A estratégia eleitoral da esquerda contra Jair Bolsonaro

A pretexto da pandemia, oposição retomou sua batida e eficiente tática, rompendo a unidade social e reforçando no coração de cada brasileiro a antipatia pelo próximo

  • Por Bruna Torlay
  • 21/01/2022 09h00
BRUNO ROCHA/ENQUADRAR/ESTADÃO CONTEÚDO - 19/06/2021 Protesto contra o presidente Jair Bolsonaro na Avenida Paulista Em junho do ano passado, grupos de esquerda convocaram protesto alegando que Jair Bolsonaro não agia para trazer vacinas para o Brasil

Dividir para conquistar: eis o lema que tornou alguns grupos terroristas inicialmente desorganizados na maior força política do Brasil, dos anos 60 para cá. A ideia foi multiplicar facções, caracterizadas pela mesma matriz ideológica, de modo a criar uma ambiente de disputa política onde ideologias rivais permanecessem em desvantagem. Tais facções disputam o poder, mas sem rivalizar quanto à essência do projeto político mais adequado ao país. No final das contas, são matizes da mesma perspectiva política que se oferecem ao eleitorado. Quem ganha sempre? A ideologia matriz, é claro. 

O mesmo lema que serviu à organização política da esquerda tem sido aplicado à sociedade, de modo a corromper sua coesão interna (escorada no consenso moral) para ampliar a diferença de poder entre Estado e indivíduo. Quanto mais dividida uma sociedade, menor a possibilidade de haver representação contra o partido predominante. Exemplo: se um grupo de 100 milhões de pessoas compartilha uma mentalidade comum, reconhece o valor da mesma tradição e possui, portanto, consenso moral (visão semelhante quanto ao certo e ao errado), o voto será dirigido a quem representa esse modo de pensar no parlamento. E tal perspectiva se converterá em número de parlamentares, um bloco coeso com poder de voto e veto. Mas se esse mesmo grupo já não tiver nada em comum e cultivar modos de vida antagônicos, ou até rivais, o voto será fragmentado entre parlamentares sem visões em comum, sem possibilidade de formar um bloco coeso com poder de voto e veto. Por isso a estratégia de dividir ao máximo a sociedade e minar eventuais modalidades de consenso moral são estratégia típica de grupos em busca de concentrar poder.

Em 2018, parte significativa da sociedade brasileira se reuniu em torno do descontentamento com os métodos e resultados da administração petista. O nome que se opôs ao sistema corrompido mobilizou diversas porções do tecido social, gerando nela unidade de propósito: afastar o país daquela política corrupta e de inspiração comunista. O motivo do sucesso? A única estratégia capaz de vencer o “dividir para conquistar” é o apelo à comunidade de propósitos por trás de toda sociedade minimamente estável. Para onde queremos ir? Essa foi a pergunta fundamental de 2018, à época capaz de romper a organizada força maior da política brasileira: a esquerda. 

Este ano tem sido diferente. Eis que, a pretexto da pandemia e as consequentes políticas públicas dela resultantes, a esquerda retomou sua batida e eficiente tática, rompendo a unidade social e reforçando no coração de cada brasileiro a antipatia pelo próximo. O ponto essencial para manter viva essa divisão tem sido a polêmica das vacinas. Até o presidente da República, o homem que bateu a esquerda em 2018, foi levado pela correnteza, ao insistir em sublinhar um só lado do problema social criado pelo (natural e legítimo) temor da contaminação. Outro dia, ouvi um advogado especialista em direito da saúde usar o termo segregação para se referir à eventual necessidade de separar crianças vacinadas e não vacinadas nas escolas com a maior tranquilidade do mundo. Passou batido porque a sociedade já está dividida. Os não-vacinados rejeitam as motivações emocionais dos vacinados, que lhes devolvem a incompreensão. Ao colocar-se no centro da controvérsia, o presidente se deixa contaminar pelos sentimentos envolvidos na controvérsia, angariando para si a antipatia da população. Eis a fragilidade que a esquerda vai explorar insistentemente até o último dia da campanha eleitoral. 

Para quê deixar que o povo se recorde do saque a Petrobras; da quantidade de aliados petistas presos; da incompetência administrativa; da elevação desenfreada do gasto público, tão bem monitorada por Mansueto Almeida; do inchaço da máquina pública, que se converteu em aumento de impostos? Para que deixar que o debate caminhe nessa direção, se deixar que a polêmica em torno da vacinação obrigatória, passaporte sanitário e qualidade das vacinas emergenciais à disposição é tão mais eficaz em dividir a sociedade e fazê-la esquecer do destino político que deseja trilhar? “Para onde queremos ir” nada! A pergunta fundamental de 2022, na estratégia eleitoral da esquerda contra Jair Bolsonaro, é “por que o homem que se opôs às vacinas merece continuar governando o país?”

Se a direita civil fosse um pouquinho mais esperta em termos de cálculo político, talvez já tivesse deixado de lado a inadequada condenação à busca das pessoas por uma solução provisória, ainda que imperfeita (a vacinação), para esclarecer que a defesa das liberdades individuais é um componente vital de toda e qualquer boa solução que se busque para a vida em comum. É a síntese de solução e liberdade que importa, não a sua oposição. Um lema legítimo à prática concreta da tolerância e da dignidade humana, nesse sentido e nesse cenário, seria muito mais: vacinas sim; coerção nunca; liberdade sempre. Correspondendo às decisões práticas do Ministério da Saúde, afinadas ao senso de urgência da maior parte da população, mostraria a uma ala da base que o dividir para conquistar esquerdista pode ser posto de escanteio outra vez. Deixar de lado um orgulho tolo pelo objetivo comum a inúmeros brasileiros: manter-se no caminho da prosperidade.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

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