Como funciona o teste de integridade das urnas eletrônicas no Brasil

Mecanismo de auditoria pública utilizado pela Justiça Eleitoral para verificar a correta contabilização dos votos e a segurança do software eleitoral

  • Por Jovem Pan
  • 04/02/2026 00h12
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José Cruz/Agência Brasil TSE realiza a 7ª edição do Teste Público de Segurança da Urna 2023 Para compreender o que é e como funciona o teste de integridade das urnas eletrônicas, é necessário situá-lo como uma das principais etapas de fiscalização do sistema eletrônico de votação.

A legitimidade do processo democrático brasileiro apoia-se em um complexo sistema de freios e contrapesos tecnológicos e procedimentais. Para compreender o que é e como funciona o teste de integridade das urnas eletrônicas, é necessário situá-lo como uma das principais etapas de fiscalização do sistema eletrônico de votação. Este procedimento, realizado no mesmo dia do pleito, simula uma votação normal para comprovar que o voto digitado pelo eleitor na urna é exatamente o mesmo que será contabilizado pelo computador, funcionando como uma prova de conceito em tempo real da confiabilidade do software e do hardware utilizados pela Justiça Eleitoral.

Natureza e atribuições da auditoria

O teste de integridade, tecnicamente, é uma auditoria de funcionamento. Sua atribuição central é verificar a consistência do comportamento da urna eletrônica sob condições normais de uso. Diferente de uma análise de código-fonte — que ocorre em etapas anteriores e em ambiente controlado —, este teste foca no resultado prático da interação entre o eleitor e a máquina.

As funções primordiais deste procedimento incluem:

  • Verificação de correspondência: Garantir que a escolha inserida no teclado da urna corresponde fielmente ao registro digital gravado na memória da máquina.
  • Fiscalização externa: Permitir que entidades fiscalizadoras (partidos políticos, Ordem dos Advogados do Brasil, Ministério Público e sociedade civil) acompanhem o fluxo de votação e apuração.
  • Detecção de falhas: Identificar eventuais anomalias no funcionamento do equipamento ou do sistema operacional da urna em um cenário de uso intensivo.

Contexto histórico e evolução normativa

A implementação dessa auditoria não é recente. O procedimento foi instituído pela Justiça Eleitoral em 2002, sob a denominação de “Votação Paralela”. A mudança de nomenclatura para “Teste de Integridade” ocorreu posteriormente, visando tornar o termo mais descritivo e transparente para o eleitorado.

Historicamente, o processo é regulamentado por resoluções expedidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a cada ciclo eleitoral. A Resolução TSE nº 23.673/2021, por exemplo, consolidou as diretrizes para os procedimentos de fiscalização e auditoria do sistema eletrônico de votação. Desde a sua criação, o teste tem evoluído para incluir um número maior de urnas auditadas e, mais recentemente, a introdução de projetos-piloto com biometria, ampliando as camadas de verificação de segurança.

Procedimentos operacionais e funcionamento

Para entender como funciona o teste de integridade das urnas eletrônicas na prática, deve-se observar a sequência rigorosa de atos que se iniciam na véspera da eleição e se estendem até o final da votação oficial. O processo ocorre nos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) e em locais públicos designados, sendo totalmente filmado e aberto ao público.

O funcionamento obedece às seguintes etapas críticas:

  1. Sorteio ou escolha das urnas: Na véspera da eleição, em cerimônia pública, são sorteadas ou escolhidas pelas entidades fiscalizadoras as urnas que serão submetidas ao teste. Essas urnas, que já estavam configuradas e lacradas para serem usadas nas seções eleitorais reais, são retiradas e substituídas por urnas de contingência.
  2. Transporte e segurança: As urnas sorteadas são transportadas sob escolta policial para o local de realização do teste de integridade, geralmente a sede do TRE ou outro edifício público.
  3. Preparação das cédulas de papel: Cédulas de papel preenchidas previamente por representantes dos partidos e coligações são depositadas em urnas de lona lacradas. Estes votos em papel servem como a “verdade terrestre” para a conferência posterior.
  4. Simulação da votação: No dia da eleição, no mesmo horário da votação oficial (das 8h às 17h), servidores da Justiça Eleitoral e representantes de entidades fiscalizadoras retiram as cédulas de papel da urna de lona, digitam os votos na urna eletrônica e registram o processo em vídeo.
  5. Conferência dos resultados: Ao final do dia, a urna eletrônica emite o Boletim de Urna (BU), que contém a soma dos votos digitados. Esse resultado eletrônico é comparado com a apuração manual dos votos das cédulas de papel. O objetivo é que haja uma coincidência de 100% entre os dois resultados.

Em eleições recentes, introduziu-se também o “Teste de Integridade com Biometria” em seções eleitorais reais, onde eleitores voluntários, após votarem oficialmente, desbloqueiam uma urna de teste com sua biometria para que auditores realizem a verificação, garantindo que o sistema biométrico também seja testado em cenário real.

Importância institucional e impacto na transparência

A relevância do teste de integridade reside na sua capacidade de materializar a segurança do voto eletrônico de forma compreensível. Ao criar um espelho físico (cédulas de papel) de uma votação eletrônica e demonstrar que os totais coincidem, a Justiça Eleitoral oferece uma resposta técnica às indagações sobre a inviolabilidade da urna.

Além disso, o procedimento reforça a soberania do processo eleitoral ao descentralizar a fiscalização. A presença de auditores externos, incluindo peritos da Polícia Federal e representantes de organismos internacionais, assegura que o sistema não opera em uma “caixa preta”, mas sim sob escrutínio público constante. A redundância gerada pela comparação entre o meio físico e o digital é um pilar fundamental para a aceitação dos resultados das urnas.

O teste de integridade consolida-se, portanto, como uma ferramenta indispensável no arcabouço jurídico e tecnológico do sistema eleitoral brasileiro. Ao validar a correlação exata entre a intenção do eleitor e o registro digital, o procedimento mitiga riscos de desinformação e fortalece a confiança nas instituições democráticas, demonstrando, a cada pleito, a robustez e a auditabilidade das urnas eletrônicas.

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