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Como funciona a operação milionária por trás das frutas que chegam à mesa dos brasileiros

Crisfrut/Connect Fruit movimenta 32,8 milhões de quilos de frutas por ano em uma cadeia pressionada pelo clima e pela escassez de mão de obra

Luciene de Oliveira

Como funciona a operação milionária por trás das frutas que chegam à mesa dos brasileiros
Crisfrut movimenta 32,8 milhões de quilos de frutas por ano Rafael Zanardi

Para o consumidor, comprar fruta parece simples: escolher a maçã mais vermelha, apertar a pera para conferir o ponto, comparar preços e seguir para o caixa. Antes de chegar à gôndola, porém, aquele produto pode ter atravessado países, enfrentado temperaturas extremas, percorrido milhares de quilômetros em câmaras refrigeradas e passado por um rigoroso controle de qualidade. É esse universo que Rafael Zanardi, diretor comercial da Crisfrut/Connect Fruit, detalhou em entrevista ao Jovem Pan Business.

A Crisfrut/Connect Fruit é uma operação especializada na comercialização de frutas nacionais e importadas. Por ano, a empresa movimenta 32,8 milhões de quilos, o equivalente a 32,8 mil toneladas. Somente entre os três principais produtos são 700 mil caixas de peras (12,6 milhões de quilos), 400 mil caixas de maçãs (7,4 milhões de quilos) e 120 mil caixas de cerejas (600 mil quilos). Ameixas, kiwis, mirtilos e outras variedades respondem por mais 12,2 milhões de quilos.

Os números ajudam a dimensionar um negócio que depende de precisão. Fruta é um produto perecível, sensível ao clima, ao transporte e ao tempo, e qualquer erro na colheita, na temperatura ou na previsão de demanda pode comprometer uma carga inteira.

Hoje, diz Rafael Zanardi, é preciso procurar fruta no mundo todo. O Brasil produz muito, mas também exporta e nem sempre consegue atender sozinho à demanda do mercado interno. O trabalho da empresa é encontrar os melhores produtores, avaliar a safra, acompanhar a qualidade e garantir que a mercadoria chegue ao consumidor em boas condições.

Uma maçã trazida da Itália, por exemplo, pode passar cerca de 30 dias dentro de um contêiner antes de desembarcar no Brasil. Durante todo esse percurso, a cadeia de frio precisa ser preservada e depois que a fruta é resfriada, a temperatura deve ser mantida próxima de zero grau até a área de venda do supermercado.

Se essa cadeia for interrompida, o produto perde vida útil, aparência e qualidade. O prejuízo, nesse caso, não fica restrito à importadora ou ao varejista, pois os custos de descarte, transporte e reposição acabam chegando ao preço pago pelo consumidor.

A exigência do varejo tornou a operação ainda mais rigorosa. Dependendo da ficha técnica adotada pela rede, uma pequena quantidade de frutas fora do padrão pode levar à devolução de toda a carga. Uma caixa inteira, explica, pode ser rejeitada por causa de duas ou três frutas com algum defeito e quando isso acontece, a mercadoria precisa voltar, ser novamente selecionada e encaminhada a outro ponto de venda, com novos custos de frete, mão de obra e armazenagem.

Clima e mão de obra pressionam o setor

A produção de frutas está entre as atividades mais expostas às mudanças climáticas. Calor excessivo, escassez de água, geadas e alterações nos ciclos de chuva afetam o desenvolvimento, o tamanho, a coloração e o sabor dos produtos.

Durante uma visita recente a produtores da Itália e da Espanha, Rafael Zanardi encontrou temperaturas entre 40°C e 42°C. O calor compromete as frutas ainda no pé e também dificulta o trabalho no campo. Quando a colheita não ocorre no momento correto, o produto pode perder qualidade e acabar destinado à indústria por um valor muito inferior ao esperado pelo produtor.

A escassez de mão de obra é outro ponto crítico. Filhos de agricultores nem sempre querem permanecer na atividade, enquanto trabalhadores enfrentam condições cada vez mais adversas durante a colheita. A resposta tem sido a automação, mas seus efeitos variam conforme a etapa produtiva. Dentro das unidades de seleção e embalagem, máquinas reduzem custos e ampliam a produtividade. Já no campo, a mecanização exige mudanças no espaçamento das plantações e investimentos elevados, o que pode diminuir a área efetivamente produtiva no início do processo.

“Existe a ideia de que automatizar sempre deixa o produto mais barato, mas isso não acontece em todas as etapas”. No campo, ele pontua, a adaptação para máquinas e robôs pode elevar o custo, já depois da colheita, na seleção, embalagem e paletização, a tecnologia traz ganhos importantes.

Outro desafio é a velocidade com que os problemas de safra alteram os preços internacionais. Quando uma quebra de produção é identificada no Brasil, produtores de outros países recebem a informação quase imediatamente e ajustam suas negociações. Uma fruta ofertada por 20 euros, por exemplo, pode passar rapidamente a 21 ou 22 diante do aumento da procura.

O mercado brasileiro também mudou. O consumidor passou a buscar novas variedades, embalagens mais práticas e produtos associados à alimentação saudável. Frutas antes pouco conhecidas ganharam espaço, enquanto itens sazonais começaram a aparecer durante praticamente o ano todo. Para manter morangos, uvas, peras ou outras variedades nas lojas por 12 meses, as empresas precisam combinar safras de diferentes regiões brasileiras e fornecedores internacionais. Quando termina a produção em um estado ou país, começa a de outro.

Essa disponibilidade constante, no entanto, não significa que sabor, textura e preço serão os mesmos em todas as épocas. Uma fruta cultivada fora de seu ciclo mais favorável pode apresentar características diferentes daquela colhida no auge da safra. A nacionalidade também deixou de determinar o preço. Segundo Rafael Zanardi, uma fruta brasileira de padrão superior pode custar mais do que uma importada, já que origem, qualidade, oferta, câmbio, transporte, perdas e vida útil pesam na formação do valor final.

Nesse contexto, conhecer o comportamento do consumidor tornou-se tão importante quanto acompanhar o campo. Uma novidade pode ganhar espaço rapidamente ou desaparecer das gôndolas depois de poucos meses e a decisão de importar exige leitura de mercado, testes e diálogo constante com supermercados.

Entre as tendências observadas pela companhia está o avanço das frutas liofilizadas, submetidas a um processo que retira a água e preserva boa parte de suas características nutricionais, sem a necessidade de adição de açúcar ou conservantes. Leves e fáceis de transportar, elas vêm ocupando o espaço de snacks tradicionais em academias, escolas, viagens e atividades ao ar livre.

“A fruta deixou de ser apenas um produto comprado por quilo”, resume Rafael Zanardi. Ela pode chegar hoje em porções menores, embalagens práticas e formatos que acompanham a rotina do consumidor e quanto mais inovação e conveniência o setor oferecer, maior será o potencial de consumo.

No fim, o desafio da Crisfrut/Connect Fruit não é simplesmente colocar a fruta na gôndola. É fazê-la chegar no ponto certo, com qualidade, preço competitivo e tempo suficiente para ser escolhida pelo consumidor, antes que os 30 dias de viagem se transformem em prejuízo.

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