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Larissa Fonseca

Mega da Virada – adiar a expectativa muda tudo!

Pesquisas da Harvard Medical School mostram que o cérebro reage muito mais à antecipação do que ao resultado em si

Larissa Fonseca

Caixa sorteia em instantes as seis dezenas da Mega da Virada
Caixa sorteia em instantes as seis dezenas da Mega da Virada © Tomaz Silva/Agência Brasil

Confesso, a decepção não veio nem pelo resultado de não ganhar na Mega da virada, veio antes, pelo adiamento do sorteio. Aquela expectativa organizada ao longo do dia, a conta mental feita, o “e se”, o corpo responde rápido a esse tipo de antecipação. O cortisol sobe, a atenção fica mais focada, o cérebro entra em modo de espera, é quase um pequeno estado de alerta. Quando o sorteio não acontece, a frustração vem. Mas no dia seguinte, algo curioso. O cortisol já não está lá da mesma forma. A excitação emocional despenca, a esperança também, e sabe qual é o curioso? A frustração também diminui.

Isso não é fraqueza emocional, é neurociência básica. A expectativa ativa sistemas de antecipação de recompensa mediados pela dopamina. Quando o evento é adiado ou não acontece, o cérebro entende que aquele estímulo perdeu valor. Não faz sentido manter o gasto energético. O organismo se ajusta rápido. Por isso a frustração intensa costuma durar menos do
que imaginamos. O corpo é econômico.

Pesquisas da Harvard Medical School mostram que o cérebro reage muito mais à antecipação do que ao resultado em si. A espera mobiliza mais emoção do que o desfecho. Quando algo não se concretiza, o sistema aprende. Na próxima vez, a ativação é menor. O cortisol não sobe do mesmo jeito porque o cérebro já tem memória daquele desfecho,e, portanto, ele poupa.

E assim, podemos utilizar uma técnica de terapia cognitiva para outras situações, a generalização:

  • E qual seria o pior que poderia acontecer?
  • Como você se sente em relação a isso?

Essas perguntas diminuem a ansiedade e contribuem para enfrentar uma situação de tensão.

Será que emoções mais leves não nascem justamente dessa capacidade de não sustentar expectativas infladas por muito tempo. A esperança que cai também protege. A decepção ensina limites emocionais. Talvez maturidade emocional não seja ser sempre otimista, mas saber reduzir o volume da expectativa.

Agora o ponto mais curioso. Conseguimos ser extremamente positivos com algo totalmente externo, aleatório, fora do nosso controle. Um sorteio, um número, um acaso. Mas, quando o assunto é interno, nossas competências, nossas qualidades, o que fazemos bem, a crença diminui. Duvidamos mais de nós do que de um bilhete premiado.

Estudos em psicologia cognitiva mostram que tendemos a subestimar nossas capacidades por viés de familiaridade. Aquilo que é nosso parece comum demais para ter valor. Já o externo…ah, esse ganha brilho. O cérebro se encanta com o improvável, não com o consistente.

Talvez esteja aí um ajuste simples, mas pouco praticado. Falar mais sobre o que fazemos bem. Não para convencer o mundo, mas para convencer o próprio sistema nervoso. A linguagem que escutamos molda estados emocionais. Quando verbalizamos qualidades, em voz audível, ativamos áreas pré-frontais ligadas à autoavaliação e à regulação emocional. O cérebro escuta. Literalmente.

Se somos capazes de projetar esperança em um sorteio, talvez possamos treinar o mesmo investimento emocional em quem somos. Com menos euforia, menos cortisol, menos fantasia. Mas com mais presença. Porque diferente da Mega-Sena, isso não depende do acaso. Depende da atitude falada para se ouvir e acreditar nas próprias capacidades. Uma boa meta pra 2026, né?