A guerra contra PCC e CV não está acontecendo nas ruas, mas no dinheiro
A verdadeira batalha contra essas facções talvez não esteja acontecendo nas favelas, nas fronteiras ou nos presídios
Enquanto o debate político brasileiro se concentra na classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, uma questão muito mais importante está recebendo pouca atenção.
A verdadeira batalha contra essas facções talvez não esteja acontecendo nas favelas, nas fronteiras ou nos presídios. Ela está acontecendo nas contas bancárias.
Durante décadas, a imagem pública do crime organizado brasileiro foi construída em torno da violência: homens armados, disputa de territórios, confrontos policiais, rebeliões em presídios e execuções.
Tudo isso existe. Mas essa imagem esconde uma realidade fundamental. Nenhuma organização criminosa do tamanho do PCC ou do Comando Vermelho sobrevive apenas pela força. Ela sobrevive porque consegue transformar violência em dinheiro. E transformar dinheiro em poder.
É justamente nesse ponto que muitas análises falham. Quando se observa a trajetória recente das investigações brasileiras, percebe-se que os golpes mais relevantes contra essas organizações vieram cada vez menos de grandes operações ostensivas e cada vez mais de investigações financeiras.
A lógica é simples. Prender integrantes é importante. Apreender armas é importante. Mas destruir a infraestrutura financeira é potencialmente muito mais devastador.
Uma organização criminosa pode substituir soldados. Pode substituir gerentes. Pode substituir líderes. O que ela não substitui facilmente é sua capacidade de movimentar recursos. E essa capacidade depende de sistemas sofisticados: fintechs, empresas de fachada, laranjas, transportadoras, imobiliárias, comércio exterior, mercado informal, mercado formal, lavagem de dinheiro, investimentos e estruturas societárias.
Tudo isso faz parte do ecossistema econômico do crime organizado moderno. É por isso que algumas das maiores operações recentes têm se concentrado menos em confrontos armados e mais em rastreamento financeiro.
A pergunta central deixou de ser apenas “quem vende drogas?”. Passou a ser “quem movimenta o dinheiro?”.
Essa mudança de foco é importante porque altera completamente a forma de enxergar o problema.
Quando uma facção movimenta bilhões de reais, ela deixa de ser apenas uma ameaça policial. Ela passa a ser uma ameaça econômica. Passa a disputar espaços dentro da economia formal. Passa a influenciar mercados. Passa a criar dependências. Passa a corromper estruturas legítimas.
Nesse contexto, a classificação americana de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas ganha uma dimensão diferente. O principal efeito pode não ser policial. Pode ser financeiro.
Instituições financeiras internacionais tendem a aumentar controles. Empresas multinacionais tendem a reforçar verificações. Parceiros internacionais tendem a exigir mais transparência. Fluxos de recursos passam a ser observados com mais intensidade. Isso pode gerar resultados positivos. Mas também cria desafios.
Porque existe uma diferença entre atingir uma organização criminosa e atingir pessoas ou empresas que operam em ambientes contaminados pela presença dessas organizações.
Nem toda relação econômica em regiões dominadas por facções representa colaboração criminosa. Nem toda transação suspeita é necessariamente ilegal. Nem toda empresa que atua em áreas vulneráveis está associada ao crime organizado.
Esse será um dos grandes desafios dos próximos anos. Separar criminosos reais de danos colaterais. Enquanto isso, a política continua concentrada em narrativas mais simples.
Uns falam em vitória contra o crime. Outros falam em ameaça à soberania. Mas ambos frequentemente ignoram a questão mais profunda.
O PCC e o Comando Vermelho não se tornaram poderosos apenas porque possuem armas. Tornaram-se poderosos porque construíram estruturas econômicas. E organizações econômicas não são derrotadas apenas com força.
São derrotadas quando perdem capacidade de gerar, esconder, transportar e reinvestir recursos. Por isso, talvez a pergunta mais importante de todas não seja se PCC e Comando Vermelho são terroristas.
A pergunta é: Quem controla o dinheiro? Porque, no final das contas, é nessa resposta que provavelmente está a chave para entender o presente e o futuro do crime organizado no Brasil.
*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.
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