Auxílio sem contrapartidas teria mais efeitos negativos do que positivos, diz Campos Neto

Presidente do Banco Central afirma que há pouco espaço para o pagamento do benefício e que mercado espera que o país mantenha a responsabilidade fiscal

  • Por Jovem Pan
  • 09/02/2021 13h09 - Atualizado em 09/02/2021 14h09
José Dias/PRPresidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirma que há pouco espaço fiscal para o pagamento do auxílio

O retorno do auxílio emergencial sem a contrapartida de medidas que reduzam o risco fiscal trará mais efeitos negativos do que positivos para o crescimento econômico do país, afirmou Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, nesta terça-feira, 9. O governo federal cedeu à pressão do Congresso e já admite o retorno do benefício, mas vincula o pagamento à criação de gatilhos que cortem custos em outras frentes. Segundo o presidente da autoridade monetária nacional, o endividamento recorde do país exige adoção de medidas que mostrem aos investidores responsabilidade com os gastos públicos. “Nós passamos por um ponto de inflexão em que o mercado está nos dizendo que se você apenas gastar mais, a reação do mercado à fragilidade que o país terá com a situação fiscal, o efeito vai se sobrepor aos benefícios de colocar mais dinheiro na economia”, afirmou.

A expectativa é que a nova rodada do benefício seja de R$ 200, com duração de três meses para aproximadamente 32 milhões de brasileiros. As condições estão bastante reduzidas da transferência de R$ 600 para quase 65 milhões milhões de pessoas entre abril e dezembro de 2020. Segundo contas da equipe econômica, a medida consumiu mais de R$ 300 bilhões do cofres públicos. Apesar do Ministério da Economia ressaltar que o pagamento deve ser consequência da aprovação de medidas que liberem o orçamento e criem gatilhos para o corte de despesas, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), disse que “não se pode condicionar novas rodadas de auxílio à aprovação de propostas de ajuste fiscal”, como a PEC Emergencial. Apesar da apreensão do mercado para o descumprimento do teto de gastos, Campos Neto afirma que não deve se especular sobre medidas hipotéticas. “O espaço é bastante limitado, e pelo o que eu ouvi do Executivo e do Legislativo, o auxílio estará dentro da disciplina fiscal.”

Em videoconferência do Observatory Group nesta manhã, Campos Neto também afirmou que o Banco Central acompanha a curva inflacionária com cautela e manteve o discurso que o avanço nos últimos meses é reflexo de choques temporários. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgados hoje apontaram a perda de fôlego do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no início do ano com avanço de 0,25% em janeiro ante 1,35% em dezembro. No acumulado de 12 meses, no entanto, a inflação está em 4,56%, acima do centro da meta de 3,75% — com margem para ficar entre 5,25% e 2,25%. “Muitos dados ainda estão para vir, de inflação e de crescimento. Vamos tentar entender o que é estrutural e o que não é, olhar todos os componentes e ver como isso está distribuído na cadeia.”

A inflação fechou 2020 com alta de 4,52%, pressionada principalmente pelo encarecimento dos alimentos diante da disparada do dólar e do aumento das demandas doméstica e internacional. Foi o maior valor para o IPCA desde 2016, quando o índice encerrou com alta de 6,29%. Em 2019, a variação de preços foi de 4,31%. O índice ficou acima da meta de 4% perseguida pelo Banco Central — com margem para variar entre 2,5% e 5,5%. O índice veio acima do esperado pelo mercado. Economistas e entidades consultados pelo BC estimavam que o IPCA encerrasse 2020 com alta de 4,37%, segundo o último Boletim Focus divulgado em 2020. Para este ano, os agentes econômicos estimam que a inflação cresça 3,6%. Esta foi a quinta revisão para cima seguida. Há uma semana, a expectativa era alta de 3,53%, enquanto há um mês, a previsão chegava a 3,34%.

O mercado manteve a expectativa para a Selic, o principal instrumento do Banco Central para controlar a inflação, em 3,5% ao ano. O valor é o mesmo da semana passada e acima dos 3,25% registrados há um mês. O Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic a 2% ao ano na primeira reunião de 2021, decisão já esperada pelo mercado financeiro. A novidade foi a retirada do foward guidance, como foi classificada a política de não aumentar juros. Em nota, os técnicos do BC afirmaram que as condições para a manutenção da Selic rebaixada já foram cumpridas. O recado, porém, enfatizou que a derrubada da medida não significa o aumento automático da Selic nos próximos encontros. A próxima reunião do Copom será entre os dias 16 e 17 de março.