Com acareação e depoimento de dono da Precisa, caso Covaxin volta ao centro da CPI da Covid-19

Além da oitiva de Francisco Maximiano, comissão colocará frente a frente o deputado Luis Miranda e o ministro Onyx Lorenzoni para esclarecer contradições sobre invoices

  • Por André Siqueira
  • 15/08/2021 14h00
Edilson Rodrigues/Agência SenadoCúpula da CPI da Covid-19 analisa documentos no plenário da comissão

A principal linha de investigação da CPI da Covid-19 volta ao centro das atenções da comissão na próxima semana de trabalhos. Com dois dias de sessões destinadas exclusivamente ao caso da compra de 20 milhões de doses da vacina Covaxin, os senadores querem esclarecer detalhes sobre os papeis da Precisa Medicamentos, do Ministério da Saúde e de outros setores do governo do presidente Jair Bolsonaro na aquisição do imunizante indiano – a União anunciou que irá rescindir o contrato após denúncias de irregularidades apresentadas pelos irmãos Miranda. Em um dos momentos mais aguardados pelos integrantes do colegiado, ficarão frente a frente o deputado Luis Miranda (DEM-DF) e o ministro do Trabalho e Previdência, Onyx Lorenzoni.

Para a terça-feira, 17, está previsto o depoimento de Francisco Araújo Filho, ex-secretário de Saúde do Distrito Federal. No entanto, como a Jovem Pan mostrou, Araújo recebeu autorização da Justiça Federal do DF para viajar a Manaus entre os dias 12 e 22 de agosto. Preso em agosto do ano passado, o ex-secretário de Saúde do DF foi um dos alvos da Operação Falso Negativo. Ele e outras 14 pessoas viraram réus, acusados de organização criminosa, fraude à licitação, fraude na entrega de uma mercadoria por outra e peculato – o prejuízo aos cofres públicos é estimado em R$ 46 milhões. Investigada no caso Covaxin, a Precisa Medicamentos também é parte de um processo do Tribunal de Contas do DF (TCDF) que apura se houve superfaturamento na compra de 150 mil testes rápidos de Covid-19 pelo governo do Distrito Federal (GDF). “Espero que ele [Araújo] fale a verdade, porque o modus operandi é o mesmo. O que aconteceu no Distrito Federal é o mesmo que acontece no Ministério da Saúde. O que tentaram fazer no Ministério da Saúde se concretizou aqui. Aqui foi caso concreto. Por isso, é importante esclarecer essa relação”, disse o senador Izalci Lucas (PSDB-DF) à Jovem Pan. Em razão da viagem de Araújo ao Estado do Amazonas, os senadores avaliam ouvir, em seu lugar, Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques, auditor do Tribunal de Contas da União (TCU), apontado como responsável por elaborar um relatório indicando que metade das mortes por Covid-19 no país eram fictícias – o documento fraudado chegou a ser citado por Bolsonaro em mais de uma ocasião.

Acareação de Onyx e Luis Miranda

Na quarta-feira, 18, em uma das sessões mais aguardadas desde o retorno do recesso parlamentar, a CPI realizará a acareação entre o deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) e o ministro do Trabalho e Previdência, Onyx Lorenzoni. Os membros da comissão querem esclarecer as contradições nas declarações do parlamentar e do auxiliar governista em relação às invoices (notas fiscais internacionais) apresentadas pela Precisa Medicamentos para liberar a importação das vacinas da Covaxin. Miranda afirma que foram enviadas três versões do documento, a primeira delas no dia 18 de março deste ano, enquanto o Palácio do Planalto já mudou sua versão sobre o fato mais de uma vez. Em um primeiro momento, em uma coletiva de imprensa convocada para rebater as acusações do deputado do DEM, Lorenzoni afirmou, ao lado do ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde Elcio Franco Filho, que o governo recebeu a invoice no dia 19 de março. Posteriormente, o governo Bolsonaro passou a dizer que só tiveram contato com a nota fiscal no dia 22 de março.

Para fechar a semana, na quinta-feira, 19, os senadores vão ouvir o dono da Precisa Medicamentos, Francisco Maximiano. Na terça-feira, 10, a defesa de Max, como ele é conhecido, recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) para o não comparecimento à comissão. Depois de sucessivos adiamentos de seu depoimento, os integrantes da CPI dizem estar “sem paciência” com este que é o personagem central da principal linha investigativa do colegiado. Na avaliação dos parlamentares, o empresário viajou duas vezes à Índia para fugir de sua oitiva e, eventualmente, apagar provas. “O senhor Maximiano tem insistido em burlar essa CPI. Não existe mais paciência com este senhor e ele fique convencido de que ele não fugirá desta CPI”, disse o vice-presidente da CPI da Covid-19, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), na quarta-feira, 11. Reservadamente, um senador afirmou à reportagem que a comissão “não titubeará” em pedir a prisão de Maximiano, “se ele der margem para isso”.