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Saúde

Disfunção erétil: o que o Doppler revela e quem pode se beneficiar das ondas de choque

Ivan Selegatto, urologista, explica por que identificar a origem do problema é fundamental para selecionar os pacientes com maior chance de resposta ao tratamento

Brazil Health

Disfunção erétil
Disfunção erétil Magnific

A disfunção erétil não é uma doença de causa única. Alterações vasculares, hormonais e neurológicas, determinados medicamentos e fatores psicológicos podem estar por trás da dificuldade de obter ou manter uma ereção. Por isso, antes de discutir tratamentos, é preciso entender qual mecanismo está predominando naquele paciente.

Quando existe suspeita de comprometimento vascular, o ultrassom Doppler peniano dinâmico pode trazer informações importantes. O exame permite avaliar de forma objetiva a hemodinâmica do pênis durante a ereção, observando tanto a chegada do sangue pelas artérias quanto sua manutenção nos corpos cavernosos. Com isso, ajuda a diferenciar a disfunção erétil de origem arterial, a chamada disfunção veno-oclusiva, em que há dificuldade de manter o sangue no pênis, e os quadros mistos ou não vasculares. Não é um exame indicado rotineiramente para todos os homens com disfunção erétil, mas pode ser bastante útil em casos selecionados.

O Doppler também pode identificar alterações anatômicas associadas, como placas da doença de Peyronie, fibrose e variações vasculares. Essas informações ajudam a orientar a escolha do tratamento, que pode envolver medicamentos, injeções intracavernosas e, em situações específicas, procedimentos cirúrgicos. A identificação de uma disfunção erétil de origem arterial pode ainda indicar a necessidade de uma avaliação cardiovascular mais ampla, já que alterações vasculares responsáveis pela dificuldade de ereção podem estar associadas à aterosclerose sistêmica.

Essa investigação se tornou ainda mais relevante com o avanço da terapia de ondas de choque de baixa intensidade, conhecida como LiSWT ou LI-ESWT. O tratamento vem sendo estudado principalmente na disfunção erétil vasculogênica e hoje temos diferentes ensaios clínicos e metanálises mostrando resultados favoráveis.

A pergunta, portanto, não deveria ser simplesmente se as ondas de choque funcionam. A questão mais importante é: para quais pacientes elas funcionam melhor?

O que mostram os estudos

Um dos ensaios clínicos mais consistentes foi publicado no The Journal of Urology em 2022. O trabalho, duplo-cego, randomizado e controlado por tratamento simulado, avaliou pacientes com disfunção erétil moderada. Após três meses, 79% dos homens tratados com ondas de choque atingiram a diferença mínima considerada clinicamente importante no IIEF-EF, índice utilizado internacionalmente para avaliar a função erétil. No grupo que recebeu o procedimento simulado, nenhum paciente alcançou esse resultado.

Os achados não são isolados. Uma revisão sistemática e metanálise publicada no European Urology, com 14 estudos e 833 pacientes, encontrou melhora significativa nos índices de função e rigidez erétil, especialmente nos quadros leves a moderados. Outra metanálise de ensaios randomizados também confirmou melhora desses parâmetros.

Isso não significa, porém, que todos os pacientes com disfunção erétil sejam candidatos ao procedimento. Um dos pontos mais importantes que a literatura vem mostrando é justamente a necessidade de seleção.

Quem tende a responder melhor

Os resultados mais favoráveis aparecem principalmente em homens com disfunção erétil vasculogênica leve a moderada. Pacientes que apresentam resposta prévia aos inibidores da PDE5, como sildenafil e tadalafil, também tendem a responder melhor às ondas de choque, provavelmente porque ainda existe uma reatividade vascular preservada.

Um estudo publicado no Urology, com 425 pacientes, analisou fatores capazes de prever a resposta ao tratamento. Gravidade inicial da disfunção erétil, idade, diabetes, hipertensão, tabagismo, obesidade, dislipidemia e duração do problema apareceram relacionados ao resultado. Os autores observaram uma perspectiva mais favorável nos pacientes com quadros leves a moderados.

O diabetes merece atenção especial. Alguns estudos mostram respostas menores principalmente entre pacientes com controle metabólico inadequado. Alterações endoteliais e comprometimento vascular mais avançado podem reduzir o benefício. Isso não significa que todo paciente diabético deva ser excluído, mas que a condição metabólica precisa fazer parte da decisão.

É justamente aqui que a avaliação vascular, incluindo o Doppler quando indicado, pode contribuir. Saber se existe comprometimento arterial e compreender sua intensidade ajuda a caracterizar melhor o paciente antes de escolher a estratégia terapêutica.

Evidência favorável não significa resposta definitiva

A literatura também apresenta limitações que precisam ser reconhecidas. A revisão Cochrane publicada em 2025 reuniu 21 estudos randomizados e 1.357 homens e encontrou possível melhora da função erétil e da rigidez peniana com ondas de choque. A certeza da evidência, entretanto, foi classificada como baixa, principalmente pelas diferenças entre os estudos e protocolos.

Em 2026, uma revisão sistemática e metanálise publicada no The Journal of Sexual Medicine encontrou melhora estatisticamente significativa da função erétil após um, três e seis meses. Os autores observaram, porém, que em boa parte dos trabalhos a melhora não alcançou a diferença mínima considerada clinicamente importante.

Esses dados não anulam os estudos favoráveis. Eles mostram que ainda precisamos compreender melhor quem responde, qual protocolo oferece melhores resultados e por quanto tempo o benefício se mantém. Número de sessões, quantidade de pulsos, frequência das aplicações e densidade de energia ainda variam consideravelmente entre os estudos.

Na prática, isso reforça um princípio básico da medicina: não devemos transformar um tratamento promissor em uma indicação indiscriminada. Ondas de choque não tratam todas as causas de disfunção erétil e não substituem o controle de diabetes, hipertensão, colesterol elevado, tabagismo, sedentarismo e excesso de peso. Também não dispensam a investigação de causas hormonais, neurológicas ou psicológicas.

A terapia de ondas de choque já acumula evidências favoráveis, principalmente na disfunção erétil vasculogênica leve a moderada. O desafio agora é refinar a indicação. Quanto melhor caracterizarmos o mecanismo da disfunção erétil e o perfil vascular de cada paciente, maior será a possibilidade de oferecer o tratamento a quem realmente tem chance de se beneficiar.

Ivan Selegatto – CRM 174225-SP | RQE 99749
Urologista

Membro da Brazil Health

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