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‘Comecei do negativo’, diz empresário que hoje abastece grandes redes com mamão o ano inteiro

'Comecei do negativo', diz empresário que hoje abastece grandes redes com mamão o ano inteiro

Luciene de Oliveira

‘Comecei do negativo’, diz empresário que hoje abastece grandes redes com mamão o ano inteiro
Altenis Galavotti Carraretto Divulgação

Em 2002, Altenis Galavotti Carraretto decidiu trabalhar por conta própria e tinha um único bem para financiar a ideia. Vendeu o carro por R$17 mil, pegou outros R$35 mil emprestados e passou a comprar e revender mamão. “Tem gente que fala que começou do zero. Eu comecei do negativo”, conta o fundador da AGC, sigla formada pelas iniciais do seu nome.

Ele não partia do desconhecido. Havia entrado no ramo em 1998, aos 18 anos, contratado por um produtor para comercializar a fruta na Ceasa da Grande Vitória. Comprava mamão, carregava o caminhão, acompanhava as entregas e aprendia a negociar. Em três ou quatro anos, já tomava conta de praticamente toda a operação do antigo patrão.

Quando saiu, não disputou clientes com ele. Como o ex-empregador vendia apenas em Vitória, Altenis levou a fruta para fora do Espírito Santo, com destino ao Rio de Janeiro e São Paulo. Os primeiros anos foram de compra e venda diária, com o mamão saindo da lavoura direto para caixas de madeira, num processo ainda artesanal. Com o dinheiro que entrava, começou também a plantar.

A empresa aberta com o valor de um carro processa hoje de 40 a 50 caminhões de mamão por dia, algo entre 7 milhões e 8 milhões de quilos por mês e emprega cerca de 800 pessoas. O mamão responde por 90% da receita, segundo o empresário. O restante vem da venda de outras frutas nas centrais de abastecimento.

A AGC nasceu no estado que mais produz mamão no país. O Espírito Santo colheu 385,9 mil toneladas da fruta em 2025, 33,3% da produção nacional, de acordo com a Produção Agrícola Municipal (PAM), divulgada pelo IBGE em setembro.

Do modelo inicial de compra e venda, o grupo passou a atuar em todas as etapas: planta, compra de outros produtores, transporta em frota própria e vende em boxes na Ceagesp, em São Paulo e na Ceasa capixaba, além de manter centros de distribuição no Sul e no Nordeste. O processo acumula cinco certificações internacionais, de acordo com Altenis.

São três packing houses, como são chamadas as unidades em que o mamão é lavado, higienizado, selecionado e embalado. A de Sooretama (ES), onde fica a matriz, trabalha sobretudo com papaya e recebe fruta do Espírito Santo e do sul da Bahia. A de Minas Gerais, dedicada ao formosa e ao mercado interno, capta a produção do Vale do São Francisco e do cerrado. A de Baraúnas (RN) atende exclusivamente a exportação. Cada unidade tem um sócio à frente e a empresa segue com capital fechado. Um primo do fundador integra a sociedade, mas chegou lá, nas palavras dele, por mérito e não por parentesco.

Estar em três regiões garante oferta o ano inteiro e é isso que as grandes redes cobram. O fornecedor que falha numa semana perde a vaga na seguinte. “Você tem que ter o produto todo dia”, afirma o CEO. Há clientes que recebem mamão da AGC praticamente todos os dias do ano, e em algumas redes a empresa é a única fornecedora da fruta, segundo ele.

O mamão é colhido no ponto, com poucas listras amarelas na casca, lavado e encerado no dia seguinte e passa cerca de seis horas em câmara fria antes de seguir viagem. O ideal, explica o empresário, é que a fruta deixe o packing house no segundo dia e chegue ao mercado no terceiro, já que a vida útil média fica entre sete e 10 dias. Pedidos feitos na segunda ou na terça costumam chegar a São Paulo na quarta. Se um caminhão quebra na estrada, parte da frota é desviada para que a loja não fique sem o produto.

No mercado externo, o prazo aperta ainda mais. Todo o mamão exportado pela AGC segue de avião, com destino à Europa, ao Canadá e, eventualmente, à Argentina. O perfil da demanda também virou. No início, só o papaya era embarcado, hoje, segundo Altenis, o formosa responde por cerca de 80% das exportações do grupo. No primeiro trimestre de 2026, as vendas externas de frutas do país somaram US$351,1 milhões, alta de 25% sobre igual período de 2025 e o mamão avançou 19% em valor e 11% em volume, conforme a Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas).

Com os supermercados, o que se fecha é o volume. Os contratos garantem o fornecimento, mas o preço é renegociado toda semana e, às vezes, no mesmo dia. As grandes redes costumam recorrer ao leilão reverso, modelo em que leva o pedido quem oferece o menor valor. Altenis descreve a conta sem rodeios: com 10 caminhões para vender e 20 compradores interessados, o preço sobe; na situação inversa, cai. “Todo dia é uma nova história”, resume. Na avaliação dele, escala, qualidade e pontualidade seguram o cliente diante de pequenas diferenças de preço. O risco real surge quando a distância em relação à concorrência chega a 15% ou 20%.

Para 2026, a conta ficou mais pesada. Falta mão de obra em algumas regiões e o diesel, que a empresa comprava a cerca de R$5 o litro, passou para a faixa de R$6,50 a R$7 com a alta do petróleo. A tabela de piso mínimo do frete elevou o custo de uma carga saída do Nordeste de R$13 mil ou R$14 mil para R$23 mil, nas contas do empresário. Com consumo desaquecido e juros altos, repassar esses aumentos ao varejo não tem sido viável. A expectativa de crescimento para o ano fica entre 5% e 10%.

Altenis também cobra mais proximidade entre quem planta e quem vende. Quando um lote chega com problema, a causa pode estar na lavoura, no transporte, na descarga ou na forma como a fruta é armazenada e exposta na loja. Por isso, a AGC mantém vendedores nas capitais onde atua, com a tarefa de acompanhar o ponto de venda e reportar o estado da fruta. “Quanto mais o produtor estiver perto do ponto de venda, melhor vai ser o resultado”, diz.

Ao consumidor, ele recomenda olhar a origem e o selo de qualidade da embalagem, e não se deixar enganar pela aparência. Um mamão de casca mais enrugada, segundo o empresário, pode estar mais saboroso do que um de pele lisa e brilhante. A ambição que ele declara para a AGC tem um modelo fora do campo: fazer com a fruta o que a Cacau Show fez com o chocolate e levar um produto de qualidade a quem antes não tinha acesso a ele, de norte a sul do país.

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