Portugal completa 30 anos na UE entre satisfação e desencanto

  • Por Agencia EFE
  • 12/06/2015 14h05

Óscar Tomasi

Lisboa, 12 jun (EFE).- Portugal completa nesta sexta-feira 30 anos desde seu ingresso na União Europeia (UE) com melhores índices de desenvolvimento que então e, embora no país o europeísmo se mantenha como corrente dominante, também existem sinais de desencanto.

Este é o sentimento generalizado entre políticos e acadêmicos que fizeram um balanço nesta sexta-feira sobre a entrada na então chamada Comunidade Econômica Europeia (CEE), uma efemérides que passou praticamente despercebida, sem atos oficiais de comemoração.

O ministro luso das Relações Exteriores, Rui Machete, foi um dos mais claros na hora de reconhecer o impacto da recente crise econômica e suas consequências na opinião dos cidadãos sobre o projeto comunitário.

“Durante os primeiros anos, a adesão europeia foi vista como uma estrada em direção à prosperidade. As crises, sobretudo a de 2011 -quando Portugal foi resgatado pela troika em troca de um severo programa de austeridade-, destruiu a imagem risonha e confiante que tínhamos sobre a integração europeia”, ressaltou em entrevista publicada pelo “Jornal de Negócios”.

Machete disse que, apesar do receio de algumas forças políticas, no momento da entrada de Portugal na CEE existia a expectativa de que Lisboa pudesse desenvolver sua empobrecida economia após as duas intervenções do FMI, em 1977 e 1983.

Empobrecido e com uma democracia ainda incipiente após quase meio século de ditadura, a incorporação à União Europeia permitiu uma melhora econômica inicial notável, que foi perdendo ritmo à medida que a década de 90 avançava e derivou em uma “década perdida” no começo do século XXI, com baixas taxas de crescimento.

Desde 1985, o país recebeu mais de 100 bilhões de euros em fundos estruturais e de coesão, o que permitiu uma melhora substancial nas infraestruturas, mas também na área da saúde e da educação.

“As ajudas (comunitárias) foram utilizadas em obras públicas que nem sempre eram indispensáveis, ao invés de serem utilizadas na qualificação das pessoas”, censurou o responsável das Relações Exteriores do atual governo conservador, que também atribuiu ao “mau governo” o fato de Portugal não aumentou seus índices de produtividade.

O maior golpe ao tradicional europeísmo luso chegou com a última crise, quando o debate sobre os benefícios de uma hipotética saída do euro se instalou na opinião pública.

A discussão não foi levada adiante e em Portugal não surgiram movimentos anti-UE relevantes na esfera política, além do Partido Comunista e do marxista Bloco de Esquerda, que já censuravam desde antes o projeto de moeda única e atualmente representam 7% dos deputados no parlamento.

O rumo que o projeto comunitário tomou foi duramente criticado inclusive pelo principal impulsor da adesão de Portugal, o histórico dirigente socialista Mário Soares, que apesar de seguir se declarando europeísta e destacar os avanços do país neste período, advertiu continuamente sobre a falta de solidariedade no seio da UE.

Por sua vez, eurodeputados dos principais partidos lusos consideraram hoje que Portugal tem razões para comemorar esta data e lembraram o “salto brutal” que o país deu neste período.

A expectativa de vida aumentou, a rede de estradas cresceu exponencialmente, a taxa de abandono escolar caiu e as estatísticas de saúde pública também melhoraram de forma significativa.

Na economia, a maior diferença foi observada no comércio internacional de bens, que se multiplicou mais de dez vezes nestes 30 anos.

O perfil da celebração deste 30° aniversário contrasta com o ocorrido em 2005, quando pelos 20 anos foi organizada uma cerimônia de homenagem no mesmo lugar onde foi assinado aquele tratado, no emblemático claustro do Mosteiro dos Jerónimos.

“Quero ver Portugal na CEE”, cantava o grupo de rock luso “GNR” em 1981 em um música com o mesmo título que se tornou um êxito, prova da esperança que gerou então o projeto comunitário em um país que nos últimos anos viu como caiu este apoio entre seus cidadãos até se colocar como oitavo estado mais eurocético da UE. EFE