Armistício à vista?
Em menos de um mês, a violenta Guerra da Ucrânia completará três anos de uma nova fase de intensas batalhas e destruição da infraestrutura no leste europeu. Apesar do consenso da comunidade internacional que a guerra deva acabar, quase nada foi feito diplomaticamente para, de fato, colocar um fim neste conflito. Ao longo da campanha presidencial norte-americana de 2024, Donald Trump deixou claro que seu principal objetivo geopolítico, além da política America first, seria colocar um fim rápido em uma guerra com grande participação indireta dos Estados Unidos. As utópicas promessas de mediar um cessar-fogo em 24 horas, foram logo substituídas por um acordo costurado por meses, e por fim, se transformaram em uma enorme incerteza em suas premissas e implementação.
As evasivas declarações de Trump sobre os moldes de um acordo de paz, fizeram muitos inferirem que as propostas americanas para a solução da Guerra na Ucrânia seriam feitas a partir de um abandono gradual do apoio à Kiev e a realização de um armistício que declarasse de forma irrefutável a vitória russa. A Rússia, com todo seu poderio militar, fez de fato, ganhos territoriais expressivos na Ucrânia, alcançando quase a totalidade do oblast de Luhansk, mais de 70% dos osblasts de Kherson e Zaporizhia e mais de 50% do oblast de Donestk, áreas altamente industriais de seu país vizinho e que correspondem a cerca de 20% de todo o território ucraniano.
Todavia, esses ganhos, foram menores do que incialmente estabelecidos, sem alcançarem as duas maiores cidades do país, Kharkiv e Kiev, e sem conseguir uma alteração de regime na Ucrânia. Além de conquistas abaixo da expectativa, Moscou, sofreu a imposição das mais duras sanções econômicas já aplicadas pelo Ocidente, vendo o derretimento do valor de sua moeda, a fuga de capitais e alta inflação por quase todo os cantos da Rússia. Perante uma balança de perdas e ganhos tão complexa, uma saída diplomática nesse momento, poderia ser uma conclusão positiva do conflito para Vladmir Putin.
Ao contrário das falas amistosas a Vladmir Putin, a primeira declaração de Donald Trump, através das redes sociais, manda uma mensagem clara e em uma linguagem de fácil compreensão: “acabe com essa guerra ridícula”. O presidente dos Estados Unidos ressaltou que, caso um acordo não seja feito pelos russos, o governo norte-americano será obrigado a impor mais sanções e novas tarifas à Rússia. Muitas sanções aos russos já foram impostas pelo governo de Joe Biden, e fariam pouco efeito na relação econômica já apagada entre os dois, porém, as falas de Trump revelam, talvez, que a saída para os russos não será triunfante como esperava Putin. O Kremlin se diz aberto às mediações dos norte-americanos para a finalização do conflito, mas ressalta que aos interesses russos deverão ser preservados e que os ganhos territoriais na Ucrânia são inegociáveis.
Nas trincheiras opostas, os ucranianos, também se preparam para uma provável mediação do conflito em 2025. O presidente Volodymir Zelensky, em aparição surpresa no Fórum Econômico de Davos, mencionou pela primeira vez que para finalizar o conflito e ter as suas fronteiras protegidas necessitará de 200 mil soldados de aliados europeus e norte-americanos atuando como forças pacificadoras. Segundo Zelensky, esse contingente seria fundamental para garantir que os russos jamais agrediriam novamente o território soberano da Ucrânia, ou pelo menos, o que sobrasse dele sob o controle de Kiev. As concessões territoriais, que inevitavelmente acontecerão, não foram amplamente mencionadas, mas constituem o maior desafio para os mediadores na construção de um consenso.
As informações que temos em mãos neste momento, não nos permitem dizer de forma categórica, que um cessar-fogo será costurado ainda em 2025, mas as recentes falas dos dois beligerantes e seus principais fiadores, indicam que o caminho para um desfecho começou a ser pavimentado. As dificuldades econômicas da Europa ocidental e as promessas de campanha de Donald Trump, forçariam uma mudança no modus operandi ocidental nesta guerra. A perspectiva econômica alarmante para a Rússia e o enorme custo humano através da perda de dezenas de milhares de homens, também revelam a fadiga de Moscou em continuar esse conflito. Portanto, há sim um armistício à vista, mas ainda visto como imagem pouco nítida dentro do turvo cenário geopolítico atual.
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