Um ano após a criação, Aliança pelo Brasil está só no papel, mas seguirá em frente mesmo sem Bolsonaro

Luís Felipe Belmonte, vice-presidente do partido, afirma que legenda servirá para ‘preencher a lacuna conservadora’ do espectro político brasileiro e que, até maio, estará pronta

  • Por Júlia Vieira
  • 27/12/2020 14h45 - Atualizado em 27/12/2020 15h07
Estadão ConteúdoO partido Aliança Pelo Brasil foi fundado pelo presidente Jair Bolsonaro em novembro de 2019

Em 12 de novembro de 2019, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) anunciou a criação do Aliança Pelo Brasil, partido que o abrigaria após rompimento com o PSL. Em 5 de dezembro de 2019, o vice-presidente da sigla, Luís Felipe Belmonte, registrou a legenda em cartório. Fundado com promessas de disputar já as eleições municipais de 2020, o Aliança não conseguiu obter o reconhecimento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para formalizar sua criação e participar do pleito. Um ano após a criação, Bolsonaro afirmou que terá uma “nova opção” de partido em março se, até lá, o Aliança pelo Brasil não sair do papel. Em entrevista à Jovem Pan, Belmonte afirmou que, mesmo sem a presença de Bolsonaro, o partido continuará sendo uma “sustentação” para a reeleição do presidente. Independentemente dos contratempos causados pelas fichas rejeitadas, pelo processo lento da Justiça Eleitoral em decorrência da pandemia do coronavírus e do possível abandono de barco por Bolsonaro, o vice-presidente afirma que os apoiadores continuam “firmes” e “determinados” para a fundação do partido, que, segundo ele, servirá para “preencher a lacuna” deixada por legendas conservadoras no espectro político brasileiro.

De acordo com a Justiça Eleitoral, até agora, o Aliança só conseguiu validar 10% das 491.967 mil assinaturas necessárias. Dentre as 87.460 fichas enviadas ao TSE, 38.070 não foram aprovadas. Segundo a Justiça, entre os não aptos, 24.680 eram de eleitores filiados a outro partido, 1.515 de apoiamentos já registrados, 1.353 de eleitores que tiveram o título cancelado, 294 de eleitores suspensos, 278 de eleitores inexistentes e 87 de eleitores falecidos. As assinaturas do partido começaram a ser colhidas em dezembro de 2019 e seguiram durante janeiro e fevereiro. Em seguida, o recolhimento foi pausado por causa da pandemia da Covid-19 no Brasil. “Retomamos o recolhimento de fichas agora em setembro. Com todo esse tempo parado, nós, hoje, entre fichas lançadas no sistema e fichas para lançar, temos um número próximo de 300 mil fichas”, informou Belmonte. “Eu acho que [o número] está bastante razoável, com uma velocidade muito boa. O único problema que nós temos encontrado é a questão da Justiça Eleitoral, que ficou um período longo em regime de home office sem poder processar fichas. E, quando a Justiça voltou à atividade, foi devido às eleições municipais”, explica o vice-presidente. Belmonte diz acreditar que o Aliança terá o número de fichas exigidas pela legislação entre janeiro e fevereiro de 2021.

O partido espera que, com as fichas entregues ao sistema até fevereiro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) consiga fazer o processamento total em três ou quatro meses. “Porque aí é um processamento administrativo apenas para cumprir as exigências. Tendo as fichas necessárias, o deferimento do partido é quase automático”, torce Belmonte. O partido está concentrando esforços em estados que estão com alto número de captação de assinatura e inserção no sistema. São eles São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Maranhão, Pará, Ceará, Pernambuco e o Distrito Federal. “Nesses, trabalharemos com equipes já contatadas e que irão rodar os estados com unidades móveis”, conta Belmonte, que explica que o partido trabalhará com os apoiamentos de rede para transformar todos em fichas. Segundo ele, são mais de 1 milhão de seguidores. O próximo passo do partido, após o deferimento, é a criação de diretórios estaduais pela executiva nacional do Aliança. “Queremos começar a estruturação de todo o território nacional ainda no ano de 2021 para que em 2022 já possamos ter indicação de possíveis candidatos para as eleições de outubro.” A legenda está convicta de que até maio de 2021 o Aliança Pelo Brasil ficará pronto.

