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Bruno Pinheiro

PF diz que servidores do BC atuaram como consultores informais contratados por Vorcaro

Relatório afirma que Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana revisavam documentos, orientavam estratégias e repassavam possíveis informações internas

Matheus Alleoni e Bruno Pinheiro

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master Divulgação / Banco Master

A Polícia Federal (PF) apontou em relatórios tornados públicos nesta sexta-feira (11) que Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, servidores afastados do Banco Central (BC), atuaram de maneira reiterada como consultores informais de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A informação consta em documentos cujo sigilo foi retirado pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), após despacho de Edson Fachin, presidente da Corte.

Segundo a PF, os dois servidores ofereciam orientação técnica, revisavam documentos que seriam enviados ao próprio Banco Central e ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e teriam repassado informações internas de caráter sensível ou até sigiloso.

Paulo Sérgio era chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária (Desup). De acordo com a PF, ele sugeria estratégias, antecipava posicionamentos internos do BC e orientava Vorcaro sobre argumentos que deveriam ser apresentados em reuniões com diretores e com o então presidente da autarquia, Roberto Campos Neto.

Em abril de 2025, Paulo Sérgio revisou um ofício que o Banco Master enviaria justamente ao Desup, departamento em que trabalhava. O documento respondia a uma cobrança do BC relacionada aos indicadores de liquidez da instituição. Segundo o relatório, o servidor recebeu a minuta e devolveu alterações sugeridas.

A PF também afirma que Paulo Sérgio atuou na revisão de documentos destinados ao FGC e chegou a intermediar possíveis interessados na compra do Letsbank. Em mensagens analisadas, ele mencionou Daniel Wainstein e, posteriormente, o Nubank como potenciais compradores, além de pedir a Vorcaro valores para repassar aos interessados.

Belline Santana, então chefe do Desup, também aparece revisando minutas e discutindo estratégias com o banqueiro. Em abril de 2025, por exemplo, recebeu de Vorcaro uma minuta relacionada à reorganização societária envolvendo Master e BRB, fez observações sobre o texto e informou que conversaria internamente para avaliar a viabilidade da proposta.

Em outra conversa, Vorcaro encaminhou a Belline uma minuta de resposta do Master ao FGC para que o servidor avaliasse o documento. Belline respondeu que o texto estava “muito bom” e que não tinha sugestões.

Os dois servidores também integravam um grupo de WhatsApp chamado “Master”, criado por Belline em outubro de 2025. Segundo a PF, o espaço era usado para revisar documentos, alinhar estratégias e discutir percepções sobre decisões internas do Banco Central que afetavam os interesses de Vorcaro.

Na conclusão do relatório, a PF afirma que Paulo Sérgio e Belline atuaram “de forma recorrente na defesa e promoção de interesses privados” de Vorcaro e extrapolaram, ao que tudo indica, os limites de suas funções. A corporação diz que as condutas são incompatíveis com o Código de Conduta do BC, que proíbe servidores de prestar consultoria, assessoria ou assistência técnica a pessoas e empresas com interesses perante a autarquia.

O relatório também aponta indícios de vantagens materiais destinadas aos dois servidores. No caso de Paulo Sérgio, a PF cita a organização de uma viagem à Disney para ele e a família. Sobre Belline, os investigadores apontam pagamentos reiterados e viagens organizadas por Vorcaro.

Sigilo do caso Master

Os documentos vieram a público depois que o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, mandou retirar o sigilo das investigações do Banco Master e dos processos relacionados ao caso. André Mendonça, relator das apurações, cumpriu a determinação e liberou o material aos demais ministros.

A retirada do sigilo ocorre em meio à crise aberta no STF após relatórios da PF sobre Daniel Vorcaro atingirem integrantes da Corte. Mendonça chegou a afastar o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência, Leandro Almada. Flávio Dino determinou a volta dos dois, e Fachin depois suspendeu as decisões, centralizou a análise dos processos na Presidência do Supremo e convocou o plenário para discutir o caso no dia 15.

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