Mudança econômica e juventude distante de ‘ideais revolucionários’: entenda razões de protestos em Cuba

Pelo menos uma pessoa morreu e dezenas foram presas após uma série de manifestações contra o governo realizadas ao longo do fim de semana

  • Por Lorena Barros
  • 15/07/2021 09h30
EFE/ Yander ZamoraManifestações deixaram pelo menos uma pessoa morta

A população de Cuba vivenciou na última semana os maiores protestos antigovernamentais realizados no país nos últimos 25 anos. As movimentações, realizadas em Havana e em outras cidades do país, reuniram milhares e foram alvo de repressão policial, com jornalistas presos e feridos e pelo menos um manifestante morto. Especialistas em relações internacionais ouvidos pela Jovem Pan explicam que é simplista apontar apenas a pandemia ou a falta de energia como os fatores que desencadearam os protestos na ilha. Os problemas são realidade em Cuba, que passou a ter dificuldade de acesso a combustíveis após a crise do governo ditatorial de Nicolás Maduro na Venezuela e bateu em julho recordes diários de novos contaminados pelo coronavírus, mas outros aspectos contribuíram para que a explosão ocorresse agora.

O professor titular do instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), Amâncio Jorge de Oliveira, lembra que o papel de Miguel Diaz-Canel, que assumiu a presidência de Cuba em 2018 e a liderança do Partido Comunista em abril de 2021, é menos autoritário do que o já imposto pelos irmãos Castro em alguns sentidos. “Ele permitiu alguma flexibilidade do ponto de vista de acesso à internet, e aí entram duas questões: a primeira é a questão política, que é a própria maneira dele conduzir o regime, e a segunda é o efeito tecnológico. Esses movimentos [de manifestantes] foram muito impulsionados pelo contato um com o outro”, analisa. Ele lembra, porém, que o acesso às redes continua caro e escasso no país, mas facilitou o encontro de grupos em manifestações. Um dia após a repressão mais violenta aos protestos, na última segunda-feira, 12, o governo chegou a cortar o acesso da população à internet e a plataformas como Whatsapp, Instagram, Telegram e Facebook, que registraram instabilidade.

O papel de Diaz-Canel no desenvolvimento da situação atual do país vai além da permissão de acesso às redes. O professor do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional (NPII) da Fundação Getulio Vargas (FGV), Leonardo Paz, afirma que o novo presidente de Cuba é o primeiro após o período da revolução que não carrega o nome dos irmãos Castro nas costas. “Você tinha um regime que era muito personalista em torno do Fidel. A gente vê na literatura da ciência política que poucos países do mundo conseguiram em um regime autoritário personalista sobreviver depois do seu grande líder. Os países que conseguem geralmente fazem uma dinastia, como a Coreia do Norte, que tem o pai e o filho. Aquilo ali segura um pouco, é quase que uma monarquia”, explica. A queda de “padrinhos políticos” como a Venezuela, afogada em uma crise econômica e humanitária, se somam às sanções econômicas impostas por países como os Estados Unidos e à baixa transparência de informações em torno de assuntos delicados como a pandemia.

Nova geração tem dificuldade de se conectar com “ideais revolucionários”

Os especialistas também lembram que a maioria dos jovens que vão às ruas contra o governo hoje sequer viveram o período da Guerra Fria, o que os distancia dos ideais socialista pregados pela revolução. “A gente vê que os adeptos do regime, que são mais velhos, têm um certo saudosismo pelo regime e entendem qual foi a luta que fizeram para chegar ao regime socialista, então é que nem os nossos avós que conheceram o regime militar e que tinham saudades do regime militar. Com o regime cubano é a mesma coisa, você tem pessoas que estão mais próximas e conhecem muito mais. Já os mais jovens, não têm apego àquilo”, analisa Oliveira. O professor Leonardo Paz afirma que aqueles que participaram da revolta armada já são idosos em idade avançada. Já quem tem 31 anos, por exemplo, não chegou nem mesmo a ver o muro de Berlim cair. “Manter um regime que é muito ancorado nessa visão da Guerra Fria é um pouco difícil. Esse me parece um plano de fundo que deixa Cuba em uma situação complicada.”

Unificação da moeda e inflação

O especialista da FGV aponta, também, um fator menos comentado no cenário internacional e que tem influência direta na forma de consumo e insatisfação da população cubana: a unificação da moeda do país, que passou no dia 1º de janeiro de 2021 a rejeitar o peso conversível (CUC), criado no ano de 1994, e só aceitar o peso cubano. A unificação da moeda foi somada a uma série de reformas econômicas que interferiram no preço e nos salários da população. “Eles unificaram a moeda e para unificar a moeda aumentaram o salário mínimo médio em algo entre 450%, 500%. O que acontece? Como em toda grande mexida de moedas, o mercado tem que passar por um certo ajuste e esse ajuste é muitas vezes imprevisível. O problema da coisa é que você aumentou o salário das pessoas em 400%, mas está vendo agora os produtos aumentando em 2000%, 5000%. Então você acaba tendo muitos problemas graves, uma distorção de mercado, que encarece tudo”, explica Paz.

No meio de uma situação de pandemia, na qual o cenário internacional também enfrenta problemas de abastecimento, a mudança na moeda afetou diretamente o poder de compra da população. “Você cria um problema que para as pessoas de certa maneira é culpa do governo. Os deixa em uma situação dramática que o salário, que já era limitado e permitia só a subsistência, hoje não está nem permitindo a subsistência. Então acho que esse é o elemento central no protesto das pessoas. Isso é importante porque mexer com comida é algo muito dramático. Eu acho que as pessoas prestam pouca atenção nisso, mas boa partes das revoluções e levantes populares com mais frequência acontecem em ambientes que têm inflação em comida”, analisa. Para o especialista, as notas de repúdio emitidas pela União Europeia, as falas do presidente Joe Biden e toda a repreensão internacional em torno dos protestos podem não surtir efeito em relação ao governo, já que Cuba é um país autocrático.

“O que pode vir a acontecer é, de repente, você ter algum tipo de negociador europeu falando que vai mandar diesel subsidiado a depender da boa vontade política do país. Isso acontece, isso não é nenhum absurdo. Pode ser que Cuba ceda e libere [presos políticos] porque vai ter algum tipo de vantagem”, estipula. “Cuba já vem sofrendo muita pressão, então eles não vão mudar por conta disso [notas e repúdio]. O que causa dificuldade para o regime é se houver uma intensificação das sanções econômicas, se outros países além dos Estados Unidos fizerem sanções econômicas por conta de uma retaliação, de uma agressividade muito grande do governo em relação aos movimentos. Isso pode piorar a situação cubana de maneira sensível”, analisa. Para ambos, porém, é impossível saber o que vai acontecer daqui para frente no país. Os especialistas apontam que tudo vai depender do comportamento dos manifestantes e da reação do governo a possíveis novos protestos no futuro. Além da morte de um manifestante confirmada pelo país, até o momento as Organizações Não-Governamentais (ONGs) calculam que pelo menos 140 pessoas tenham sido presas.