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Negócios

Quase um século de transformação

Aos 99 anos, Aliança combina tradição industrial, sucessão familiar e investimento em tecnologia

Luciene de Oliveira

Quase um século de transformação
Marcos Bastos Divulgação

Poucas empresas chegam aos 99 anos ainda competitivas. Na indústria, esse caminho envolve atravessar crises econômicas, acompanhar mudanças no consumo e rever produtos que, em algum momento, pareciam suficientes para garantir o futuro do negócio.

Uma pesquisa divulgada pela Confederação Nacional da Indústria em março de 2026 mostra que 61% das indústrias brasileiras realizaram atividades de inovação nos últimos três anos. Entre elas, 69% concentraram os esforços na melhoria dos processos produtivos. O aumento da produtividade foi o resultado mais citado, apontado por 38% dos entrevistados.

O levantamento ouviu executivos de mais de mil empresas industriais de pequeno, médio e grande porte em todas as regiões do país. Os dados mostram que inovar deixou de ser uma discussão restrita às empresas de tecnologia. Hoje, faz parte da rotina de fábricas que precisam produzir melhor, reduzir custos e encontrar novos espaços no mercado.

Fundada por Max Lowenstein em 1927, a Aliança Metalúrgica acompanhou diferentes fases da economia brasileira. Passou pela Segunda Guerra Mundial, por mudanças de moeda, inflação elevada, planos econômicos e pela chegada dos sistemas digitais à produção.

“A Aliança passou por toda sorte de ambiente. O grande segredo foi a capacidade de se reinventar, buscar um bom posicionamento e, muitas vezes, antecipar a própria demanda do mercado”, afirma Marcos Bastos, CEO da companhia.

A fabricante nasceu com uma linha diferente da atual. Segundo o executivo, durante a Segunda Guerra, a Aliança foi chamada a fornecer materiais às Forças Armadas brasileiras. Não produziu armamentos, mas sim, utensílios, fivelas e estribos para cavalos utilizados pelo Exército. Algumas dessas peças integram seu acervo e serão expostas nas comemorações dos 100 anos, em 2027.

Décadas depois, uma demanda ligada à expansão do gás de cozinha abriu um novo caminho. Na época, os reguladores para gás disponíveis no Brasil eram importados. Uma fornecedora de gás procurou a Aliança para desenvolver o equipamento no país.

Com a popularização do botijão, o componente passou a fazer parte de milhões de residências. Sua função é controlar a pressão com que o gás chega ao fogão e a outros aparelhos. Apesar da importância, quase sempre fica escondido atrás do eletrodoméstico, junto ao recipiente ou até coberto por uma toalhinha de crochê.

De acordo com o Inmetro, o regulador deve ser certificado e tem validade de cinco anos a partir da fabricação. Bastos afirma que a Aliança foi pioneira na produção do dispositivo no Brasil e, posteriormente, ampliou sua presença nos segmentos doméstico e industrial.

Ao longo das décadas, os controles manuais deram lugar a sistemas integrados e plataformas de gestão. A modernização acompanhou o crescimento da operação e as mudanças na própria indústria.

Hoje, a terceira geração da família é representada pelos irmãos Daisy Lili e João Luiz Walter Lowenstein. Formada em Letras Daisy assumiu a presidência após o afastamento da mãe por problemas de saúde, em um período de grave crise financeira.

Ela conduziu a recuperação judicial, ampliou as exportações para a América do Sul e levou a companhia a um faturamento de R$400 milhões em 2025, segundo reportagem da PEGN. Atualmente, divide a liderança com João Luiz, presidente do conselho consultivo.

“Há uma grande dose de paixão, tanto da família quanto dos colaboradores, em fazer essa marca perpetuar”, diz Bastos.

A fábrica entra agora em uma nova etapa. Mais de dez frentes de IA estão em andamento nas áreas financeira, de suprimentos, manufatura e inteligência de mercado.

Na fábrica, a tecnologia interpreta sinais emitidos pelas máquinas e ajuda a antecipar necessidades de manutenção. Nos setores administrativos, organiza informações, apoia diagnósticos e contribui para a projeção de cenários.

“Inteligência artificial não é um modismo. É uma aplicação para melhorar processos, atender melhor e prever melhor as coisas”, declara.

A modernização chegou também às fechaduras. Modelos eletrônicos com senha, biometria e controle remoto começam a aparecer em projetos que antes adotavam apenas versões mecânicas.

Segundo Bastos, a Aliança tem recebido consultas de construtoras com empreendimento de 500 apartamentos ou mais, nos quais a fechadura eletrônica já aparece entre as especificações. O equipamento deixou de ser exclusividade dos imóveis de alto padrão e passou a atender projetos de menor tíquete.

Os modelos mais avançados permitem cadastrar usuários, restringir horários, acompanhar entradas e criar senhas temporárias. As funções facilitam o acesso de prestadores de serviço e a administração de imóveis destinados à locação por curta temporada.

Para o centenário, a Aliança prepara uma fechadura equipada com câmera e identificação facial. O morador poderá reconhecer quem está diante da porta e autorizar ou negar a entrada remotamente.

Quando completar 100 anos, a marca terá percorrido um caminho que começou com utensílios para soldados, passou pela produção nacional de reguladores de gás e chegou às casas conectadas. Mudaram os produtos, os processos e o consumidor. A Aliança mudou junto.