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Patrícia Costa

Conferência dos Oceanos: o alto-mar ainda é tratado como território de ninguém

Tratado global avança a passos lentos, enquanto Lula tenta recolocar o Brasil no centro da diplomacia ambiental

Patricia Costa

09.06.2025 - Sessão de abertura da III Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos (UNOC 3) Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante sessão de abertura da III Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos (UNOC 3). Port Lympia, Nice - França. Foto: Ricardo Stuckert / PR
09.06.2025 - Sessão de abertura da III Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos (UNOC 3) Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante sessão de abertura da III Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos (UNOC 3). Port Lympia, Nice - França. Foto: Ricardo Stuckert / PR09.06.2025 - Sessão de abertura da III Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos (UNOC 3) Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante sessão de abertura da III Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos (UNOC 3). Port Lympia, Nice - França. Foto: Ricardo Stuckert / PR Foto: Ricardo Stuckert / PR

Num momento em que os oceanos absorvem 90% do calor excedente do planeta e capturam cerca de 23% das emissões globais de carbono, a ONU lança um alerta de que sem compromisso político, o recém-aprovado Tratado do Alto-Mar pode virar apenas mais um marco diplomático, bonito no papel, mas inócuo na prática. Durante a Conferência da ONU sobre os Oceanos, em Nice, nesta segunda-feira, líderes de 63 países e milhares de especialistas cobraram a ratificação urgente do tratado. Para entrar em vigor, são necessárias 60 ratificações. Até agora, pouco mais de 50 países assinaram o compromisso, mas a morosidade revela um dilema geopolítico: o alto-mar, que cobre quase metade do planeta, ainda é tratado como território de ninguém — explorado por poucos, mas vital para todos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou do encontro com um discurso afinado com a nova diplomacia verde que tenta construir desde o início de seu mandato. Anunciou sete compromissos voluntários do Brasil para a proteção marinha, entre eles a ampliação de áreas protegidas de 26% para 30% até 2030, preservação de manguezais e corais, criação de um plano nacional contra a poluição plástica e incentivo à pesca sustentável. Lula afirmou que “não há desenvolvimento sustentável sem oceano”, lembrando que 3 bilhões de pessoas dependem diretamente dos recursos marinhos. Seu tom foi de cobrança aos países ricos, que investem pouco no ODS 14, voltado à vida marinha — um dos menos financiados da agenda climática.

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Um dia antes, em Mônaco, Lula já havia subido o tom. Durante o Fórum da Economia Azul, criticou a queda de 7% na ajuda oficial ao desenvolvimento em 2024 e o aumento de quase 10% nos gastos militares no mesmo período. “É preciso rever as prioridades globais”, disse, em defesa de mais investimentos para o clima e os oceanos. A estratégia brasileira de recolocar o país no centro da discussão ambiental global tem avançado, mas ainda enfrenta contradições internas. O Brasil segue sem uma política nacional clara para a economia azul e ainda convive com a pesca industrial predatória em regiões sensíveis.

O tratado defendido pela ONU é um divisor de águas porque, pela primeira vez, propõe regras vinculantes para proteger a biodiversidade em alto-mar. Inclui mecanismos de monitoramento, compartilhamento de benefícios de recursos genéticos marinhos e até avaliação de impacto ambiental obrigatória para atividades econômicas nessas áreas. Apesar disso, grandes potências seguem resistindo a compromissos que limitem suas margens de exploração. Ao mesmo tempo, a proposta de uma moratória global à mineração submarina — discutida nos bastidores — ainda gera desconforto nos países que já avançam silenciosamente nesse tipo de exploração.

A Conferência de Nice escancarou uma verdade desconfortável: o planeta trata o oceano como se fosse infinito. Mas ele está no limite. Lula tenta projetar uma liderança ambiental renovada, calcada na proteção da Amazônia, na defesa da justiça climática e agora na diplomacia oceânica. É uma ambição legítima — e necessária. Mas para além dos discursos e dos compromissos voluntários, o desafio real é a coerência. Não há como ser líder ambiental sem integrar ações domésticas e externas de forma consistente e fiscalizável. A última fronteira do clima exige mais do que promessas. Exige coragem política para regular o que até hoje ninguém quis regular.

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