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Eliseu Caetano

Trump visa o uso do caso Flávio Bolsonaro para mobilizar republicanos nos EUA

Analistas avaliam que presidente poderá explorar episódio na reta final das eleições de meio de mandato

Eliseu Caetano

Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo em encontro com Donald Trump na Casa Branca
O senador brasileiro, recebido nos Estados Unidos pelo governo Trump, poderá ser apresentado aos conservadores como símbolo das denúncias de perseguição política e fraude eleitoral. Reprodução/X @BolsonaroSP

Donald Trump já incorporou a eleição brasileira à campanha nos Estados Unidos e deverá intensificar o uso político do episódio com a presença de Flávio Bolsonaro no país. A avaliação de analistas políticos ouvidos pela reportagem em território americano é que o presidente poderá transformar o caso em um alerta à sua base na reta final das eleições de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro.

O movimento começou a aparecer publicamente na terça-feira (27), durante um comício em Corpus Christi, no Texas. Ao acusar os democratas de fraudar eleições, Trump incluiu o Brasil na comparação e perguntou aos apoiadores se haviam acompanhado o ocorrido. A referência levou a disputa brasileira diretamente ao palanque republicano, uma semana antes da votação americana.

Na avaliação dos analistas consultados, a chegada de Flávio oferece um novo elemento para essa narrativa. O senador brasileiro, recebido nos Estados Unidos pelo governo Trump, poderá ser apresentado aos conservadores como símbolo das denúncias de perseguição política e fraude eleitoral.

A mensagem buscaria convencer o eleitor republicano de que precisa votar para impedir que seus adversários ampliem o poder em Washington. Ou seja, o caso brasileiro poderá ser usado nestes últimos dias de corrida eleitoral para reforçar o senso de urgência entre os apoiadores do presidente e estimular o comparecimento às urnas.

Essa leitura sobre os próximos passos de Trump se apoia nas manifestações públicas do presidente e na avaliação dos especialistas ouvidos pela reportagem. As acusações de fraude na eleição brasileira não foram comprovadas. O coordenador da campanha de Flávio, senador Rogério Marinho, inclusive afirmou em entrevistas que não há provas que permitam sustentar essa conclusão.

O paralelo entre Brasil e Estados Unidos também foi explicitado por Steve Bannon, ex-estrategista da Casa Branca e figura influente no movimento conservador americano. Ao comentar o resultado brasileiro, Bannon afirmou que, sem uma reação, algo semelhante aconteceria nos Estados Unidos na terça-feira seguinte, em referência às eleições de meio de mandato.

A manifestação de Bannon reforça a avaliação de que o episódio poderá ganhar espaço no discurso conservador durante os últimos dias da campanha. Para os analistas consultados, Trump deverá aproveitar essa repercussão para associar o apoio a Flávio à necessidade de fortalecer os candidatos republicanos.

O contexto eleitoral ajuda a explicar o potencial político do episódio. Pesquisa Reuters/Ipsos realizada entre 22 e 26 de outubro mostra os democratas com 53% das preferências entre os prováveis eleitores para o Congresso, contra 44% dos republicanos. O levantamento mede o apoio ao candidato de cada partido no distrito do entrevistado, sem determinar isoladamente o resultado das disputas locais.

Outra pesquisa, do instituto Marist em parceria com NPR e PBS News, aponta 52% para os democratas e 44% para os republicanos entre os prováveis eleitores. Nesse levantamento, 44% dizem que seu voto para o Congresso representa principalmente uma manifestação contra Trump, enquanto 21% o consideram um voto a favor do presidente.

Os números alimentam a possibilidade de uma “onda azul”, expressão usada nos Estados Unidos para descrever um avanço expressivo dos democratas, identificados pela cor azul. O tamanho desse movimento dependerá do desempenho dos candidatos nos estados e distritos e da participação dos eleitores.

Trump não estará nas urnas em novembro. Estarão em disputa todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e aproximadamente um terço do Senado, além de governos estaduais e outros cargos. O resultado definirá as condições políticas para os dois últimos anos de seu mandato. Uma maioria democrata poderá dificultar a aprovação de projetos e ampliar a fiscalização sobre o Executivo.

Para os analistas ouvidos, a oportunidade está principalmente na mobilização dos conservadores que já apoiam o presidente, mas podem deixar de votar. A presença de Flávio poderá ajudar Trump a apresentar essa eleição como uma disputa de consequências mais amplas para a direita, recorrendo ao Brasil como exemplo em seus apelos ao eleitorado.

Trump também tem procurado preservar margem de atuação em relação ao Brasil. Nesta quarta-feira (28), ao ser questionado sobre a reivindicação de Flávio de que seria o verdadeiro presidente eleito, respondeu que não comentaria o assunto e afirmou que não iria se envolver. Ao mesmo tempo, voltou a classificar a eleição como “muito estranha” e disse considerar injusto o tratamento recebido pelo senador e sua família.

Na avaliação dos especialistas consultados, essas declarações permitem que Trump manifeste solidariedade ao aliado e explore eleitoralmente o episódio sem assumir publicamente um compromisso com a contestação do resultado brasileiro. A expectativa dos analistas é que o presidente intensifique essa abordagem até a votação, buscando converter a repercussão do caso em mobilização para os candidatos republicanos.

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