Não temos condições de oferecer segurança aos cidadãos, afirma prefeito de Criciúma

Após ‘noite de terror’ com assalto a banco, Clésio Salvaro fala sobre a atuação dos cerca de 50 criminosos que participaram da ação na cidade catarinense

  • Por Jovem Pan
  • 01/12/2020 09h42 - Atualizado em 01/12/2020 11h01
ReproduçãoEmbora o alvo da quadrilha fosse a agência do Banco do Brasil, lojas e estabelecimentos comerciais também foram alvejados

A cidade de Criciúma, em Santa Catarina, foi vítima de uma “noite de terror” na madrugada desta terça-feira, 1º. Durante duas horas, cerca de 50 criminosos fortemente armados isolaram as entradas do município em uma ação que envolveu o roubo de uma agência bancária na região central da cidade. Em entrevista exclusiva ao Jornal da Manhã, da Jovem Pan, o prefeito Clésio Salvaro avaliou os prejuízos da ação e deu detalhes sobre a atuação do grupo criminoso. Segundo ele, tanto a Polícia Militar quando a Polícia Civil, assim como “toda a inteligência da segurança do Estado”, trabalham para resolução do caso. No entanto, na avaliação de Salvaro, nem mesmo o Exército Brasileiro teria condições de “enfrentar pessoas tão bem preparadas”. “Nunca assisti um filme com imagens tão terríveis como estas da minha cidade na noite de ontem [segunda-feira]. Foi realmente algo terrível. Não sei se tem algum estado que tenha condições de enfrentar tamanha organização, não sei se o Exército teria essas condições. Não temos condições de oferecer segurança ao cidadão, não temos condições de enfrentar pessoas tão bem preparadas. Se eles quisessem explodir a cidade teriam explodido”, afirma.

Clésio Salvaro conta que a ação dos criminosos envolveu uso de ao menos 10 veículos e contou com a participação estimada de 50 pessoas. Cinco funcionários da Prefeitura de Criciúma foram feitos de refém pelo grupo, mas todos foram liberados após uma hora sem ferimentos. Segundo o prefeito, os assaltantes isolaram áreas próximo a uma agência do Banco do Brasil, principal alvo da ação, e distribuíram bombas com artefatos explosivos pela cidade. Salvaro afirma que a polícia local não trocou tiros com os integrantes da quadrilha, seguindo um protocolo que buscava “preservar a vida do cidadão comum”. “A vida das pessoas tem que ser colocada em primeiro lugar. Não é possível fazer trocas de tiros com as calçadas cheias de gente. É uma ação que você não sabia se tinha 10, 40 ou 50 marginais, se eram 10 ou 12 carros e eles estavam fortemente armados. Você vai trocar tiros com os marginais? Eles vem para roubar e para matar. Entendo, como prefeito da cidade, que o protocolo de segurança foi correto. Agora, a polícia vai atrás para capturar esses bandidos. Eu ficaria ainda mais triste se tivéssemos perdido algumas pessoas, uma bala perdida matado uma criança, um pai, uma mãe, teríamos perdido mais do que dinheiro: a vida. O dinheiro será recuperado porque acredito no trabalho da polícia”, garantiu.

De acordo com o prefeito, embora o alvo da quadrilha fosse a agência do Banco do Brasil, lojas e estabelecimentos comerciais também foram alvejados para distrair a polícia, assim como grandes quantias de dinheiro foram jogadas nas vias da cidade para atrair a população e atrapalhar o deslocamento policial. Agora, segundo Clésio Salvaro, em parceria com o governado do estado de Santa Catarina, com a secretaria de Segurança Pública e com prefeitos de cidades vizinhas, as autoridades trabalham para identificar, por meio de gravações das câmeras de segurança, os possíveis participantes do crime. O prefeito estima que o grupo estudava a cidade há algumas semanas. “Não se faz uma ação tão bem orquestrada apenas pensando um ou dois dias. Eles estão há semanas na cidade de Criciúma. Com as câmeras de segurança a gente vai poder identificar pelo menos de onde vieram esses marginais. O sotaque deles que não é sotaque de catarinense, talvez gaúcho ou paranaense. Agora, cabe a polícia fazer o seu trabalho. Polícia Civil, Polícia Militar, Bope, toda inteligência está muito envolvida na busca desses marginais”, finalizou.

O episódio desta terça-feira, de acordo com informações da polícia local, começou próximo às 23h50 desta segunda-feira. No entanto, há mais de 66km no local, na cidade de Tubarão, um caminhão foi incendiado no túnel do município para impedir a chegada de reforços. Além disso, o grupo também ateou fogo em outro caminhão deixado bloqueando o batalhão da Polícia Militar de Criciúma. Cerca de 10 veículos utilizados pela quadrilha foram encontrados em Nova Veneza, cidade vizinha, abandonados em um milharal. Agentes de segurança seguem as buscas pelos assaltantes. A estimativa, ainda não confirmada pelas autoridades, é que a quadrilha tenha levado R$ 40 milhões fruto do roubo. Segundo a Polícia Militar de Santa Catarina, ainda não há prisões. No entanto, quatro homens foram detidos com R$ 810 mil roubados na madrugada desta terça-feira durante ao assalto. O dinheiro foi apreendido dentro de duas sacolas em um apartamento na região central da cidade horas depois do crime. Segundo o delegado regional Vítor Bianco Júnior, a suspeita é que os envolvidos tenham furtado as cédulas abandonadas pelos criminosos nas ruas da cidade. “As quatro pessoas foram levadas para a delegacia para prestarem esclarecimentos. Não se sabe se elas faziam parte do assalto ou se furtaram o dinheiro após o roubo”, afirmou. O crime em Criciúma acontece sete dias após a “madrugada de terror em Araraquara”, cidade do interior de São Paulo. Na ocasião, um grupo de criminosos também assaltou uma agência bancária na região central do município, isolou o batalhão da polícia local e causou terror aos moradores da região. Trocas de tiros com os agentes de segurança, forte armamento e preparação da quadrilha estão entre as semelhanças dos episódios.

Segundo o coronel Evandro Fraga, comandante da 6ª região de Polícia Militar (6ª RPM), um policial está internado em estado grave após ter sido ferido na região abdominal durante troca de tiros com os bandidos. “Ele já passou por três intervenções cirúrgicas e o estado dele no traz bastante apreensão”, afirmou. Um vigilante de uma empresa de segurança privada também foi ferido, mas ainda não há informações sobre o seu estado de saúde.