O que esperar da super quarta?
No balanço de riscos, o mercado conta com manutenção da Selic nos 15% na reunião deste mês, com início dos cortes dos juros básicos apenas em março
Esta semana tem a super quarta. Dia de decisões sobre os juros aqui e nos Estados Unidos. E nos dois casos a expectativa é muito mais quanto ao comunicado que vai sair junto com as decisões do que as decisões em si, já que a aposta dominante é de manutenção dos juros. No Brasil, até temos sinais mais favoráveis em relação à inflação. O IPCA fechou o ano passado em 4,26%, abaixo do teto da meta, de 4,5%. O que não acontecia há um bom tempo. O relatório Focus há várias semanas vem mostrando queda das projeções para este ano. O relatório desta segunda, dia 26, caiu para 4%. E quanto se pensa em perspectiva, o dólar rodando abaixo dos R$ 5,30 e o corte no preço da gasolina, além da previsão de uma boa safra, podem ajudar a garantir variações menores dos preços.
O que continua pesando é o fôlego da atividade econômica e mesmo do mercado de trabalho. Com o prolongado ciclo de juros elevados se imagina uma expansão menor do PIB e uma freada no ritmo de oferta de vagas, do aumento da massa salarial, o que poderia esfriar a demanda, facilitando o controle da inflação. Mas não é o que vem ocorrendo. A economia cresceu acima do esperado no ano passado, com o desemprego tendo taxa recorde de baixa. Sem esquecer dos programas de transferência de renda e, neste ano, a entrada em vigor da faixa ampliada da isenção do imposto de renda. Um dinheirinho a mais para milhões de brasileiros.
No balanço de riscos, o mercado conta com manutenção da Selic nos 15% na reunião deste mês, com início dos cortes dos juros básicos apenas em março. E um corte bem gradual. A projeção para o final do ano segue em 12,25%. Ainda um nível, em princípio, contracionista. Mas a economia tem mostrado resiliência mesmo com os impactos negativos dos juros elevados, como o crédito mais caro, para empresas e pessoas físicas; aumento do endividamento e inadimplência. E a própria composição do IPCA também não dá muita segurança quanto a um controle mais efetivo dos aumentos de preços. É o caso de Serviços, que segue com variação acumulada acima do índice cheio e muitas oscilações dos movimentos.
Bom não esquecer que o Banco Central tem deixado claro que o foco da atual política é garantir uma convergência maior da inflação e das projeções para o centro da meta, os 3%. De acordo com o Focus, isso só deve acontecer de 2027 para 2028, por enquanto, com as projeções do IPCA, respectivamente, em 3,8% e 3,5%.
Já nos Estados Unidos, as políticas de Trump aumentaram muito as incertezas quanto ao ritmo de atividade, inflação e geração de emprego. Sendo que o FED, o Banco Central de lá, tem duplo mandado: tem de calibrar a política de juros para fazer a inflação se aproximar da meta de 2% ao mesmo tempo, em que deve preservar bons números do mercado de trabalho. O tarifaço mexeu com a inflação, deixando os importados mais caros. A atividade tem mantido fôlego maior que o previsto, em boa parte pela expansão da Inteligência Artificial, dos investimentos no setor. Porém, o emprego tem oscilado, dando sinais de possível enfraquecimento.
Com base nesse cenário, a previsão é de manutenção dos juros no patamar atual, entre 3,5% e 3,75%, pelo menos nesta reunião, para aguardar indicações mais confiáveis. E o ciclo de corte já começou no ano passado. Em princípio se conta com um corte adicional de mais 0,25 ponto e depois uma pausa mesmo. Isso se não confirmados os temores de influência mais de Trump a partir da indicação do novo presidente do Federal Reserve. O mandato do atual, Jerome Powell, acaba em maio. E o presidente dos Estados Unidos já disse que quer os juros em 1% ainda este ano. Intenção que pode afetar muito a credibilidade de FED e da própria economia dos EUA.
Vale lembrar que as instabilidade e incertezas provocadas por Trump já tem mexido com o fluxo de investimentos pelo mundo, o que tem favorecido outros mercados, especialmente os países emergentes. Entre eles, o Brasil, com recordes sucessivos e dólar abaixo do esperado, até pelas incertezas domésticas.
Agora é aguardar as decisões e os recados do Copom e do Fomc, o comitê de política monetária do Federal Reserve.
*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.
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