SPD, que é o grande nome do partido para suceder a Merkel. Então, essas coalizões são importantes porque formam o governo e ditam a política de governo daquele chanceler que vai assumir”, analisa Roberto Uebel, professor de Relações Internacionais da ESPM de Porto Alegre.

Como o SPD e a união de CSU-CDU já formaram um governo anterior e romperam relações ao longo dos anos de mandato, a análise dos especialistas é de que tanto os liberais quanto os verdes sejam mirados como assentos que ajudarão o provável governo de Scholz. Por ter sido o mais votado, ele tem prioridade na hora de articular negociações com os outros partidos. “O que acontece, principalmente quando se tem um regime semelhante ao da Alemanha, é que você pode formar coalizões sem ser com um partido vencedor, mas confesso que não acredito que isso vai acontecer. Hoje, eu apostaria em uma aliança entre SPD, os verdes e o os liberais. Acho que um arranjo político precisará ser feito para caber [as pautas de] todo mundo, mas há uma possibilidade”, projeta Marcelo Balotti Monteiro, professor do curso de ciências econômicas da Universidade Anhembi Morumbi.

O professor da ESPM também apontou a união dos três partidos como a mais provável dos cenários atuais, com chances menores para outras coalizões e quase nulas para a participação dos cristãos e conservadores, mas lembrou que o processo de formação do Bundestag leva tempo para se articular. “Eles estão em um processo de negociação, de construção de ministérios, de cargos-chave, de quem será o líder do governo, então não tem um prazo limitado. Mas, tradicionalmente na Alemanha, se tem o nome do primeiro-ministro até o Natal, porque há um espaço de tradição do discurso de Natal do chefe de governo da Alemanha”, afirmou. Segundo Marcelo Balotti, uma das exceções a esta tradicional definição ocorreu nas últimas eleições, em 2017, quando a coalizão demorou quase sete meses para ser formada. “Em 2017, a eleição foi em setembro e a coalizão só foi montada em março de 2018. Enquanto não se monta um governo, o chanceler é mantido. Então, enquanto não se tiver a maioria do Parlamento, a Merkel continua sendo a chanceler da Alemanha”, aponta.

Favorito para lugar de Merkel tem história na política alemã

Com histórico de vice-chanceler, de ministro das Finanças de Merkel e até mesmo de prefeito de Hamburgo, seu berço eleitoral, Olaf Scholz é considerado um nome importante do SPD e um político popular na Alemanha. “O que talvez pese no seu currículo é o papel como vice-chanceler do governo Merkel. Hoje ele tenta se descolar dessa agenda se mostrando membro de um partido com ideias próprias, de centro-esquerda. Ele tentou colocar muito isso na campanha eleitoral, ao contrário do candidato da democracia cristã [Armin Laschet], que é governador da Renânia do Norte-Vestfália e cometeu uma série de gafes durante as eleições. Ele é muito criticado pelo eleitorado alemão por não ter propostas convincentes, inovadoras, enquanto o SPD trouxe propostas para questões de modernização da economia alemã, independência de tecnologia, economia verde, questões relacionadas a migrantes… Uma agenda mais propositiva que a do candidato do CSU”, analisa Uebel.

Antes de se unir ao governo de Merkel, Scholz teve uma juventude de filiação ao SPD e proferiu ideias consideradas revolucionárias. “Na juventude, ele era um defensor do marxismo, um crítico do imperialismo norte-americano. Depois disso, ele foi tomando um tom mais moderado. Em 1998, foi eleito para o Parlamento. Em 2000, foi eleito líder do partido na região de Hamburgo. Depois, em 2022, mudou-se para Berlim, para ser o secretário-geral do partido”, lembra o professor da Anhembi Morumbi. Ele salienta que, na teoria, a escolha de um governo de centro-esquerda para o país pode trazer algumas mudanças em relação ao regime conservador dos últimos 15 anos. “Em linhas gerais, um governo mais de centro-esquerda seria um governo menos ortodoxo do ponto de vista econômico, seria um governo mais a favor de uma participação do Estado na economia, do governo sendo um ator importante na economia”, pontua.

Além da responsabilidade de guiar quarta maior economia mundial, Olaf Scholz deve ter o poder de interferir nos próximos passos dados por toda a União Europeia, já que a Alemanha é considerada por muitos como o “motor” da UE, ao lado da França, de Emmanuel Macron, que é simpático à eleição da centro-esquerda. “Ele é muito mais desejado como chanceler da Alemanha do que os seus oponentes, já que tem uma visão de política industrial, de política climática, e de defesa da Europa muito alinhada com o que pensa o Macron. Dá para visualizar os dois caminhando na mesma direção, embora a gente tenha, no ano que vem, uma eleição na França e não saiba se o Macron continuará como presidente”, aponta. Mesmo que seja possível imaginar como um governo liderado por Scholz guiaria a Alemanha e a UE, tudo pode mudar de acordo com as negociações que ainda ocorrem no país.

“Depende muito de como vai se formar essa coalizão. Por exemplo: um governo de centro-esquerda junto com os liberais teria um conflito razoavelmente ideológico. Os liberais defendem um Estado fora da economia, com menos participação. Já a centro-esquerda defende algumas importâncias do Estado. Vai depender muito de como esse caldeirão político vai se resolver dentro da Alemanha”, pontua. Há pouquíssimas chances de que Scholz não seja o escolhido para liderar a Alemanha nos próximos anos. Mesmo que isso não ocorra, e o candidato conservador consiga formar maioria no Parlamento, a Alemanha não deve sentir qualquer solavanco na direção que tem seguido nas últimas décadas. “À exceção do partido mais à esquerda e da Alternativa Para a Alemanha, de extrema direita, todos os outros partidos são pragmáticos. São partidos que têm as suas agendas, mas que não buscam uma ruptura, buscam manter uma Alemanha estável, unificada, sem tensionamentos políticos. Eu até diria que esta é uma herança do passado deles, a questão traumática que foi durante a Segunda Guerra Mundial, depois com a divisão da Alemanha [no período da Guerra Fria], e finalmente com a reunificação. Hoje, qualquer governo que a gente vê na Alemanha busca um pragmatismo”, aponta Uebel.