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Beatriz Manfredini

Lula chega à campanha apostando em soberania, no bolso do eleitor e na nostalgia

Após dificuldades para transformar números econômicos em votos, presidente ajusta comunicação e aliados defendem evitar riscos para preservar liderança nas pesquisas

Matheus Alleoni e Beatriz Manfredini

Presidente Lula (PT)
Presidente Lula (PT) Divulgação / Ricardo Stuckert

A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à reeleição chegou à fase oficial com uma estratégia definida: depois de meses tentando transformar os resultados do governo em popularidade, o presidente passou a concentrar o discurso em três frentes: defesa da soberania, medidas com impacto direto no bolso do eleitor e a própria trajetória política.

A reportagem da Jovem Pan conversou ao longo dos últimos meses com integrantes do governo, da campanha e aliados próximos ao presidente. A avaliação é que Lula continua em posição favorável nas pesquisas e não precisa, neste momento, aumentar os riscos da disputa. Nos bastidores, a orientação é resumida pela expressão “jogar parado”. Casos como os envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente investigado por tráfico de influência, e Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete do petista, também estão sendo monitorados, mas não trazem preocupação imediata à campanha.

Parte do entorno também considera que a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) tem produzido os próprios desgastes. Por isso, aliados defendem que Lula evite exposições consideradas desnecessárias, principalmente em debates e sabatinas, desde que a ausência não provoque um custo político maior.

A cautela não significa, porém, ausência de mudanças. Ao longo da pré-campanha, o PT precisou ajustar principalmente a forma de apresentar os resultados do terceiro mandato.

Da “economia dura” ao bolso

A primeira aposta foi nos números.

Desemprego recorde, inflação dentro da meta, isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil e a negociação que derrubou parte das tarifas impostas pelos Estados Unidos foram utilizados pelo governo para defender uma melhora da economia. O Pé-de-Meia e Gás do Povo também foram escolhidos entre as principais marcas da gestão.

Os resultados, no entanto, não produziram o efeito eleitoral esperado. Lula continuou liderando os principais cenários, mas não conseguiu transformar as agendas consideradas positivas pelo governo em crescimento proporcional nas pesquisas. Ao mesmo tempo, a rejeição permaneceu elevada e Flávio se consolidou como principal nome da oposição.

Em conversas reservadas, petistas passaram a apontar um problema de comunicação. A avaliação é que bons indicadores macroeconômicos têm alcance limitado quando o eleitor não percebe melhora semelhante no cotidiano.

A partir daí, a campanha passou a apostar na chamada “economia palpável”.

O novo Desenrola, voltado à renegociação de dívidas, e o fim da chamada “taxa das blusinhas” — criada durante o próprio governo Lula — entraram entre os principais exemplos. A estratégia é priorizar medidas cujo efeito possa ser percebido diretamente no orçamento das famílias.

O fim da escala 6×1 ganhou ainda mais peso.

A pauta já havia sido escolhida no início do ano como uma das principais bandeiras para tentar diminuir a rejeição, principalmente entre os jovens. O governo enviou ao Congresso um projeto para reduzir a jornada para até 40 horas semanais, com dois dias de descanso e sem redução salarial.

A proposta enfrenta resistência do setor produtivo e dúvidas dentro da própria base sobre a possibilidade de aprovação ainda em 2026. Politicamente, porém, aliados consideram que a defesa da mudança já permite a Lula dialogar com um público em que encontrou dificuldades durante a pré-campanha.

Os jovens são uma preocupação particular. A geração que agora chega às urnas cresceu com o PT já consolidado como uma das maiores forças políticas do país e com Lula no centro da política nacional. Dentro do partido, há o reconhecimento de que recuperar esse eleitor exige mais do que apresentar índices econômicos.

Soberania ganha espaço

Outro eixo que cresceu durante a pré-campanha foi a defesa da soberania nacional.

O tema ganhou força a partir dos embates comerciais com os Estados Unidos e passou a aparecer tanto na atuação internacional do governo quanto no discurso eleitoral.

No pronunciamento de 1º de Maio, Lula afirmou que “o Brasil não é quintal de ninguém”. Na abertura da campanha, em São Bernardo do Campo, voltou ao assunto ao falar sobre minerais críticos e terras raras.

