A história do deputado que, cansado de mudar de partido, mudou de Estado e foi eleito

Político ardiloso, Philemon Rodrigues chegou a trocar de legenda quatro vezes no mesmo dia; sua última estratégia foi alterar a base política para permanecer no Congresso

  • Por José Maria Trindade
  • 30/06/2021 15h50
Agência BrasilPhilemon Rodrigues foi figura carimbada no Congresso durante os anos 1990

O deputado Philemon Rodrigues era um representante do grupo evangélico no Congresso. Um dos primeiros a ter a “brilhante” ideia de transformar o púlpito em palanque. Philé, como era chamado pelos colegas na Câmara era tinhoso. Rato de plenário, como nenhum outro, conversava muito. Esse tipo de parlamentar está sempre no plenário, sentindo o clima da casa e conhecendo melhor o que pensa o baixo clero. Frequenta a Casa no momento em que os líderes formais e informais estão tomando as decisões. Os parlamentares de segunda categoria esperam para apertar os botões de sim, não ou abstenção. Geralmente os comandos são tocados sem nenhuma explicação. Os deputados votam sob comando dos chefes, que, por sua vez, têm os controles remotos nas mão de personalidades que nem estão formalmente no Diário Oficial. Assim funciona o poder de mando no Congresso, e esta é a incrível história do parlamentar que, cansado de mudar de partido, mudou de Estado e foi eleito. 

Parlamentar independente é sinal claro de negócio à vista. Philé era independente, negociava as votações em seu próprio nome, independente do partido que estivesse no momento. Assim mesmo, no dia! Era uma característica dele mudar de partido. Fui visitar um ex-líder do PTB para comentar a sua não reeleição, ou seja, a derrota nas eleições. Trata-se de uma conversa constrangedora, como consolar alguém que perdeu um parente importante. O parlamentar costuma entender o mandato como prolongamento da sua própria existência, tanto no exercício do poder como no Orçamento. Visitar um derrotado é um ato necessário, mas muito chato. Comecei falando das dificuldades da eleição e o novo discurso político e lamentei a “não reeleição”, uma citação, evidentemente, eufêmica para evitar o termo derrota eleitoral.

O então líder Paulo Heslander era uma grande fonte. Falava detalhes de bastidores e de reuniões fechadas com muita transparência. O debate do momento era a reforma da Previdência. Ele olhou e, contrariando a minha expectativa, não estava tão triste assim. “Nada! Estou é aliviado. Há pontos positivos…”, disse Heslander. Insisti, afinal, que ponto positivo pode ser encontrado na falta de apoio do eleitor? E ele respondeu sem pensar: “Imagina que vou ficar longe disso aqui. Não serei mais obrigado, por exemplo, a tolerar o Philé”! Concluí que, realmente, pelo menos uma carga estava fora das costa do líder do PTB naquele momento. O Philé já estava em outro partido no dia seguinte.

Depois de fechada a negociação, é hora de “bater chapa”. Contar votos em plenário é fundamental, mas a boa prática política indica que a decisão de votar só pode ser tomada depois de conhecer o resultado final. Ninguém quer entrar numa disputa para perder. É perigoso levar ao plenário uma votação sem controle. Cada líder coloca o número de votos na mesa de negociação. Ele conhece a sua boiada. Sabe das escolhas divergentes e negocia cada uma delas. Funciona assim: os votos certos positivos são estes, os votos decididos contrários são aqueles e restam tantos em dúvida. São nesses que mora o trabalho maior. Cada um tem a sua demanda. Há os de cargos, de dinheiro, de poder, de verbas para os prefeitos aliados e os de pura simpatia, os inocentes. Alguns querem apenas tirar uma foto com o presidente ou participar de agenda com ministros, mas todos (ou quase todos) pleiteiam alguma coisa. Deputados costumam ver o Palácio do Planalto como uma grande árvore de Natal e desejam colocar o seu sapatinho na rampa.

O Philé negociava o voto, e a Previdência divide sempre o plenário. Um voto é importante e, no governo Fernando Henrique, houve mesmo derrota pela diferença mínima. Um voto errado do governista Antônio Kandir. Ele apertou abstenção em vez de sim, e o projeto recebeu 307 votos. Para emenda constitucional, são necessários 308 favoráveis, independentemente dos votos contrários. Horas depois de garantir o voto, Philé consultava os colegas, especulava o que cada um tinha ganhado, sentia o mercado do sufrágio e voltava para o líder pedindo mais. Era um recomeçar de negociação que enervava qualquer um, mas o voto era importante, e ele realmente acabava ganhando mais. 

Philemon Rodrigues chegou ao Congresso em 1991. Sentou na praça e virou figurinha carimbada. Trocava de partido como quem troca de terno. Exagerou ao mudar de legenda quatro vezes no mesmo dia. Acordou, foi na secretaria da Câmara e se registrou em um partido. No meio da manhã, já estava em outro e, de tarde, transferiu-se mais uma vez. Foi dormir de volta ao PTB. Era o momento em que as siglas precisavam de parlamentares para justificar sedes e número de assessores na Câmara. Em alguns casos, uma só filiação aumenta em 40 o número de cargos de confiança, uma grande arma para articulação, uma espécie de moeda no mundo político. Enquanto negociava no Congresso, o Philé perdeu espaço na base eleitoral. Novos pastores candidatos corriam os seus calcanhares e a situação se complicou com casos de desentendimentos pessoais em Belo Horizonte. Foi aí que ele teve a grande ideia. Desgastado em Minas e cansado de trocar de partido, mudou de Estado. A candidatura foi registrada na Paraíba e, com a ajuda da igreja, foi eleito. Por longos quatro meses, ele foi, simultaneamente, deputado federal em mandato por Minas Gerais e eleito pela Paraíba, sua terra natal. Quando acabou o apoio da igreja, foi o fim do político de Philé.