Vacinação no Brasil tem muito disse me disse e pouca conversa prática

Tantas informações, algumas desencontradas, deixam as pessoas confusas; o que se sabe de verdade é que a campanha de imunização só começa no dia D e na hora H

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 14/01/2021 12h22
Luis Lima/Estadão Conteúdo - 08/01/2021Vacina se tornou uma disputa política, tomada por discussões que deixam população cada vez mais perdida

Como pode um colunista do site da rádio mais importante do país, que é a Jovem Pan, não escrever sobre o assunto que está em todos os corações e mentes neste momento? Simplesmente não pode. Refiro-me à vacinação, que tem enlouquecido grande parte dos brasileiros com tanta a desinformação. Melhor dizendo: informação é o que não falta, mas são tantas que deixam as pessoas sem rumo e sem saber o que pensar. É muita coisa: discussões, reuniões, discursos, entrevistas e afins, coisas que só confundem cada vez mais. Resolver o que tem de ser resolvido, nada! Só conversa. A vacina e, agora, a vacinação, politizadas como estão, tornaram-se uma disputa política em que a vida das pessoas fica em segundo plano.

Vamos começar pelo final. Alguns dos últimos eventos ocorridos no Brasil que dizem respeito à vacinação são as declarações do presidente Jair Bolsonaro, nas quais ele ironizou uma das vacinas, a CoronoVac, desenvolvida na China em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo. Ele chama de “a vacina chinesa do Dória”. Constatou-se que a eficácia deste imunizante é de 50,38%. Bolsonaro fez ironia, mas disse na terça-feira, 12, que o governo comprará toda vacina que tenha registro na Anvisa. O Ministério da Saúde já assinou contrato para comprar 46 milhões de doses da CoronoVac. No cercadinho, junto ao Palácio da Alvorada, onde o presidente costuma conversar com apoiadores, um homem falava sobre a importância da vacinação no país. Bolsonaro, então, perguntou rindo: “Essa de 50% é uma boa?”. João Doria já respondeu, como ouvi aqui na Jovem Pan nesta manhã de quinta-feira, 14, que seu rival político “brinca de ser presidente”. Bolsonaro afirmou que está apanhando há quatro meses, esclarecendo que, entre ele e o imunizante, tem a Anvisa. É a Agência Nacional de Vigilância Sanitária que decide sobre isso. O presidente disse não ser um irresponsável e que não está a fim de agradar ninguém. Passando pela aprovação da agência, já existe uma verba de R$ 20 bilhões para comprar. Esse é o registro das últimas informações sobre esse assunto. Aliás, um bom registro, porque envolve o presidente da República, que sempre demonstra estar distante dessa questão.

Os primeiros dias de 2021 sofram sombrios. Cresceu muito no país o número de doentes internados por Covid-19 em leitos de enfermaria e nas UTIs da rede pública de saúde do Brasil. São mais de 36 mil pessoas internadas, de acordo com informações das secretarias estaduais (e do Distrito Federal) de Saúde. Em relação a meados de dezembro de 2020, o aumento foi de mais de 13 mil pacientes. O ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, está mais preocupado com a situação no Amazonas, onde o vírus tem provocado o caos absoluto. Tanto que o prefeito de Manaus, David Almeida, informou que vai construir 22 mil sepulturas num cemitério vertical, porque não existe mais lugar para colocar as pessoas que chegaram a óbito. Não é brincadeira: o ministro pressionou as autoridades de saúde amazonenses, especialmente as da capital, para que utilizem medicações antivirais no tratamento e prevenção da doença. Pazuello adiantou que esses medicamentos são a cloroquina e a ivermectina, os remédios do presidente Bolsonaro, que, pelo que consta na palavra de todos os laboratórios do mundo, não têm nenhuma eficácia comprovada.

Em ofício enviado à secretária municipal da Saúde de Manaus, Mayra Pinheiro, o ministro ressalta “a comprovação científica sobre o papel das medicações antivirais orientadas pelo Ministério da Saúde, tornando, dessa forma, inadmissível, diante da gravidade da situação da capital amazonense, a não adoção da referida orientação”. Mas a secretária não tomou conhecimento da recomendação. Com o aumento do número de óbitos por Covid-19, várias cidades brasileiras voltaram a construir os chamados hospitais de campanha, caso de Belém, Fortaleza, Recife, Fortaleza e Varginha (MG). Em São Paulo, o número de enterros diários é assustador. Mas isso está acontecendo no mudo inteiro, onde a doença voltou a atacar de maneira avassaladora. Em um único dia, terça-feira, 12, foram mais de 17 mil vidas perdidas, 4,3 mil somente nos Estados Unidos. A reunião que o ministro Pazuello faria na terça-feira, 12, em Brasília, com governadores, foi adiada. Nada havia a se dizer. O ministro adiou o encontro e foi para o Amazonas. A reunião discutiria o início da vacinação no país. Sem qualquer informação sobre o assunto, o ministro decidiu desmarcar tudo. O encontro ficou para terça-feira que vem, 19.

Nesta quarta-feira, 13, decolou de Recife o avião da Azul que vai buscar 2 milhões de doses de vacina na Índia, devendo regressar no sábado, 16. São vacinas da Oxford, importadas do laboratório Serum. O pedido foi feito pela Fiocruz e aprovado pela Anvisa. E ainda nesta semana, o Brasil fará um pedido para uso emergencial da vacina Sputnik V, da Rússia. A Farmacêutica União Química e o Fundo Russo de Investimento Direto adiantam que 10 milhões de doses deverão chegar por aqui em março. A Anvisa, por seu lado, decidirá no domingo próximo, 17, sobre o uso emergencial das vacinas no Brasil. Até agora, duas vacinas apresentaram documentação para análise, o imunizante da AstraZencea/Oxford, que será produzido pela Fiocruz no Brasil, e a CoronaVac, sob responsabilidade do Instituto Butantan, de São Paulo. Para explicar melhor tudo isso, convirá recorrer ao escritor italiano Giuseppe Tomasi di Lampeduza (1896-1957), que escreveu: “Algo deve mudar para que tudo continue como está”. É exatamente isso. Todo dia a mesma coisa. E a vacinação? Nessa história toda, a vacinação é só um detalhe. O ministro Pazuello adiantou que a vacina será distribuída em todo o país cinco dias depois da aprovação pela Anvisa. Todo o país. Ninguém será privilegiado. O que se sabe de verdade, mas de verdade mesmo, é o que garantiu Pazuello, falando mais como general do que como ministro da Saúde: a vacinação vai começar no dia D, na hora H.