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Saúde

Quando nada mais funciona: o que reprograma a dor crônica sem destruir nervos

O neurocirurgião Dr. Eduardo Urbano explica como a neuromodulação pode ajudar quando remédios, fisioterapia e até cirurgias não resolvem, ajustando a forma como o sistema nervoso “lê” os sinais de dor

Brazil Health

dor crônica
Em algumas pessoas, mesmo depois de a lesão inicial ter melhorado ou sido tratada, as vias responsáveis por transmitir e processar a dor podem permanecer sensibilizadas Julien Tromeur/Unsplash

A dor é um mecanismo natural de proteção. Ao pisarmos em um objeto pontiagudo, terminações nervosas detectam a agressão e transmitem essa informação ao sistema nervoso, que desencadeia uma resposta de defesa e nos faz retirar o pé. Existe uma ameaça, o organismo a reconhece e reage.

Na dor crônica, porém, esse sistema pode ficar desregulado. Em algumas pessoas, mesmo depois de a lesão inicial ter melhorado ou sido tratada, as vias responsáveis por transmitir e processar a dor podem permanecer excessivamente sensibilizadas ou podem ter sido lesionadas. É como um alarme de incêndio que continua disparando mesmo quando o fogo já foi controlado.

Isso ajuda a explicar por que alguns pacientes continuam sofrendo, apesar de medicamentos, fisioterapia, infiltrações ou cirurgias. Nesses casos, tratar apenas o local da dor pode não ser suficiente. É preciso compreender também como o sistema nervoso transmite e processa essa informação.

Neuromodulação: interferência sem destruição

Diferentemente de procedimentos que interrompem ou lesionam vias nervosas, como algumas rizotomias e neurólises químicas, a neuromodulação procura modificar seu funcionamento sem destruí-las. Pequenos impulsos elétricos interferem de forma controlada nos circuitos relacionados à dor. Em vez de “cortar o fio”, busca-se mudar a maneira como essa informação circula pelo sistema nervoso.

Uma das técnicas mais utilizadas é a estimulação da medula espinhal. Por meio de finos eletrodos posicionados próximos à medula, impulsos elétricos modulam a transmissão dos sinais dolorosos. É uma espécie de “marca-passo para a dor”, programado de acordo com o tipo de dor e a resposta de cada paciente.

Há também formas mais direcionadas, como a estimulação do gânglio da raiz dorsal (DRG). Essa estrutura abriga os corpos celulares dos neurônios sensitivos e participa do processamento das informações antes de sua entrada na medula. Em situações selecionadas, permite concentrar a terapia em territórios pequenos, como em algumas dores neuropáticas do pé ou do tornozelo.

Dispositivos cada vez mais inteligentes

Os sistemas mais antigos utilizavam predominantemente a estimulação tônica, geralmente acompanhada de formigamento. Hoje, existem diferentes padrões de estimulação, muitos imperceptíveis para o paciente, e dispositivos capazes de adaptar a terapia com maior precisão.

Um exemplo é o padrão Burst, que utiliza sequências específicas de impulsos elétricos. Além de modular a transmissão da dor, estudos sugerem que esse padrão pode influenciar circuitos relacionados à dimensão afetiva da experiência dolorosa — não apenas à intensidade do sinal, mas também à forma como ele é vivenciado.

Nos sistemas de circuito fechado, ou closed-loop, o implante não apenas estimula: ele também mede a resposta do sistema nervoso ao estímulo. Com essa informação, ajusta automaticamente a intensidade da estimulação, compensando variações ao longo do dia, inclusive com mudanças de posição. É um dispositivo que, de certa forma, “fala” e também “escuta” o sistema nervoso.

Para quem é indicado?

A neuromodulação não é uma solução para todo tipo de dor crônica. Antes de considerar um implante, é fundamental identificar o mecanismo da dor, avaliar os tratamentos já realizados e selecionar cuidadosamente os pacientes com maior possibilidade de benefício.

Mais do que “desligar” a dor, a neuromodulação representa uma mudança de estratégia. Quando tratar apenas a origem do problema já não é suficiente, pode-se atuar também sobre a maneira como o sistema nervoso transmite e processa esses sinais.

Para pacientes bem selecionados, isso pode significar redução da dor, melhora da capacidade funcional e retomada de atividades limitadas pela dor crônica, com o objetivo de devolver autonomia e qualidade de vida.

Dr. Eduardo Urbano – CRM/SP 108896

Neurocirurgião

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