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Helena Degreas

A cidade ainda vive por um fio

Em dezembro de 2025, cinco dias sem luz retiraram R$ 2,1 bilhões do faturamento do comércio e dos serviços, segundo a Fecomercio SP. Passada a emergência, reaparece a solução conhecida: enterrar a fiação

Helena Degreas

A cidade ainda vive por um fio
chuva A A/Unsplash

Já nem cito as imagens dos temporais que inundam — desculpem o trocadilho — as telas dos jornais. A cena repete-se desde quando eu era criança: árvores caídas, postes inclinados, semáforos apagados e moradores perguntando quando a energia voltará. Em dezembro de 2025, cinco dias sem luz retiraram R$ 2,1 bilhões do faturamento do comércio e dos serviços, segundo a Fecomercio SP. Passada a emergência, reaparece a solução conhecida: enterrar a fiação.

Nas redes sociais, a promessa costuma vir pronta e linda! De um lado, calçadas estreitas, postes e cabos enrolados no ar. Do outro, cidades estrangeiras sob um céu desimpedido, com árvores inteiras e calçadas livres. A conclusão parece evidente: bastaria enterrar os fios.

Não é tão simples. Sob calçadas e ruas já passam redes de água, esgoto, drenagem, gás, energia e telecomunicações. Faltam levantamentos, plantas atualizadas e coordenação entre concessionárias e intervenções públicas. Sem isso, a cidade corre o risco de transferir a desordem do alto para o subsolo. Enterrada, a desordem deixa de ser vista — não de existir.

São Paulo ensaiou uma solução com a Lei Municipal nº 14.023, aprovada em 2005 e regulamentada no ano seguinte. A norma previa converter redes aéreas em até 250 quilômetros lineares de vias por ano. Em 2015, a portaria do programa foi suspensa pela Justiça diante do conflito com a competência federal sobre energia e telecomunicações.

A lei permaneceu e a política prevendo o planejamento, como de costume, não veio.

Intervenções negociadas permitiram enterrar redes no Centro, no Mercado Municipal e na Avenida Santo Amaro. Em agosto de 2025, o município contabilizava 47 quilômetros de vias atendidas e 1.059 postes retirados. É pouco. Pior: São Paulo ainda não sabe quanto precisa enterrar, por onde começar, quanto custará nem quem responderá pelas etapas.

O município deve mapear o subsolo, licenciar e coordenar as intervenções com outras obras. Aneel e Anatel, cada qual em sua área de competência, devem estabelecer as condições regulatórias. Concessionárias de energia e empresas de telecomunicações respondem pelos projetos, pela conversão e pela manutenção das redes. A população deve participar da definição das prioridades e acompanhar o processo. Se a solução escolhida for uma parceria público-privada, o contrato deverá indicar quem constrói, quem conserva e quem fiscaliza.

O enterramento dos cabos não cabe ao proprietário do imóvel. Quem explora as redes instaladas no espaço aéreo e no subsolo precisa participar da conta.

Curitiba começa por aí. Com o BNDES, a prefeitura estrutura uma parceria público-privada para enterrar até 120 quilômetros de cabos, com investimento estimado em R$ 1,2 bilhão. Paralelamente, informa ter plantado 261 mil árvores desde janeiro de 2025 e anunciou a distribuição de outras 10 mil mudas em agosto, a caminho da meta de 500 mil até 2028. Os programas são distintos, mas sua coexistência impõe uma pergunta necessária: se a cidade pretende ampliar suas copas, por onde passarão os fios?

Antes de abrir o chão, o projeto passa por diagnósticos e por uma modelagem técnica, jurídica e econômico-financeira. É esse trabalho que deverá calcular custos, distribuir riscos, definir responsáveis, fontes de receita e manutenção. A conta pode combinar recursos públicos, operações urbanas, aportes privados e obrigações urbanísticas de novos loteamentos. Quem utiliza as redes também precisa participar, sem transferir toda a despesa ao orçamento municipal ou, automaticamente, à tarifa.

Paris, Nova York, Londres e Seul dividiram a conta entre governos, empresas, fundos específicos e tarifas reguladas. Não houve mágica nem imposição legal — leis, aliás, é o que não falta neste país. Houve planejamento e continuidade.

Por onde começar? Uma cidade formada por territórios distintos não cabe numa solução genérica de Lei. Começa-se onde a interrupção produz consequências graves e a rede mais falha: corredores hospitalares, centros históricos, vias arborizadas — ou destinadas à arborização — e locais sujeitos a apagões frequentes. São prioridades possíveis, não uma lista pronta. A escolha deve seguir critérios públicos e ser construída com a população, conforme prevê o Estatuto da Cidade.

Continuamos discutindo os fios que emaranham o céu e disputam espaço com as árvores, quando deveríamos planejar a cidade para que redes e copas deixem de entrar em conflito. Enquanto essa política não sair do papel, bastará a próxima chuva para lembrar-nos de que São Paulo ainda vive por um fio.

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