O presidente defendeu que o país deixe de atuar apenas como exportador de matéria-prima e passe a extrair, transformar e industrializar esses recursos internamente. Também afirmou que o Brasil não deve fazer uma opção automática por Estados Unidos ou China.

Para a campanha, a pauta permite reunir política externa, economia e confronto com a oposição. A proximidade de integrantes da família Bolsonaro com o governo de Donald Trump também será explorada pelo PT durante a disputa. A ideia é colocar os filhos do ex-presidentes como antagonistas e arquitetos do tarifaço.

A avaliação é que o tema permite a Lula adotar um discurso nacionalista e, ao mesmo tempo, apresentar os embates externos como uma defesa dos interesses brasileiros.

Lula volta à própria história

O terceiro eixo ficou mais evidente no lançamento oficial da campanha.

Depois de três anos marcados por dificuldades em torno do 1º de Maio — com o ato esvaziado de 2024 e as ausências de Lula nos eventos públicos de 2025 e 2026 —, o presidente escolheu justamente o Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, para abrir a disputa pelo quarto mandato.

O evento foi construído em torno de sua biografia. Antigos sindicalistas subiram ao palco, vídeos recuperaram as greves do ABC e uma produção simulou um diálogo entre o presidente de 80 anos e o líder sindical de 1979.

No discurso, Lula relembrou as greves dos metalúrgicos, a prisão durante a ditadura, a mãe, Dona Lindu, e episódios de sua trajetória antes de chegar à Presidência.

A escolha vai além da nostalgia. Depois da dificuldade de transformar números do governo em apoio eleitoral, a campanha voltou a apostar em um ativo que considera mais fácil de comunicar: o próprio Lula.

O uso do passado também tem limites. A trajetória sindical ajuda a mobilizar o eleitorado tradicional, mas o presidente precisa conquistar uma geração que não viveu as greves do ABC e que cresceu com Lula já integrado ao centro do poder político brasileiro.

Por isso, o discurso em São Bernardo deixou progressivamente as lembranças para entrar nas propostas de um eventual quarto mandato. Lula falou de segurança pública, prometeu enfrentar os líderes e financiadores das facções criminosas, voltou a defender a criação de um Ministério da Segurança Pública e relacionou investimentos em educação à prevenção da criminalidade.

A campanha tenta usar a biografia como credencial sem deixar que a candidatura fique restrita ao passado.

A estratégia de “jogar parado”

Com os principais eixos definidos, aliados ouvidos pela Jovem Pan avaliam que Lula não precisa fazer movimentos bruscos enquanto permanecer à frente nas pesquisas.

“Jogar parado”, na definição utilizada por interlocutores, significa preservar a vantagem, escolher melhor os ambientes de exposição e evitar situações em que o presidente possa ter mais a perder do que a ganhar.

A leitura também leva em conta Flávio Bolsonaro. No entorno de Lula, existe a avaliação de que o adversário vem acumulando desgastes sem necessidade de uma atuação direta do presidente para provocá-los.

Na prática, isso aumenta a resistência à participação em debates e sabatinas. A campanha pretende avaliar os convites individualmente e não considera necessário aceitar todos os confrontos oferecidos durante a eleição.

O cenário, no entanto, não é visto como livre de riscos.

O caso envolvendo Lulinha, filho do presidente, permanece no radar. Hoje, segundo aliados ouvidos pela reportagem, o tema não é tratado como uma preocupação capaz de mudar a estratégia da campanha, mas há expectativa de que seja explorado pela oposição.

A economia também continua sendo um ponto de atenção. A própria mudança para um discurso mais ligado ao poder de compra ocorreu porque os indicadores apresentados pelo governo não foram suficientes para reduzir a rejeição no ritmo esperado.

Lula entra, assim, na fase decisiva da eleição sem abandonar os resultados do terceiro mandato, mas mudando a maneira de apresentá-los. A economia passa pelo bolso antes dos indicadores; a política externa é apresentada como defesa da soberania; e a própria trajetória volta a ocupar um espaço central na comunicação.

Com vantagem nas pesquisas, a orientação dos aliados é menos acelerar do que evitar erros enquanto essas três frentes sustentam a campanha.

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