Sem Bolsonaro, para onde vai o Aliança?

Luís Felipe Belmonte pontua que a principal orientação no momento é dar prosseguimento à criação do Aliança. “A disposição de todo o imenso número de pessoas que trabalha hoje na organização do partido, na coleta de assinaturas, é para a criação do Aliança. Isso é algo que será feito. Agora, a avaliação do presidente, do ponto de vista de qual é o melhor caminho político para ele, considerando todas as variáveis no processo político, é uma decisão que será dele, que ele tomará no momento certo”, disse à Jovem Pan. Alguns partidos já fizeram sinalizações para que Bolsonaro se filie a eles, como o Patriota, PTB, Republicanos, PRTB, Progressistas e até o próprio PSL. Depois de desentendimentos com o PSL, dois dos filhos do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro, reeleito no Rio de Janeiro, e o senador Flávio Bolsonaro, se filiaram ao Republicanos. O deputado Eduardo Bolsonaro é o único da família que permanece no partido que elegeu o pai, porque, caso deixe a sigla, perderia o mandato de deputado federal. Isso acontece porque deputado federais, estaduais e vereadores são eleitos pelo sistema proporcional. Nesse sistema, o número de cadeiras ocupadas por um partido é proporcional ao número de votos válidos recebidos pela legenda. Sendo assim, o mandato de Eduardo Bolsonaro não pertence só a ele, mas ao PSL também. Após a informação de que o presidente Jair Bolsonaro estaria negociando sua filiação com outros partidos, começaram a circular boatos de que a criação do Aliança estava em jogo.

“Desistir não é uma opção”, assegura Belmonte. Mesmo sem Bolsonaro, o Aliança promete ser um partido de sustentação para o governo e para a reeleição do presidente. “Ele mantendo a posição dele no Aliança, poderá vir candidato pelo Aliança. Se ele encontrar alguma outra alternativa que ache mais adequada ao projeto político que ele está desenvolvendo, o Aliança será um partido de sustentação do presidente. Nós estamos muito tranquilos de fazer a complementação do que nós iniciamos”, diz. O vice-presidente da legenda explica que o Aliança não opinará sobre qual o melhor caminho para Bolsonaro e afirma que a “definição política do presidente, naturalmente, será dele”. Caso Bolsonaro entre em outra sigla, o Aliança não lançara outro presidenciável. “O partido é criado para apoiar as pautas conservadoras e nosso líder maior é o presidente Bolsonaro.”

Vácuo no conservadorismo

Segundo Belmonte, após as eleições municipais, houve uma visão muito clara por parte dos grupos conservadores sobre a necessidade de existir um partido que abrigue todos eles ou pelo menos a grande maioria dos conservadores brasileiros. “Eles notaram que ficaram um pouco dispersos e tiveram que recorrer a diversas outras legendas partidárias, e isso impediu uma certa unidade de procedimento. O que nós sentimos é que, apesar de nós termos muitos partidos no espectro político brasileiro, nós não temos um que tenha o viés ideológico conservador como o Aliança se propõe”, explica. Para ele, o Aliança servirá para preencher a lacuna deixada e abrigar pessoas de natureza conservadora que buscam estar dentro de uma mesma legenda partidária. “É por isso que nós também continuamos firmes e determinados a dar cumprimento desse partido”, diz. Ao ser perguntado se o partido seria uma forma de preencher o vácuo deixado pelo PSL após a dissidência de Bolsonaro, Belmonte nega. “O PSL era um partido que já tinha com suas propostas e que foi, digamos, muito incrementado pela figura, pela personalidade do presidente Bolsonaro. O Aliança não, ele já nasce com uma raiz conservadora”, finaliza o vice-presidente, dando o tom de qual será a principal bandeira da legenda: o conservadorismo.