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Patrícia Costa

Terras raras, EUA e Índia: o papel do Brasil na disputa da transição energética

A corrida por minerais críticos abre uma janela estratégica para o país avançar em tecnologia, indústria e competitividade

Patricia Costa

Energia eólica offshore, em alto mar, tem maior potencial de produção por não haver barreiras para os ventos
Energia eólica offshore, em alto mar, tem maior potencial de produção por não haver barreiras para os ventos Banco de imagens/Pexels

A transição energética global não está mudando apenas a forma como o mundo produz energia. Está redesenhando cadeias industriais, prioridades econômicas e relações estratégicas entre países. No centro desse movimento estão os chamados minerais críticos — especialmente as terras raras — essenciais para turbinas eólicas, baterias, eletrônicos avançados e infraestrutura digital. O crescente interesse de economias como Estados Unidos e Índia nesses recursos revela que a agenda não é apenas ambiental. Trata-se de garantir acesso a insumos que sustentam inovação, segurança energética e competitividade tecnológica em um cenário de transformação acelerada. Esses minerais são a base física da chamada economia de baixo carbono. Sem eles, não há expansão de renováveis, eletrificação da mobilidade ou armazenamento de energia em escala. A transição energética, portanto, depende tanto da mineração quanto da geração limpa. O Brasil surge como um ator relevante nesse contexto por combinar reservas minerais expressivas, matriz elétrica predominantemente renovável e capacidade de ampliar sua produção com menor intensidade de carbono em comparação a outros polos mineradores. Isso posiciona o país como fornecedor potencialmente estratégico em cadeias globais que buscam diversificação e estabilidade de suprimento. Mas o verdadeiro debate não está na extração em si. Está no modelo de inserção econômica. O valor desses recursos cresce exponencialmente à medida que avançam as etapas de refino, processamento químico, desenvolvimento tecnológico e fabricação de componentes. É nesse ponto que se concentram inovação, empregos qualificados e maior retorno econômico.

A oportunidade, portanto, é estruturar políticas que integrem mineração responsável, agregação de valor, pesquisa aplicada e industrialização associada à nova economia energética. Países que conseguirem dominar essas etapas terão vantagem competitiva duradoura. Ao mesmo tempo, a expansão dessa cadeia exige governança ambiental rigorosa. A transição energética só será sustentável se os impactos da produção mineral forem controlados, com planejamento territorial, tecnologia e transparência. O momento atual representa menos uma corrida por recursos naturais e mais uma reorganização produtiva global. Para o Brasil, é a chance de alinhar sua vocação mineral a uma estratégia de desenvolvimento baseada em conhecimento, inovação e energia limpa. A relevância das terras raras não está apenas no que elas são, mas no que permitem construir. O desafio agora é transformar potencial geológico em protagonismo econômico dentro da transição energética que já está em curso.