‘Não se previne o racismo, é necessário altruísmo’, diz tenente-coronel da PM alvo de ofensas raciais

Evanilson de Souza foi vítima de injúrias raciais durante evento online promovido pelo Instituto de Relações Internacionais da USP nesta terça-feira, 09; ele defende que a sociedade deve ‘se colocar no lugar do outro’

  • Por Jovem Pan
  • 12/02/2021 09h06 - Atualizado em 12/02/2021 09h27
Reprodução / Jovem PanEvanilson de Souza defende que não cabe à vítima uma mudança de postura para evitar as ofensas

O tenente-coronel da Polícia Militar de São Paulo, Evanilson de Souza, defende que o combate ao racismo na sociedade deve começar com um pensamento altruísta. Souza foi alvo de ofensas nesta terça-feira, 9, quando ministrava uma palestra organizada pelo Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP). Durante sua fala no evento online, quando comentava sobre o programa de combate ao racismo desenvolvido dentro da corporação, um dos participantes usou uma tela compartilhada para escrever ofensas raciais, usando expressões como “macaco” para se referir ao tenente-coronel, que considera que o fim dos crimes raciais e de intolerância passaram por um processo de “se colocar no lugar do outro”. “Quando se fala de crimes raciais, de intolerância, de desrespeito, precisamos entender que é necessário passar por um processo de altruísmo, tem que entrar no lugar do outro, se colocar no lugar da outra pessoa. E se fosse com o meu pai, minha mãe, meu filho, minha filha, minha esposa, meu namorado?”, questiona. 

Para o tenente-coronel, não há alternativas para “prevenir o racismo” e não cabe à vítima uma mudança de postura para evitar as ofensas. “O comportamento da pessoa tem que ser natural”, disse. “Não se previne contra o racismo. A vítima do racismo não se previne, a vítima simplesmente existe, é um ser humano, um cidadão. É uma pessoa, ela tem que coabitar naturalmente. Não é razoável que o indivíduo tenha que andar nas ruas se policiando com seus gestos, atos, com a roupa que vai transitar para que não seja vítima da sociedade”, afirmou. Segundo Evanilson de Souza, é preciso entender como a estrutura racista se compõe no mundo para entender os reflexos nas corporações, como a própria Polícia Militar. Ele ressalta que a estrutura social foi composta, durante séculos ideia do indivíduo negro “serviçal e escravizado”, sem possibilidade para ascensão social. “O racismo dentro da sociedade acabou sendo permeado de forma subliminar. Então as pessoas veem o negro como um diferente, como aquele que normalmente está nos serviços mais básicos. Todas as novelas brasileiras até pouco tempo atrás, coisa de 10 anos ou menos até, os personagens negros eram sempre empregadas domésticas, faxineiros, lavadores”, reforçou, lembrando que, assim como nas novelas, os espaços ocupados pelos negros ainda são fruto do racismo. “Eu entro em um restaurante e olho em volta, como negro eu olho em volta e vejo que sou o único negro ali do lado. Mas se eu olhar de maneira consciente, eu olho para a cozinha e vejo os negros.”

Embora negue a existência de uma estrutura racista dentro da Polícia Militar e reforce os procedimentos operacionais da corporação, Evanilson de Souza reconhece que podem existir indivíduos racista na instituição. “O racismo dentro da instituição ele não é racismo específico direto contra a pessoa,  o que existe é o racismo estrutural, que vem migrado da sociedade. O nosso policial ele não vem de nenhum outro lugar que não seja a sociedade. Não dá para falar que dentro da instituição tem racismo, pode ser que existam indivíduos racista”, disse. “Ele [policial militar] passa por uma seleção, entende as normas e passa por procedimentos operacionais que fazem com que ele faça a abordagem policial por ser atitude suspeita, nunca pela aparência, cor da pele, origem. Mas não tenha dúvida que o policial pode ter uma mensagem subliminar de enxergar o negro, como a sociedade vê, como um infrator.”