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Saúde

Transplante capilar evoluiu; risco agora é tratar uma cirurgia sofisticada como um procedimento simples

Das antigas técnicas que deixavam resultados artificiais à moderna retirada individual de unidades foliculares, a cirurgia para calvície mudou profundamente. O cirurgião plástico Dr. Fabio Naccache explica os avanços e alerta para os riscos da banalização do transplante capilar.

Brazil Health

Transplante capilar
Transplante capilar Magnific

A cirurgia para tratar a calvície percorreu um longo caminho desde que começou a se popularizar no século passado. Nas primeiras técnicas, eram transplantados enxertos maiores, que muitas vezes deixavam aquele aspecto conhecido como “cabelo de boneca”, com tufos facilmente perceptíveis. O procedimento funcionava para transferir cabelos de uma região para outra, mas conseguir um resultado realmente natural ainda era um desafio.

Um salto importante ocorreu com o desenvolvimento do transplante de unidades foliculares. Na técnica FUT (Follicular Unit Transplantation), retira-se uma pequena faixa de couro cabeludo da região posterior da cabeça, que depois é trabalhada para separar as unidades foliculares que serão implantadas nas áreas de calvície. Ao respeitar a maneira como os cabelos naturalmente se agrupam e crescem, tornou-se possível obter resultados muito mais naturais.

Nas últimas décadas, outra técnica ganhou protagonismo: a FUE (Follicular Unit Extraction). Em vez de retirar uma faixa, as unidades foliculares são extraídas individualmente da área doadora e posteriormente implantadas na região receptora. A técnica evita a cicatriz linear característica da FUT e permite excelentes resultados quando corretamente indicada e executada.

Ainda estamos redistribuindo cabelos

Apesar de toda a evolução tecnológica, existe um conceito fundamental que não mudou. O transplante capilar não cria novos folículos. Ele redistribui aqueles que o paciente já possui, retirando-os principalmente da região posterior e lateral do couro cabeludo, onde os fios tendem a ser mais resistentes à calvície androgenética.

Isso significa que a área doadora é um recurso limitado e precisa ser preservada. Retirar folículos em excesso pode provocar rarefação permanente na região de onde eles foram extraídos e comprometer futuros transplantes.

Esse cuidado é ainda mais importante em pacientes jovens, porque a calvície pode continuar progredindo durante muitos anos. Não basta desenhar uma linha capilar que fique bonita aos 30 anos. É preciso imaginar como ela se comportará aos 40, 50 ou 60, principalmente se os cabelos não transplantados continuarem sendo perdidos.

Pesquisadores estudam cultivo celular, bioengenharia e formas de multiplicação folicular, mas ainda não existe uma técnica clínica estabelecida capaz de produzir uma quantidade ilimitada de novos folículos. Promessas de “clonagem capilar” ou “enxertos ilimitados”, portanto, precisam ser vistas com cautela.

O paradoxo da FUE

A FUE tornou o transplante capilar menos invasivo e contribuiu para sua enorme popularização. Ao mesmo tempo, criou-se a impressão de que o procedimento se tornou simples. Não é.

Uma cirurgia pode durar muitas horas e envolver a retirada, preparação e implantação de milhares de unidades foliculares. O desenho da linha capilar, a direção em que cada fio será implantado, a densidade, a preservação da área doadora e o manuseio adequado dos folículos interferem diretamente no resultado.

Por isso, o transplante exige equipe numerosa e treinada, estrutura adequada, segurança anestésica e condições compatíveis com um procedimento cirúrgico prolongado.

A popularização mundial da técnica levou a International Society of Hair Restoration Surgery (ISHRS) a alertar para procedimentos realizados em condições inadequadas ou com etapas cirúrgicas delegadas a pessoas não habilitadas. No censo de 2025 da entidade, 59,4% dos médicos participantes relataram a existência, em suas cidades, de clínicas que fazem transplantes utilizando práticas consideradas ilegais ou antiéticas.

Entre os problemas encontrados em transplantes mal executados estão infecções, cicatrizes, crescimento inadequado, linhas capilares artificiais e retirada excessiva de folículos da área doadora.

Naturalidade depende mais do planejamento do que do número de fios

Outro equívoco é avaliar a qualidade de um transplante apenas pela quantidade de unidades foliculares implantadas. Mais nem sempre significa melhor. Existe um limite determinado pela área doadora e pelas características de cada paciente.

Um bom transplante começa pelo diagnóstico correto da causa da queda, passa pela avaliação da evolução provável da calvície e termina em um planejamento que considere não apenas o resultado imediato, mas também o futuro daquele couro cabeludo.

A FUE representa uma das grandes evoluções da cirurgia da calvície e tornou possível alcançar resultados que dificilmente lembram os antigos transplantes. Mas a tecnologia não eliminou a necessidade de experiência, planejamento e segurança.

Talvez esse seja o principal paradoxo atual do transplante capilar: quanto mais sofisticada a cirurgia se tornou, mais simples ela passou a parecer para o público.

Dr. Fabio A. Naccache – CRM/SP – 36250
Cirurgião Plástico
Membro da Brazil Health

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