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Alan Ghani

‘Tarifaço’ dos EUA: Menos vitimização, mais negociação

Independentemente da eficácia do protecionismo de Trump, é necessário entender que Trump joga pesado, mas está disposto a negociar

Alan Ghani

Presidente dos EUA, Donald Trump
Presidente dos EUA, Donald Trump SAUL LOEB / AFP

Os EUA anunciarem tarifas de 50% contra o Canadá para diversas linhas de produtos, como automóveis e lácteos. A ação americana contra o Canadá mostra que o protecionismo não é exclusividade do Brasil; pelo contrário, Trump taxa países historicamente aliados aos EUA.

O atual presidente dos EUA defende tarifas protecionistas desde a década de 80. Trump enxerga as tarifas como uma grande arma para i. arrecadar tributos de importação, e assim minimizar o déficit fiscal -; ii. reindustrializar os EUA, tornando a produção fora do país mais cara; iii. enfraquecer a economia da China, na medida em que o gigante asiático exporta para os EUA por meio de outros países e iv. ganhar vantagens em negociações em outros temas (terras raras, propriedade intelectual, etc.).

Independentemente da eficácia do protecionismo de Trump, é necessário entender que Trump joga pesado, mas está disposto a negociar. O governo brasileiro não entende isso ou finge não compreender. Em vez de ceder em alguns pontos – protecionismo à indústria nacional e cooperação de investimentos em terras raras -, o governo prefere o discurso político fácil, trazendo a narrativa do ataque à soberania e o clichê do “imperialismo americano”.

É claro que há exageros na acusação americana em relação ao PIX e ao desmatamento, mas é necessário reconhecer que o Brasil é ainda uma economia extremamente protecionista, com tarifas elevadas, e que carece de segurança jurídica em relação à propriedade intelectual e capacidade de refino de terras raras.

Mais uma vez por mesquinharia política e ideológica, perdemos oportunidade de avançar nas negociações com os EUA. Resta contar com a interlocução do setor privado brasileiro que conseguiu importantes exceções tarifárias e com inflação americana para mudar a cabeça de Trump.