Creatina faz mal ao rim? O exame que assusta e quase ninguém entende
Como clínico geral e nefrologista, tenho recebido em meu consultório um número crescente de pacientes, a priori saudáveis, que chegam assustados com uma dosagem de creatinina alterada em um exame de rotina. A maioria é jovem, pratica atividade física regular e faz uso de suplementos, especialmente a creatina. A reação é quase sempre a mesma: o medo de que os rins estejam parando de funcionar.
Creatina e creatinina: nomes parecidos, funções diferentes
Antes de entrar em pânico, é preciso entender o que está acontecendo. E, para isso, vale a pena conhecer duas substâncias que, apesar de terem nomes quase iguais, desempenham papéis muito diferentes no organismo.
Creatina: a bateria do músculo
A creatina é uma substância natural, produzida pelo próprio corpo e também obtida pela alimentação, especialmente por meio de proteína animal. Ela fica armazenada principalmente nos músculos e funciona como uma reserva de energia rápida para a contração muscular. Quando você faz um esforço intenso, como levantar peso ou correr uma arrancada, é a creatina que fornece energia imediata para o músculo trabalhar.
Por causa dessa capacidade, a creatina se tornou um dos suplementos mais populares do mundo, usada por quem busca ganho de massa muscular e melhor desempenho físico. É segura, é eficaz e tem décadas de estudo por trás.
Creatinina: o que sobra
A creatinina é o produto de degradação da creatina. Todos os dias, uma pequena parte da creatina armazenada nos músculos se transforma naturalmente em creatinina. Essa creatinina cai na corrente sanguínea e é eliminada pelos rins. Como a produção é constante e a eliminação depende do funcionamento dos rins, a dosagem de creatinina no sangue é usada há décadas como um exame para avaliar indiretamente a função renal. Se os rins estão funcionando bem, a creatinina se mantém em níveis normais. Se os rins estão com problema, a creatinina sobe.
É por isso que o exame de creatinina é tão útil.
Por que a creatina eleva a creatinina no exame
Quando alguém suplementa creatina, aumenta a quantidade total de creatina no corpo. Como consequência lógica, a quantidade de creatinina gerada também aumenta. Não há nada de errado acontecendo. É simplesmente mais “matéria-prima” sendo convertida em produto final. A creatinina sobe no exame não porque os rins pararam de funcionar, mas porque há mais creatinina sendo produzida para ser eliminada.
Além disso, pessoas que praticam atividade física intensa, têm maior massa muscular ou consomem dietas ricas em proteína também tendem a apresentar creatinina mais alta, pelo mesmo motivo. Mais músculo, mais creatina, mais creatinina. É matemática, não doença.
Isso significa que os rins estão comprometidos?
Não necessariamente. Nesses casos, a elevação da creatinina pode ser apenas um reflexo do uso do suplemento e da massa muscular aumentada, e não um sinal real de perda de função renal. Por isso, é fundamental informar ao médico sobre o uso de creatina, outros suplementos, fórmulas manipuladas, fitoterápicos ou produtos ditos “naturais” durante a consulta. Esses detalhes mudam completamente a interpretação do exame.
Como o médico esclarece a dúvida
Diante de uma creatinina elevada em uma pessoa saudável e usuária de creatina, o médico pode solicitar exames complementares para confirmar se a função renal está realmente preservada:
Cistatina C: é outro marcador de função renal, produzido por todas as células do corpo, e não apenas pelos músculos. Como não depende da massa muscular nem do uso de creatina, ajuda a confirmar que a função renal está normal quando há dúvida sobre a creatinina.
Exame de urina com albuminúria: avalia se há perda de proteína pela urina, um sinal precoce de lesão renal que não é afetado pelo uso de creatina.
Com esses exames, o médico consegue distinguir com segurança entre uma creatinina elevada “inocente” (pelo suplemento ou pela massa muscular) e uma creatinina que realmente indica problema renal.
O que fazer na prática
É importante destacar que o uso de qualquer substância ou suplemento deve ser indicado e acompanhado por um médico ou profissional de saúde habilitado. A automedicação e o uso indiscriminado de suplementos, ainda que considerados seguros, não estão isentos de riscos, especialmente quando há condições de saúde subjacentes que podem passar despercebidas.
Atenção: o uso de creatina eleva pouco os valores de creatinina no sangue, na casa decimal, geralmente entre 0,2–0,3 mg/dL. Qualquer variação superior a essa faixa não deve ser imputada somente ao uso da creatina.
Nesses casos, é indispensável uma investigação médica mais aprofundada para descartar outras causas de elevação da creatinina, sejam elas relacionadas à função renal ou a condições que exigem atenção específica.
Dr. Virgilio Gonçalves Pereira Jr. – CRM 49902 SP
Clínico Geral e Nefrologista
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